Arquivo da Coluna Literatura

Leitura no Brasil: Alguns Flashes

Literatura

Dia 29 de Outubro foi comemorado o Dia Nacional do Livro, e não podemos passar sem honras à comemoração desta semana. A propósito, o dia fora escolhido em homenagem à Biblioteca Nacional, pois que “a 29 de outubro de 1810, o Príncipe Regente determinou que no lugar que servia de catacumba aos religiosos do Carmo, fosse erigida e acomodada a Real Biblioteca no Brasil”…

O primeiro livro publicado pela Imprensa Régia aqui no Brasil consta de Marília de Dirceu, com poemas de Tomás Antônio Gonzaga à sua musa, Maria Dorotéia. Apesar disso, somente no ano de 1925, com os impulsos do escritor Monteiro Lobato para a criação da Companhia Editora Nacional, que houve uma pequena revolução no mercado editorial.

Este ano, mais uma vez, repetimos a pergunta que nunca cala: festejar o quê?!

Tempo, principalmente, de balanços. O Instituto Pró-Livro e o Observatório do Livro e da Leitura apresentaram dados recentes na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, uma espécie de perfil do leitor brasileiro (ou também, do não leitor) no ano de 2007, e que de boa reflexão.

Na pesquisa em questão foram registrados alguns avanços em relação à última edição, que data de 2000. Nisso há alguma alegria, mas os avanços, como sempre, não são suficientes. Nas palavras de Galeno Amorim, “só não dá para parar para festejar porque há um chamamento nacional para pôr as mãos à obra.”

A realidade é crua. O tempo dedicado à leitura é baixo (a grande maioria, de 1 a 3 horas semanais); 48% dos entrevistados não haviam lido um livro há pelo menos três meses antes da pesquisa, e a média de livros comprada por ano é de 1,2 livro por leitor. Soma-se a isso a baixa renda, a dificuldade de acesso, e principalmente, a falta de incentivo (próprio e externo).

Uma boa surpresa é o aumento do índice de leitura. Outra é a preferência dos leitores pela poesia. Este dado deixa um grande ponto de interrogação, já que a dificuldade de publicação e venda nesse gênero é enorme. Fica aí um bom campo a ser trabalhado pelas editoras, divulgadores e livrarias.

Fatos em números? Aqui vão alguns deles:

Dificuldades de leitura: 17% lêem muito devagar; 7% não compreendem o que lêem; 11% não têm paciência para ler; 7% não têm concentração.

Ausência de leitura: 54% por falta de tempo; 34% têm outras preferências; 19% por simples desinteresse; 18% por falta de dinheiro; 15% por falta de bibliotecas.

No ranking de preferências, a leitura aparece em quinto lugar, logo após assistir televisão (com esmagadores 77%), ouvir música, ouvir rádio -notícias- e descansar (50%).

Há a pertinente reclamação de falta dos “pontos de venda”, requerendo uma melhor manutenção e fomento de livreiros e livrarias. Com irrisórios 2%, a venda pela internet nem tão cedo chegará à maioria da população, e, se chegar, não substituirá o contato e uma boa prateleira.

Vê-se que há um grande problema de acesso aos livros. Mas, mesmo tendo-os ao alcance, falta a descoberta, o prazer. É sabido também que a escola, querendo ou não, torna o livro um objeto chato e obrigatório. Assim, quando o aluno finda os estudos, faz questão de manter certa distância da leitura, desconhecendo a diversão que é se aventurar pelo próprio imaginário…

Mas, o trabalho de reversão desta imagem só está por começar. Cabe a nós redescobrir a importância cultural e social da leitura, e contagiar a todos ao redor. A iniciativa pra mudança começa no micro: presenteie com um livro, doe alguns já lidos, dê ao seu amigo a dica daquele livro que marcou sua vida, leia uma estória para alguma criança. Assim, sempre garantiremos um feliz Dia Nacional do Livro!

Plá da Semana

Este é o Meu Corpo, de Filipa Melo
135 páginas - Ed. Planeta

Este é um desses livros inquietantes e apaixonantes. Romance de estréia da jornalista angolana, trata de muitos corpos; vivos e mortos. Tudo gira em torno de uma trama, e um assassinato, trazendo, em cada observação, por mais crua que pareça, uma sensibi-lidade estonteante.

Uma ótima semana, e até!
Carla Guedes

Mas este capítulo não é sério

Literatura

“A língua é o que nos une.” - frase de entrada do Museu da Língua Portuguesa

Mais um dia frio e cinzento em São Paulo. Com um mapa do metrô nas mãos, uma câmera fotográfica e algumas referências, parto ao meu destino. No metrô, sentado ao meu lado, um senhor idoso lia tranquilamente seu jornal.

Tento dar uma espiada para tentar ler qualquer coisa. Entretanto, para meu espanto, não consegui decifrar uma notícia sequer do periódico: todas, absolutamente, grafadas em japonês! Senti-me completamente analfabeta.

“— É aqui.”, me diz educadamente o senhor do jornal, três estações depois. Agradeço-o alegre e desço, finalmente, na Estação da Luz. Embora suas particularidades, ainda falamos a mesma língua neste mesmo solo.

O Museu da Língua Portuguesa é um prédio amarelo e conservado, que se espicha com sua torre-relógio até o fim da esquina. Adorável de se contemplar. Meus olhos e minha câmera não se cansam de registrá-lo.

Portão 1, bilheteria, elevador. Já no elevador, o clima. Ao som de fundo, o poeta Arnaldo Antunes cantarola seus músicos versos. Primeiro andar, o andar das Exposições Temporárias. Como já sabia de antemão o que estava em cartaz, aumenta meu contentamento: “Machado de Assis, mas este capítulo não é sério”; que fica ainda até 26 de outubro à mostra.

Ao entrar no espaço, a impressão que se tem é de estar em um livro aberto, onde o conto é a própria vida-obra de Machado: cada ambiente um capítulo; e eu, o “caro leitor”, bisbilhoto os acontecimentos.

Logo de início leio a “Advertência”, a mesma que Machado evoca na introdução do livro Papéis Avulsos. Relembro-me da responsabilidade de ser leitor, ainda mesmo que bisbilhoteiro.

Na meia-penumbra, vagueio por entre as salas. Aqui, um piano que executa sozinho algumas sonatas (como no conto Trio em Lá menor, a vida em andamentos musicais); logo adiante, chapéus flutuantes, de onde uma voz entoa um trecho do conto Bons Dias!. Os meus olhos pousam na caligrafia de documentos de época, meus dedos curiosamente apertam botões no caminho, para ouvir o que os alto-falantes têm a dizer…

Uma pausa para ver-ouvir-sentir uma projeção. De plena São Paulo, sou projetada à Rua do Ouvidor. Retiro-me comovida, e deparo-me com o Capítulo XIV: Olhos de Ressaca. Muitos olhos me fitam. Olhos das mulheres que Machado captou. Olhos capitolinos…

Vejo também palavras dependuradas num painel, e no centro da sala, um jogo de xadrez. Das palavras não tenha dúvidas: vez ou outra você as garimpa pelas páginas de Machado de Assis. Quanto ao xadrez, jogue com cuidado. Muito se escreve sobre o escrito. E a própria escrita já é um jogo cauteloso.

Virando a página, no Capítulo O Vergalho, observamos a face cruenta da escravidão. Mais à frente, deparo-me com um rolo enorme de papel. Sigo-o até o corredor, e chego à câmara da Sandice, da qual ninguém escapa….

Ah, o Irreal Gabinete de Leitura! É aqui onde relembro minha inesquecível visita ao Real Gabinete Português de Leitura, onde os olhos e o coração se encheram de livros e alegria. Agora em Sampa, carrego a eterna saudade, e adentro uma escura sala de projeções. Nela, um irreverente leitor faz da leitura uma inflexão. Entrando no País Misterioso, a partida de Machado. Um cortejo e um espelho: admira-me contemplar tantas imagens de mim e dos outros.

Antes de desembocar no Largo do Machado, passa-se pelo derradeiro Capítulo do Delyrio; a ilusão mais que presente de personagens que o Bruxo do Cosme Velho deu a vida, e da sua própria vida, sempre muito infundida ao conto de viver. Nele compreendemos que o Delyrio pode não ser irrealidade, e que caminha junto aos disparates de ver-se lendo o outro, de alongar a vista pela visão do passado, de descobrir-se, quem sabe, personagem.

Deixo na saída minha assinatura, e acolá um sorriso absorto de emoções evocadas. Tomo as escadas e sigo aos segundo e terceiro andares. Mas estes são outros capítulos…

Acesse o álbum no Orkut para poder ver as fotos do passeio pelo museu.

Plá da Semana

São Paulo fica um pouquinho longe de Macaé, eu sei. Em média, gasta-se na estrada umas 9 horas. Mas, surgindo uma oportunidade, não a perca! Para visitar: Museu da Língua Portuguesa - Estação da Luz, Praça da Luz - São Paulo, SP.

Visitação de terça a domingo, das 10h às 17h (bilheteria). Ingressos por R$ 4 (estudantes pagam meia-entrada). Na primeira terça-feira do mês, a entrada é franca. A exposição temporária “Mas este capítulo não é sério”, no primeiro andar, fica aberta ao público até o dia 26 de outubro. Nos outros andares, muitas outras surpresas da língua portuguesa!

Um grande abraço,
Carla Guedes

Literatura e o Propósito Político

Literatura

“A opinião de que a arte não deveria ter a ver com política é em si mesma uma atitude política.” - George Orwell

Semana de decisão nas urnas, a coluna Literatura não poderia ficar de fora das discussões suscitadas, assim como nós vimos a intersecção do Meio Ambiente, da Tecnologia, da Música e do Cinema com a política (tudo o que fazemos e pensamos é, de certa forma, política, no amplo sentido do termo). A Literatura também tem um forte engajamento com as questões quotidianas, e as obras incessantemente interagem com o período político vivido no momento em que foram escritas.

Assim como os leitores são dos mais variados, os escritores também o são. Existem os escritores do devaneio, do mundo do intelectualismo e da fantasia; e existem os escritores da realidade, da dura e desencantada realidade. Há aqueles que escrevem para mudar o mundo; uns o seu próprio mundo, devastando as suas incertezas e desconhecimentos interiores; já outros, o mundo externo mais amplo, espalhando utopias e apregoando ideais de mudança.

O que dizer da relação Literatura/Política? Não estão ambas encharcadas de visionarismo e cercadas pela realidade? A politização da literatura geraria um empobrecimento da arte? Afinal, arte pela arte, ou arte pela humanidade?

George Orwell, célebre escritor de A Revolução dos Bichos exemplifica bem os impulsos da escrita, classificando-os em quatro:

 ”1. Puro egoísmo: O desejo de ser engenhoso, de ser comentado, de ser lembrado após a morte, de se desforrar de adultos que o desdenharam na infância e por aí afora. É uma falsidade fazer de conta que este não é um motivo forte [...].

2. Entusiasmo estético: A percepção da beleza no mundo externo ou, de outro lado, nas palavras e em seu arranjo correto. Prazer no impacto de um som sobre outro, na firmeza de uma boa prosa ou no ritmo de uma boa história [...].

3. Impulso histórico: O desejo de ver as coisas como elas são, de encontrar fatos verídicos e guardá-los para o uso da posteridade.

4. Propósito político: O desejo de lançar o mundo em determinada direção, de mudar as idéias das pessoas sobre o tipo de sociedade que deveriam se esforçar para alcançar.”

Creia: nenhum escrito está isento de contrair, um mínimo que seja, de um de cada desses impulsos. E o quarto motivo é o mais perceptível deles: ninguém está isento de tendências políticas, como nenhum livro é de todo neutro. O escritor, assim como a gente, não está imune à realidade que o cerca, principalmente em tempos de crise. Na contra-mão, principalmente nos tempos de crise é que se levanta a voz da arte, seja como protesto, reflexão ou fuga.

Assim como nem toda obra política é verdadeiramente boa, alguns autores que se enveredaram por ela, conscientes ou não, deixaram importantes legados. Como exemplos de engajamento político de suas épocas, poderemos citar alguns grandes: Castro Alves, que com sua poesia Abolicionista cantou a dor dos escravos e criticou a política escravocrata vigente; Affonso Romano de Sant’Anna que em plenos anos de ditadura publicou corajosos e belos poemas, como o Que País é esse?; Oswald de Andrade com seus ideais anarquistas, e sua inconfundível obra crivada de chavões Vermelhos.

No mesmo engajamento segue Ferreira Gullar, com sua poesia de liberdade e crítica à repressão de 64; e Chico Buarque, que em seus poemas-canção retratou figuras de essencial denúncia social: o camponês de Funeral de um Lavrador, o operário em Samba e Amor, o pedreiro de Construção, os sem-terra de Assentamento, dentre outros.

É na reflexão da leitura e da arte que paramos para reorganizar idéias, esquadrinhar conceitos, concordar ou duvidar das situações expostas. E fazer literatura é arriscar, expondo o que se é, o que se sente e o que se pensa, sabendo que não há isenção completa do meio em que se atua.

Que possamos como humanos e cidadãos construir uma sociedade mais justa, expondo o queremos de melhor: seja através da escrita, da leitura, do debate saudável, ou do voto.

Um grande abraço,
Carla Guedes

2008: o Ano Machadiano

Literatura

“Assim são as páginas da vida, 
(…) e acrescentava que as páginas vão 
passando umas sobre as outras, 
esquecidas, apenas lidas.”

(excerto do conto Suje-se Gordo!, de Machado de Assis)

Falar de Machado de Assis, a quem as páginas nunca passaram esquecidas, é tarefa que beira o prazer. Nele, o prazer de ler torna-se espontâneo, pois Machado, além de esmerado conhecedor da língua portuguesa, era um cômico observador.

Este é o seu ano por excelência. 2008 é decretado o Ano Nacional Machado de Assis. Por um lado, ótimo: choveram publicações sobre a obra do mestre, e muitos ficaram com vontade de reler com mais carinho aquelas obras que só leram à mando de algum professor caxias. Por outro, sabemos de antemão: após a sagração de Machado, todos os anos foram seus.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) teve origem bem humilde. Filho de operário, e tendo perdido a mãe muito cedo, trabalhou e estudou como pôde, nunca em cursos regulares. Aos 16 anos publica na Marmota Fluminense um primeiro poema. No ano seguinte entrou para a Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo.

Foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, sendo suas obras espelhos dos gêneros literários de seu tempo. Se seu início teve características marcadamente Românticas (influenciado por José de Alencar, escritor de Iracema), sua maior contribuição está na inovação que propõe ao Realismo, sendo grande representante e referencial.

Renomadamente foi o fundador da 23ª cadeira da ABL (Academia Brasileira de Letras), e um dos que criaram a Casa, aos moldes da Academia Francesa de Letras. Por mais de dez anos esteve à frente de sua presidência.

Machado de Assis, como enfatiza Josué Montello, não era um homem improvisado. Ele tinha a consciência de que, pra chegar ao ponto em que chegou, era preciso ter o gosto da aprendizagem. Por isso, estudou a língua portuguesa a partir da leitura dos mestres da literatura. Não nos bancos da escola, mas em consultas freqüentes ao Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro.

Por falar em Rio de Janeiro, o Bruxo do Cosme Velho (como também é chamado devido à Rua Cosme Velho, nº 18, onde passou a maior parte de sua vida), retratou o Rio de seu tempo nas observações mais argutas e sutis. Quando vou à Rua do Ouvidor ou excursiono pelas ruas o Centro do Rio, tenho a suspensa sensação de ser uma de suas personagens, ansiando topar com qualquer carro de aluguel, bengala, monóculo, ou o próprio Machado atrás de seu pince-nez. Tal é a profundidade de sua obra em meu imaginário e tal a veracidade com que descreveu e imortalizou seu tempo.

Aviso aos que torcem o nariz ao intentar ler um livro que leva um título de “Clássico da Literatura”: Machado de Assis não dá motivo nenhum para se torcerem narizes. Ele sabe cativar o leitor e suas linhas, capítulos inteiros, que estão cheios de comicidade; a risada inteligente de quem mantém o frescor de sempre. Galhofeiro, possui a constante estratégia de conversar com o “amigo leitor” durante a narrativa nos momentos cruciais, ou somente pra descontrair. Machado dá o que pensar.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1899), Contos Fluminenses (1870), Memorial de Aires (1908) e Papéis Avulsos (1882) são alguns dos títulos do nosso orgulho Machado, que tem seu nome figurado junto aos maiores da literatura mundial.

Aproveitando o ensejo do ano comemorativo, que nós possamos redescobrir a rica produção literária de nosso país, e, principalmente, que conheçamos as deliciosas venturas que nos aguardam a obra do eterno Machado.

Plá da Semana

Muitos foram os livros e sites comemorativos à Machado lançados este ano. Mas o site www.machadodeassis.org.br em especial, além de ser da ABL, tem uma interatividade e acervo consideráveis do autor, além de aliar a beleza das coisas antigas à praticidade do moderno. Dê uma clicada lá, que vale à pena (literalmente)!

Um grande abraço,
Carla Guedes

O Livro através dos tempos

Literatura

Falamos sempre de livros, literatura e do prazer de ler. Mas sabemos desde quando remonta a saga desses pequenos tijolinhos que folheamos? E mais, como vieram a ser como hoje são? Vamos traçar um pequeno panorama de como os instrumentos de leitura se modificaram com o passar do tempo, até os atuais e intrigantes e-books (livros eletrônicos).

Os primeiros suportes oficiais para a escrita no Oriente eram tabuletas de pedra, argila ou metal (este último, encontrado na Roma Antiga). A etimologia da palavra “livro” vem da forma como ele era produzido a partir do papiro, especialmente pelas civilizações do Oriente Médio.

Para se fazer os rolos de papiro, era necessário retirar uma parte do vegetal (Cyperus papyrus), ou seja, liberar, livrar a matéria-prima, derivando a palavra liber libri, do Latim: libere, ou seja, livre. O papiro passou a ser substituído aos poucos pelo pergaminho, de couro, mais resistente, e os “volumens” de papiro ou pergaminho, eram desenrolados quando lidos.

Os livros, como nós conhecemos hoje, só vieram a surgir no Ocidente por volta do século II d.C., através da substituição do volumen pelo códex, que era uma compilação de páginas, não mais um rolo. O formato códex (ou códice) continuou a utilizar, ao menos inicialmente, o pergaminho, que era muito mais fácil de costurar que o papiro.

Da invenção do papel pelos chineses até os copistas da Idade Média, o livro ganhou novos atributos, tanto em forma (margens, folha de rosto, sumário e iluminuras) quanto em significação (livros didático, de detenção de poder religioso e intelectual).

Mais uma vez inovando, surge na China, por volta de 1.400, a máquina impressora por meio de tipos móveis, que acrescida de tecnologia por Gutenberg (1390-1468), provocou uma revolução na produção e propagação cultural moderna.

Os livros passam a ser cada vez mais portáteis, como os livros de bolso. A disseminação de volumes pela indústria se tornou crescente. No final do século XX aparecem os e-books (abreviação de Eletronic Book), ou livros em formato digital. O “Memex” idealizado por Vannevar Bush (1890-1974) evoluiu para o atual e-book: um dispositivo simples, com um método de armazenamento de pouco custo, e de fácil acesso devido à internet. Muitos textos são disponibilizados para download gratuito em vários sítios.

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Dentre as ferramentas úteis do e-book estão: marcador de páginas, bloco de anotações e marcações, controle de luminosidade e tamanho da fonte, dicionário e busca dentro do texto… Além, é claro, de sua portabilidade. É quase que tentador pensar numa biblioteca dentro de um espaço muito reduzido. Uma biblioteca de bolso.

Junto as questões mais recentes, vêm a tona também os Direitos Autorais sobre a obra que se veicula. Continuam valendo os mesmos (direitos contra plágio, alteração, distribuição ou comercialização sem o devido aval do autor). Entretanto, um novo tipo de Legislação está sendo idealizada, já que nos deparamos com novos paradigmas na forma de como as informações e obras são disseminadas. Ao menos, contribui-se ao sonho de todo autor: ver suas obras ao máximo propagadas, incentivando a leitura.

Em pleno século XXI, nascem dezenas de novos suportes para leitura. Desta vez, com a impressão de que se volta ao passado. Sim, porque o texto mais uma vez é desenrolado, ou “rolado”. Não através dos volumens de um pergaminho ou papiro, mas com a ajuda da barra de rolagem…

Com a “virtualização” dos livros, há a questão da impressão no futuro. Afinal, gostamos muito de livros de papel, já estamos séculos convivendo com eles. Principalmente eu, que gosto de sua textura, artes e cheiro. Mas ainda é cedo para dizer se o e-book é uma continuação do livro típico ou uma variante dele. Tal como a internet não substituiu a TV, mas se aliou à ela; ou o DVD não substituiu o velho prazer de frequentar um bom cinema!

Termino pois, nas palavras do grande Darcy Ribeiro, que afirmava, sem exagero, que o livro é a maior invenção da história e a base de todas as outras conquistas da civilização.

Plá da Semana

Nossa dica de hoje é o sítio A Hortaliça, idealizado pela criativa escritora Vanessa Bárbara, jornalista da Revista Piauí. “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”: esta é a primeira evocação do sítio, fraseando Guimarães Rosa. Isso ilustra bem os golpes criativos que nos assomam. Do ócio nascem as maiores criatividades. Os textos da autora são cômicos quando não comoventes, beirando o fan-tástico do absurdo quotidiano.

Um grande abraço, e até!
Carla Guedes

Dia do Folclore

Literatura

“O que é o que é? É surdo e mudo, mas conta tudo?”

O que é, o que é? Hoje, 22 de Agosto, é o Dia do Folclore no Brasil. E o que é surdo e mudo, mas conta tudo? É o nosso velho amigo livro.

Palavra formada por dois radicais saxões antigos (folk: povo e lore: conhecimento), o termo folclore foi utilizado para designar todas as maneiras de pensar, agir e sentir de um povo, preservadas pela tradição popular.

As bocas anônimas são a propulsão do folclore. Conhecimento oral circulante como vasta herança, de pai para filho, de avós para netos, seguem-se as receitas de mundo. São as sabedorias escondidas em ditados, simpatias, contos, parlendas, cantigas, autos e artesanatos. É uma forma de ver o mundo, peculiar a cada povo e região.

Especialmente hoje, vamos tratar da Literatura Folclórica brasileira, suas manifestações e definições. Caímos na questão de “o que é ser brasileiro”. Esta interrogação foi muito bem estruturada e apresentada por Gilberto Freyre, em 1933, com a obra Casa Grande & Senzala. Nela, temos a primeira idéia do brasileiro como mistura étnica e cultural entre brancos, negros e índios, com uma profunda análise religiosa, folclórica e sociológica.

Esta origem trina (negro, índio e branco) foi observada também em 1907, por Sílvio Romero, em sua Introdução para Contos Populares do Brasil, um compêndio de contos folclóricos brasileiros. Desprezando o cunho polêmico de sua idéia de “superioridade racial”, o estudo editado das tradições que antes eram unicamente orais é sem dúvida interessante.

Surge a figura do mestiço, e a miscigenação das lendas originadas na Europa, na África e dos próprios habitantes índios é que constituiria nosso material folclórico. Traçar um limite entre a origem de um e outro também é questão difícil. Tomamos como exemplo a lenda da Mãe d’Água, que pode ser considerada uma fusão da Iara indígena, da Iemanjá africana e da Sereia européia.

Outra figura responsável pelo estudo, recolhimento e propagação das nossas figuras fantásticas como Saci-Pererê, Boitatá, Curupira e mula-sem-cabeça, foi Luís da Câmara Cascudo, com mitos em linguagem fácil e gostosa como contada.

Na literatura folclórica, podemos destacar a literatura escrita e a literatura oral. Na escrita, um grande exemplo é a Literatura de Cordel, poesia popular impressa em folhetos rústicos com bonitas xilografias. O nome é inspirado na forma como é comercializado nas feiras (livretos pendurados em cordas, ou cordéis, com prendedores de roupa).

Sua linguagem é o dialeto do povo. Linguagem simples, mas rica em significados e elementos cômicos. São versos em sextilhas, septilhas ou décimas, e os assuntos são diversos… Há as que contam mitos para entreter, os chamados “romances” ou os de fatos de “opinião“, satíricos em sua maioria. Têm sua origem na primeira década de 1900, e constituem os registros no papel as bonitas pelejas que os trovadores ouviam dos repentistas e cantadores.

Em Macaé, recentemente houve uma série de apresentações do entusiástico Projeto Macaé em Cordel, baseado no livro homônimo do professor de literatura Aldo César. Nele figuram personagens ilustres da história da cidade como os índios Goytacazes, os escravos, Motta Coqueiro, professor Antônio Alvarez Parada e o recente tempo do petróleo.

“E o amanhã só Deus sabe,
 como diz o nosso povo.
 Não se faz novo começo
 pintinho não volta pro ovo
 mas podemos hoje fazer
 quem sabe, um futuro novo.” 
 (Trecho do livro Macaé em Cordel, de Aldo César)

O folclore e a literatura andam juntos, para registro e propagação de um de nossos maiores patrimônios: a cultura popular brasileira!

Plá da Semana

E continua valendo a promoção para ganhar um exemplar do livro Sagarana, de Guimarães Rosa!
Pergunta: “Qual o nome dado ao fenômeno lingüístico de criação de novas palavras, muito utilizado por Guimarães Rosa?”

Até agora, ninguém respondeu a pergunta…. Vou dar mais uma dica: as gírias fazem parte desse fenômeno, e a linguagem da internet também. Envie a resposta correta para o e-mail carlaguedes@makaehcult.com até dia 04 de Setembro.

Até a próxima, e ótima semana!
Carla Guedes

A hora e vez de Guimarães Rosa

Literatura

“Às vezes, quase acredito que eu mesmo, João, seja um conto contado por mim.” 
João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa (1908-1967), comemorado este ano, nos advertiu, em 1965: “Que nasci no ano de 1908, você já sabe. (…) Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim são minha maior aventura”.

Vamos então rever e compreender através de sua maior aventura pessoal, a literatura, quem foi João Guimarães Rosa…

Nascido em Minas Gerais, foi médico e diplomata. E nesse percurso, a literatura alinhavou seus passos. Em pequeno, demonstra especial interesse pelas línguas e livros. Na faculdade de medicina, para auxílio financeiro, escrevia contos para a revista O Cruzeiro, além de participar de inúmeros concursos literários (premiado em muitos deles).

É assim que o exercício começa: a intimidade com as palavras. Seu olhar literário não deixava escapar os acontecimentos. Em dois anos, como médico no interior de Minas Gerais, a curiosidade pelas coisas da terra, o folclore e espirituosidade do sertanejo não passaram em branco. Rosa foi anotando os ditos, frases em pára-choque de caminhão, falas e expressões, descrevendo paisagens e sensações; as míticas e crédulas lembranças de um povo.

A literatura Moderna é marcada pela rudeza naturalista. Assim, a Geração de 45 retoma o percurso de escrita regionalista da Geração de 1930, mas com toda a carga política e amadurecimento. São nos sertões nordestinos e mineiros dos interiorões que encontram a matéria humana, as lides com o animal, com o rancho, com a seca.

Mas, como descrever a fala e dramas sertanejos? Com a bagagem culta, própria do escritor, ou com a fala simples, própria do cotidiano das querências? Guimarães Rosa, com sua prosa repleta de poesia, mitologia e realidade reinventa a linguagem.

Nenhum autor brasileiro foi tão fundo como ele na arte de inventar palavras: circuntristeza, suspirância, velhouco, ensimesmudo, embriagatinhar, nonada, mimbauamanhanaçara… Calma! Não se espante. Não é tão complicado assim. Rosa não queria que seus leitores vivessem consultando dicionários (até porque essas palavras não serão encontradas lá). As palavras seriam como enigmas divertidos.

O contexto da obra e um mínimo conhecimento de radicais, às vezes, bastam para decifrar os risonhos significados. A linguagem cotidiana, como dizia, estava desgastada pelo uso: só expressava lugares-comuns, e não idéias. “Cada autor deve criar seu próprio léxico, do contrário não pode cumprir sua missão”.

Imortalizado por obras como Grande Sertão: Veredas, Corpo de Baile e Sagarana, Guimarães é digno da cadeira que conquistou na Academia Brasileira de Letras, em 1967. Curiosamente, três dias após a posse, aos 59 anos, falece vítima de infarto. Ele prenunciara a emoção em ser condecorado. Apesar da brevidade da posse, seus contos, poemas e romances permanecem mais que lembrados nos personagens e lutas que vivificou.

Com base num conhecimento lingüístico espantoso (tendo estudado as gramáticas de mais de vinte e três línguas), Rosa foi mestre em fabricar novos termos, assim como em desenterrar palavras do desusado português arcaico e do palavreado popular. Não só a língua em esmero, mas também conteúdo: captou em suas raízes a brutalidade de viver, a crença do sertanejo, as superstições e a relação entre o trabalhador e o divino. Pois a língua é instrumento de emotividade, e de liberdade.

Plá da Semana

Sagarana, de Guimarães Rosa
413 páginas - Ed. Nova Fronteira

Publicado pela primeira vez em 1946, Sagarana reúne os mais conhecidos contos do nosso autor, como “O burrinho pedrês”, “São Marcos” e “A hora e vez de Augusto Matraga”. Uma curiosidade: o título foi criado a partir da junção das palavras Saga, que significa narrativa, conto; e a palavra Rana: do tupi ‘rana’; semelhante, parecido a.

E esta semana, em ritmo de homenagem à Guimarães Rosa e em também em comemoração ao 1º Ano do Makaeh Cult, temos um Plá mais que especial!

Pergunta: “Qual o nome dado ao fenômeno lingüístico de criação de novas palavras, muito utilizado por Guimarães Rosa?”

Envie um e-mail para carlaguedes@makaehcult.com, respondendo a pergunta acima corretamente, e concorra ao livro da nossa dica de hoje! O resultado estará disponível na próxima matéria da coluna de Literatura.

Até lá, e Boa Sorte!
Carla Guedes

Maravilhas no mundo dos Sebos

Literatura

“A inenarrável promiscuidade dos sebos! (…) O sebo é a verdadeira democracia. (…) Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.” - Carlos Drummond de Andrade

Recorremos às livrarias quando queremos comprar livros recém-nascidos, estalando as páginas, novos em folha (literalmente). Mas os sebos são lugares à parte: neles os livros que são comercializados, além de manuseados, possuem vidas próprias.

A começar pelo nome, Sebo evoca nostalgia, que vem do tempo anterior à energia elétrica, onde a leitura era feita à luz da chama bruxuleante de velas amarelentas. Essa prática do contato das mãos com velas deixava os livros manuseados um tanto engordurados e sebosos, passando o substantivo a designar vulgarmente as livrarias onde se vendem livros usados.

Os primeiros estabelecimentos do tipo surgiram na Europa do séc. XVI, mas restritos à venda de documentos raros e importantes, já que a leitura não era um hábito popular ou acessível. No Brasil, esse seguimento do comércio passou a ser difundido a partir do séc. XVII, mas nos faltam referências e publicações sobre o tema.

Num sebo, seu espaço sagrado é algo um tanto peculiar, quase sempre tendendo à desordem gostosa de suas prateleiras. Vasculhando os espaços selvagens (na maiorida das vezes, tendendo a ser apertados) encontramos edições fora de catálogo, tiragens antigas, obras de colecionador, livros raros e lançamentos usados a preços modicamente baixos.

Muito se assemelha ao acervo de biblioteca, mas de uma forma menos organizada e menos formal. Dentre as diversas sensações e imagens características que o visitante de sebos é familiarizado, o papel amarelado e o cheiro dos anos são os mais marcantes.

Em nossa cidade não há sebos (ao menos, procuro-os esperançosa por Macaé, mas não tive notícias de nenhum), infelizmente. Quando estou em outras cidades, sempre que posso separo um tempo à visitação desses amarfanhados estabelecimentos. Mas não tendo um por perto, não é motivo para não ter edições vincadas, raras ou em preço mais acessível. Assim como o fenômeno das livrarias virtuais, nasceram os Sebos Virtuais, que adquiriram rapidamente um sucesso maior.

Grande exemplo é o site Estante Virtual, que funciona como um Mercado Livre de alfarrabistas (ou sebistas, como desejar). Com mais de 1.000 sebos cadastrados de 194 cidades, possui um acervo on-line de quase três milhões de livros. Não há como não encontrar aquele livro de segunda-mão procurado há tempo. O interessante também é que o internauta pode se cadastrar gratuitamente e anunciar alguns volumes que deseja comercializar, e, até certa quantidade, não paga comissão ao site pela venda.

Na mesma direção andam outros sebos virtuais, cujo princípio é “romper com o quadro atual de pulverização das centenas de sites de sebos brasileiros, que competem desnecessariamente pela atenção de um visitante que fatalmente não irá ter tempo ou paciência para visitar a todos.”

É certo que não teremos, com os sebos virtuais, o sem-fim de coisas que comumente nos apaixonamos: as incontáveis horas de garimpo entre lombadas roídas ou lustrosas, vitrines coloridas, dedos correndo folhas gastas e marcando-as demoradamente, uma troca de idéias com outro garimpeiro, os esbarrões em pilhas enormes, os olhos corriqueiros a localizarem um exemplar que os braços não alcançam, volumes de encherem os olhos e a imaginação de um dia poder ler aquilo tudo…

Mas a internet tem se mostrado um aliado importante de disseminação, não significando o fim dos sebos físicos, mas sim, seu fortalecimento e procura. Além disso, não poderão mais se valer do principal argumento (que os que possuem no fundo alguma preguiça de ler, recorrem sempre) de que livros são caros, ou inacessíveis.

Temos a oportunidade, com sebos virtuais ou não, de achar aquela edição esgotada, nos deparar com dedicatórias emocionadas, datas longínquas, ou rubricas desconhecidas. Pois assim como assinalou Drummond, os sebos são sempre democráticos. Acrescento que os sebos são templos repletos de histórias pessoais, em que se misturam homens e livros.

Plá da Semana

Desesperado procurando livros de segunda-mão pros estudos, ou querendo vender alguns volumes seus? Explorando o Estante Virtual você se cadastra e pode realizar estas e mais algumas transações comerciais. A negociação é feita diretamente com o anunciante, através do site. Consegui livros esgotados na editora, e tenho um amigo que vendeu algumas revistas antigas. Tudo correto, com qualificações positivas e sem transtornos. Vale a pena dar uma conferida!

Um grande abraço, e uma ótima semana!
Carla Guedes

A Festa da Literatura

Literatura

Casarões de Paraty“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?”

E agora, você? Mais um ano se vai, e mais uma FLIP também. Não que eu queira remoer fato passado, mas o trecho de Drummond acima me remonta indubitavelmente à festa da semana passada, como uma alegoria a me soprar pela sexta vez aos ouvidos: perdeu mais uma. E agora? O gosto da ressaca literária ainda nos olhos. A festa literária do ano… Fiquei daqui, apenas acompanhando os fatos.

Balanço de ganhos e perdas: o que o Brasil ganha realmente com a FLIP? O que a literatura ganha de novo?

A denominação Festa Literária Internacional de Paraty evoca celebração. Festa Literária então, é um sonho que cultiva do bibliófilo ao indivíduo que curte timidamente boa cultura. Na programação: papos literários, mostra de cinema, esquetes… e música. Nesse ano desfilaram presenças expoentes como o cantor Luiz Melodia e Carlos Lyra, autor eternizado da canção “Minha Namorada” (deu pra perceber as diversas formas celebradas, que não a grafada, da nossa amiga literatura).

No decretado Ano Nacional de Machado de Assis, os 22 literatos brasileiros e 18 estrangeiros convidados fizeram sua devida homenagem. Mas não quero falar de Machado por agora (o Bruxo do Cosme Velho merece um artigo só dele, que ele é paixão antiga minha). Quero falar exatamente da falta de universalidade ao acesso, contrária ao que se idealiza. Dessa restrição de classes. “Não me convidaram…”, enfatizaria o poema musical de Cazuza.

Isso porque ir à FLIP virou simplesmente a moda da temporada, e em Paraty, as temporadas não aliviam o bolso. Acampar é a solução se não puder se hospedar pelas bagatelas que cobram. Sem contar a não-gratuidade das oficinas ou dos ingressos pras palestras, ou dos concursos literários com taxas de inscrição salgadas da Off FLIP. E muita gente que queria celebrar a literatura ficou literalmente off.

No balancete final da festa, expectativa. Ponto pra literatura no Brasil? Justamente no pronunciamento oficial do diretor da programação me caiu a ficha da ousadia cultivada: “A FLIP é a melhor porta de entrada de um autor no Brasil“. Que funil, penso cá comigo. Mas ele prossegue, sendo mais enfático (o que me deixa mais apreensiva): “A FLIP é cada vez mais uma chancela fundamental que orienta o que vale e o que não vale a pena ler“.

Mortificação.

Fato consumado. A FLIP sem mais nem menos se transformou num selo elitizador da literatura. E arranha-me por dentro repensar a frase sobre o “que vale e o que não vale a pena” ser lido.

Lemos, logo pensamos! À medida que apreendemos uma visão de mundo construímos um parâmetro natural do “que vale e o que não vale a pena” (se é que existe mesmo isso). É claro que com uns anos calejados de bom olhar crítico, saberemos separar o joio do trigo, o “livro comercial” da “obra literária”. Mas pra isso é preciso treino, vivência própria, olhar propício. É preciso ler! Será que é mesmo necessária uma festa de poucos pra nos ditar parâmetros literários? “Tudo vale à pena (…)”, recorda o meu poeta.

Achei que o sonho ideal da festa da literatura (veja só que utopia!) fosse celebrar, na coletividade de boas mentes leitoras, temas eletrizantes, oficinas criativas, propostas inovadoras, educação em primeiro plano, e incentivo à leitura.

Mas ainda não foi dessa vez…

E o que perdi, perdendo mais essa? Perdi os casarões históricos de Paraty, e um rosário incontável de grandes nomes. A declamação poética de Elisa Lucinda, a lucidez de Ana Maria Machado, a musicalidade natural de José Wisnik, a vivacidade e luta de Pepetela, a juventude criativa de Vanessa Bárbara, a sacada de Neil Gaiman, a propriedade de Rouanet

Perdi a poesia de um fim de tarde, com um livro no regaço, a beira de uma enseada ensolarada nos mares de Paraty… Mas ano que vem, tem mais!

Plá da Semana

Melhores Poemas de Affonso Romano Sant'annaMelhores Poemas (1965-1999), de Affonso Romano de Sant’anna 156 páginas - Ed. Global

Incansável, Affonso Romano faz de sua poesia seu manifesto habitual, divagando entre as questões políticas de sua época (a ditadura que sentiu na pele), a onírica estética e o intelectualismo clássico. Pra quem gosta de se deliciar em abstrações, sem tirar os pés da concretude em que estamos mergulhados.

Boa semana e boas reflexões literárias!
Carla Guedes

Antes do Kasato Maru…

Literatura

Livro - Antes do Kasato MaruNo último dia 18, tivemos uma calorosa comemoração do Centenário da Imigração Japonesa em nosso país (1908-2008). Na historiografia oficial, a consenso de todos, o estado de São Paulo foi o primeiro a receber este movimento de imigração no Brasil.

O que poucos sabem, entretanto, é que nossa região também se insere nesse contexto, e pode ter abrigado a primeira corrente imigratória proveniente da “Terra do Sol Nascente”, em 1907.

Esse é o tema do mais novo livro do professor e pesquisador Marcelo Abreu, intitulado “Antes do Kasato Maru…” (Ed. Macuco), que conta a saga de Saburo Kumabe (1865-1926) e seu grupo na tentativa de prosperar em terras brasileiras. Mais precisamente, na Fazenda Santo Antônio, no município de Conceição de Macabu, na época distrito de Macaé.

O professor Marcelo Abreu é uma lenda viva, e seus alunos têm sempre alguma estória memorável para contar sobre sua História… Mais do que um professor dedicado, engraçado e querido por todos os pupilos, seu trabalho vai além da sala de aula.

Escrever para todos, “escrever para quem sabe ler”, como diz, é fazer com que conheçamos e preservemos nossa memória regional. É fazer com que nos apaixonemos pela História: seu principal objetivo.

O lançamento do livro no dia 12 de Abril, em Conceição de Macabu, foi anunciado nos jornais circulares, sites, programas de TV conceituados e em sua badalada comunidade do Orkut. Segundo o próprio, modestamente, a popularidade “o persegue”.

Ele ainda prometeu o lançamento aqui em Macaé, no mês Agosto, e nos concedeu esta entrevista falando um pouco mais sobre o seu novo trabalho.

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