“Olhamos para ele, boquiabertos e quase sem fôlego. Naquela situação, não contamos ao doente as horas que passamos.” - Revista piauí
Para o fenômeno há muitos nomes: Jornalismo Literário, Novo Jornalismo, Reportagem-ensaio, Literatura da Realidade. Em suma, o que tudo isso invoca é o jornalismo do dia-a-dia tecido com a arte da palavra: a literatura.
Sabemos que o jornalismo em si não é literatura, pois trata antes de fatos crus, e sem subjetividade. Tem maior preocupação em informar do que ser arte. Entretanto, pela ótica do Novo Jornalismo, literatura e informação podem sim serem aliados.
Nele, a notícia não é somente construída por fatos objetivos; como, onde, quando, ou o quê. Passa antes pelo tratamento subjetivo do repórter-autor, que, procurando ser fidedigno ao real, descreve uma observação um pouco mais literária (ou lírica) do acontecimento.
“…Mais que uma técnica narrativa, o JL é também um processo criativo e uma atitude (…) fatores que o projetam, hoje, como alternativa (óbvia) para arejar os conteúdos de jornais e revistas, principalmente, mas também de documentários audiovisuais, radiofônicos e até sites.” - Vilas Boas
Tudo começa na década de 40, e um começo contravertido. Uns consideram Trumam Capote e seu A Sangue Frio o grande marco, já outros, o anterior Hiroshima, de John Hersey (ambos autores estadunidenses). Entretanto, um novo estilo não é medido por um único marco, mas sim por uma corrente expressiva de novas produções que comunicam entre si, em um processo gradual.
Aqui no Brasil a imprensa passou a praticar esta modalidade de produção nos anos 60, ecoada nas publicações de revistas como Realidade e O Pasquim, até hoje muito saudosas por seus contemporâneos. Cabe lembrar que desde muito antes do pioneirismo estadunidense, ainda em 1897, nosso Euclides da Cunha, publicando Os Sertões em artigos no jornal O Estado de São Paulo (e em 1902, o livro) pode ter de fato realizado uma obra com as características próprias no Novo Jornalismo.
Em Os Sertões, “escrito nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante”, Euclides se envereda romanceando os fatos que vivenciou na Canudos de Antônio Conselheiro, mudando a perspectiva de que se tinha da Revolta, humanizando os acontecimentos e questionando a intervenção do Estado.
Apesar do nome Novo, vê-se que não é de agora o movimento (embora nos últimos tempos a corrente tenha sido ressuscitada com lançamentos aqui). As revistas Brasileiros, piauí, e Rolling Stone Brasil, são em si bons exemplos.
Curiosa, passei a acompanhar alguns números da Revista piauí, que é mensal. O fato de ser mensal, não anula a informatividade. E por ser mensal, a leitura rende mesmo pelo mês todo. Densa e de qualidade (não sem um pouco de hermetismo), a proposta tem peculiaridades que garantem sucesso. Os textos são envolventes, criativos, profundamente ligados com a responsa-bilidade social, e que permitem a reflexão dos fatos.

Entretanto, pensando sobre o drama de estarmos num país de não-leitores, ou ao menos num lugar onde uma parcela ínfima tem acesso à literatura, pergunto a quem se direciona o Jornalismo Literário. Sim, porque apesar de tudo, tudo ainda parece distante, um sonho quase intelectual.
Diferente do que ocorre em outros países, onde a literatura é só mais um joguete de mercado, acredito em outros parâmentros. É muito triste fomentar a leitura somente para transformar o livro em mais um objeto de consumo, cercado de marketing, capas chamativas nas prateleiras; ler os famosos best-sellers porque todo mundo leu, e no fim, consumir, consumir, e consumir…
Não. Ler vai muito além disso. É uma questão de cultivo de si mesmo, de se apropriar de ferramentas de transformação. Talvez a reflexão proposta no Jornalismo Literário, a emoção integrada aos dados frios, nos transforme em melhores leitores quotidianos, em melhores humanos. E chega daquela idéia de que ler o primeiro parágrafo de cada notícia nos deixa “informados”.
A informação vai além. A literatura, também. No fundo, uma pausa de reflexão na era da fast-informação.
Um grande abraço,
Carla Guedes



















