Matérias da coluna 'Literatura'

O Grande Reino do Pequeno Príncipe

Literatura

“Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…” (A Raposa)

Acho que falar das coisas que nos cativam é um tanto mais difícil que falar das coisas que simplesmente passam por nós. Explicação simples: por mais que a gente queira expressar, as palavras nunca poderão alcançar com precisão o fato, o dado, o tido, o instante: o instante está sempre lá, flutuando, porém nunca mais será alcançado.

Eis anunciado o que costumo chamar de o Paradoxo da Literatura. Estenderia até, a tese: o Paradoxo da Arte. No mesmo momento em que a literatura nos empurra vertiginosamente para dentro do que é a experiência do outro (ou a objetivação do subjetivo) teremos a nossa própria experiência baseada na vivência do artista. Por mais lapidada, rara e concisa que a linguagem seja, não alcançaremos a expressão total do autor.

São os filtros do subjetivo. É algo como nunca estar completo: um jogo que sempre está perto do enigma, mas nunca o alcança.

E é nesse paradoxo que a literatura se constrói, num lugar onde nunca uma releitura será a mesma da leitura anterior. Desvenda-se a mágica da poesia: nunca o mesmo verso será o mesmo, e a palavra se vivifica.

Mas, e por que toda essa minha abstração? Tudo começou sobre “falar das coisas que nos cativam”…

É porque hoje decidi falar de um personagem de minha infância. Decidi por à prova toda minha estima, e minha frustração: por mais que eu o descreva e me esmere, acho que sempre vou ser incompleta em relatar o universo dessa admiração.

Pois bem, conta a lenda que “quem nunca leu O Pequeno Príncipe, não teve infância” (eu conheço algumas pessoas que se questionam preocupadas sobre esta lacuna, mas isso não vem ao caso).

Confesso que li a primeira vez sem muito entusiasmo, e com falta de paixão até. Era só para fazer jus à minha doce infância, feito um medo de que ela não acontecesse devido à profecia. Se resumiu à um encontro ocasional, um breve ‘oi’, uma leitura de obrigação. Infância garantida, reneguei meu personagem e sua estória à poeira da estante. Após caso arquivado, só depois de anos, num encontro de ocasião, é que descobri de súbito o grande reino deste pequeno príncipe.

Por que tudo isso não tinha feito sentido antes?

Porque tudo isso não tinha feito sentido antes.

A estória do Pequeno Príncipe não é apenas uma estória. É quase que uma parábola, beirando uma alegoria, tocando-se quase como um mito sobre a condição humana. Uma estória de crianças para adultos. Sim. Imagino crianças nas cabeceiras contando esta estória para os pais.

Perguntando um dia sobre as múltiplas formas de ver, eis que o Principezinho me segredou:

“As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam.”

E assim na vida, como na arte, os olhos de ver são tantos e tão múltiplos…
É preciso reconhecer que a palavra se vivifica, e a literatura se renova. Mas nunca por ela em si, que nada pode. A literatura por si só é muda. Ela só pode falar através de nós, humanos, que a ressignificamos.

É preciso ter olhos de ver. É preciso trazer a chave. E talvez, tudo faça mais sentido: mas nunca, todo o sentido.

À bientôt, mon Petit Price! Maintenant les étoiles ça me fait toujours rire…
(Até breve, meu Pequeno Príncipe! Agora as estrelas sempre me fazem rir…)

Grande abraço!
Carla Guedes

* Esta matéria foi escrita em homenagem ao Ano da França no Brasil, que se encerra neste final de semana, e também à exposição O Pequeno Príncipe que está sendo realizada na OCA, em São Paulo.

Um encontro sinGullar

Literatura

“O poema diz, o que o poema diz – Se eu pudesse dizer de outra forma, eu não escreveria um poema.” - Ferreira Gullar

Noite de 11 de agosto, terça-feira, Teatro Municipal. Ali marcamos um encontro com Gullar; um encontro singular de Literatura.

Encontro Literário - Ferreira Gullar 

De uma forma que não haveria melhor, fomos introduzidos em sua lírica pela música. A música-poema “Traduzir-se”, bem traduzido pelo cantor Fagner e encantadoramente declamado em pauta pelos músicos inspirados da Lyra dos Conspiradores, abriu do evento.

Logo após a pausa da última nota, sobe ao palco, com cuidado e maestria, o nosso Ferreira Gullar, debaixo d’uma cabeleira que ele conserva com orgulho da soma das cores todas que os anos imprimiram; com uma mão firme e a voz no mesmo compasso.

E já começa a entonação com uma pergunta que vem a nos massacrar: o que representa a poesia atualmente, numa sociedade midiática, engolfada pela massificação? O que faz a poesia sobreviver e se reinventar ao longo dos séculos, sem ser substituída por outra forma?

A poesia existe, responde o próprio, porque as pessoas são mais do que a superficialidade do contato primeiro, as pessoas são misteriosas. O homem comum não existe. “A individualidade é a expressão singular do ser especial”. E brinca, contando de um cômico caso durante o seu exílio, que a poesia “existe e permanece porque nem sempre há a morena do lado. Um dia esta morena vai embora, e fica a poesia.

Com uma pitada de bom humor, seriedade e reflexão artística, os temas foram conduzidos pela ordem cronológica de acontecimentos em sua vida, indo da saída de sua cidade natal ao Rio de Janeiro, até o período de exílio em países como Rússia, Peru, Chile, Argentina, e por fim, seu regresso ao Brasil.

O mundo não tem um sentido aparente, as coisas no seu contato primeiro parecem destituídas de qualquer explicação. “Mas ser inexplicável já é a própria explicação”, assevera. E quando o inexplicado emerge da capa da explicação, surge a poesia. “A poesia nasce do espanto”. O espanto do mundo, o espanto consigo, o espanto com a velha língua portuguesa, mastigada diariamente pelas sensações premeditadas.

E o trajeto na poesia? “Eu achava que ser poeta era ofício de defuntos”, brinca mais uma vez, levando o público presente à mais gargalhadas. Lógico. Os poetas de sua juventude, todos lidos nos livros didáticos, já estavam todos mortos. E, iniciado na poesia por um grupo de poetas descoberto em sua cidade (espanto: existiam poetas vivos!), começou seus versos inspirados em tudo lido. “Eu era um poeta de retaguarda”.

Mas aquilo tudo não bastava. Era preciso ser algo de seu. E bastou ler uns poemas de Drummond para que os horizontes se abrissem. “A linguagem é velha, nasceu muito antes do poema.” E o bom poema teria o dom de fazer nascer uma nova linguagem junto com ele, expressando o que há de novo na percepção. “No momento do poema, que ela ganhasse o frescor e a surpresa do espanto novamente.

O passo adiante no poema foi a linguagem implodida, fazendo nascer a poesia Concreta. Nela há a destruição do discurso e da sintaxe, e o poema se forma pela junção de palavras no espaço, pela proximidade unicamente. Assim, o sentido de significância é apreendido e nascido junto ao próprio ato da leitura.

Após um rompimento com o movimento Concreto, suas bases de trabalho se dão em torno do Neoconcretismo e o Livro-Poema, e a poesia espacial (diga-se, de passagem, o curioso caso do Poema Enterrado, literalmente falando).

Não dá pra dissociar a política de sua obra, marcadamente a partir do período ditatorial e sua aderência ao Comunismo. Com isso, ele larga um pouco a Vanguarda neo-concretista para se voltar ao Cordel, uma poesia visceral, mais primitiva. E através dela, fazer política: poesia não só como instrumento de contemplação.

O Poema Sujo, o mais aclamado pela crítica, nasceu durante o período de exílio em Buenos Aires, e trazido ao Brasil por seus amigos. Nele há o que do passado é ainda presente, como se fosse “a última coisa a ser escrita”. Por isso, a busca da terra verdadeira e primordial, como busca de sua identidade. “O caráter repressivo, como o de uma ditadura, pode provocar diversas reações artísticas.” Mas não que a crise e o sofrimento sejam a condição sine qua non para destilar uma boa obra.

Ao término, durante o período de debate e perguntas abertas ao público presente, surgiram alguns embates conceituais. Porém nada que vá além de demonstrar sua fala com propriedade de causa, e sua personalidade forte, no alto de seus quase 80 anos.

No meio disso tudo, a equipe do Makaeh Cult não poderia estar de fora. Com direito à pose para foto e entrevista exclusiva, trazemos a pessoa do poeta para mais perto dos questionamentos atuais, tirando algumas curiosidades pertinentes. Leia a entrevista aqui e mais fotos no orkut do site.


Eu, o escritor Ferreira Gullar e Mariah Guedes, gerente de Relações Culturais do site.

Assim, terminei a noite feliz da vida, com um volume autografado debaixo do braço, e a poesia rediviva nos recantos da alma.

Um grande abraço,
Carla Guedes

Entrevista com Ferreira Gullar

Literatura

Este é um conteúdo extra e parte integrante da matéria Encontro sinGullar, da coluna de Literatura escrita por Carla Guedes. As perguntas da entrevista foram elaboradas por Kaleb Aurich.

O escritor, poeta, crítico de arte, colunista e teatrólogo Ferreira Gullar esteve em Macaé para uma noite com palestra, debates e… autógrafos. Ele abordou a sua experiência poética ao longo de toda carreira como também nas suas vivências políticas em fatos importantes do país, na literatura e no jornalismo. Gullar gentilmente concedeu esta entrevista por e-mail, nos presenteando com seus testemunhos e opiniões sobre alguns assuntos e contribuindo para um conteúdo especial em comemoração aos 2 anos do site. Veja abaixo:

1) Em quase 80 anos de história, o que mudou de forma mais radical na vida e no pensamento do senhor? Como pessoa e escritor.

- Minha vida, tanto pessoal quanto literária, tem mudado muito, desde sempre. Nunca planejei minha vida nem minha obra, que se vão fazendo a cada dia, o que não significa abrir mão da reflexão e da busca de coerência.

2) Quais os seus melhores amigos dentro do universo dos escritores? De qual(is) você indicaria livros, dando uma sugestão relacionada às suas obras?

Tenho muitos amigos, felizmente, tanto no campo literário como fora dele. Prefiro não enumerá-los, para não cometer omissões.

3) Pessoalmente, qual sua obra preferida, aquela que mais realizações trouxe à sua vida?

Não tenho uma obra minha que prefira, a não ser o último poema que ainda estou lambendo… Na opinião dos leitores e críticos, o livro preferido é Poema Sujo.

4) Qual sua opinião sobre as novas mídias, a convergência digital que leva a informação para a web. Elas são o futuro das ferramentas de informação e formação de opinião? O senhor é adepto de alguma dessas tecnologias?

As novas mídias constituem uma revolução no modo de comunicação entre as pessoas e na busca de informações. Uso o computador sobretudo para escrever e remeter meu trabalho a jornais e editoras. Não sou um internauta.

5) O que achou da Nova Ortografia do Língua Portuguesa? O senhor é a favor ou contra as mudanças que entraram em vigor este ano?

Acho que a nova reforma ortográfica é um equívoco. Não tem sentido mudar a forma de escrever a cada década. Esta reforma tem quase tantas exceções quanto normas.

6) Você já foi contemplado com várias premiações, dentre elas o Prêmio Machado de Assis e o Jabuti; é um escritor muito respeitado no meio. Porque recusou o convite de candidatar-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras?

Tenho muitos amigos na ABL e com frequência vou lá participar de algum evento. Se não aceito entrar a Academia é porque não tenho espírito acadêmico. Acho melhor deixar como está.

7) Qual o principal papel da palavra escrita e que importância ela pode ter na formação do cidadão como pessoa?

O papel da palavra escrita é fundamental. Mesmo que o livro eletrônico venha a ocupar o lugar do livro impresso em papel, isso não vai alterar a importância da leitura e da escrita na formação das pessoas. O ser humano é um ser cultural e, se perdermos essa noção, caminharíamos para o desastre… Não acontecerá.

8) O senhor foi um dos muitos artistas e intelectuais presos e exilados na época da ditadura. O que pôde aproveitar de positivo em meio a tudo isso? Quais são as lutas dessa nova geração?

Os anos de exílio me ensinaram muita coisa, tanto no plano da vida quanto no plano político e cultural, mas preferia ter aprendido essas coisas de maneira menos traumatizante.

9) Que mensagem o senhor poderia deixar para os jovens estudantes, que muitas vezes se veem decepcionados com o cenário atual do país, em vários aspectos, inclusive o político.

É natural que os jovens estejam desapontados com o que ocorre na política brasileira. Diria a eles, herdeiros do país, que lhes cabe mudá-lo e melhorá-lo. A vida é inventada e, se não a reinventamos, ela tende a degenerar.

A gripe do Mq. de Rabicó, a FLIP e outras coisas…

Literatura

“Vou-me embora pra Pasárgada (…)” - Manuel Bandeira

 

Mais um ano, e a irresistível FLIP diz adeus. Disse adeus a mim e a minha pequena limitação frugal de não poder banquetear a grande mesa do saber e do conhecimento, destrinchada sobre garfos de autores comezinhos.

Mas, não vamos chorar o leite derramado, brindado nos copos do banquete. Sobre isso já dizia minha avó – provavelmente inspirada na moral da fábula de cabeceira, A Vendedora de Leite, minha favorita de La Fontaine.

Também voltou a dizer sobre os desperdícios lácticos, o velho Chico. Não o rio, mas o Buarque. Talvez menos leite derramado sane a falta de leite do mundo, e combata um pouco desta fome. A fome do leite no bucho de milhares de nascituros, a fome de livros que se nota na mesa. Na mesa da escola.

Cantarolando o refrão: livro pra comida, prato…

Há pratos, mas há falta de comida (não nas despensas, que estão fartas). Há mesas. Será que há falta de fome?

A propósito das coisas internacionais, feito uma festa assim em Paraty, ser internacional hoje em dia anda um pouco perigoso. Vide a gripe que ronda os lenços (pobre Marquês de Rabicó). Soubesse um dia o Lobato sobre o mal que padece o nosso amigo, lhe teria precavido. E já há algum tempo, George Orwel alertou sobre a perspicácia suína e o grande poder que eles possuem de comandar uma Revolução. Seja a Revolução dos Bichos, ou o que seja.

Mas a gripe não preocupa. Preocupa o vírus inativo da poesia que há muito se incuba nos corações e não são escarradas nos papéis.

E ficam assim, inofensivos.

Um grande doente desse quilate foi o próprio Bandeira, o Manuel, que não teve vergonha de esconder sua doença fatal. Poiesiou até não mais poder. Fugiu pra Pasárgada, inúmeras vezes, e felizmente sempre voltou de lá pra nos dizer os seus noticiários. E quando o mundo ficava assim também meio indigesto; pronto! Ia pra Pasárgada outra vez. E até hoje ele é amigo do rei…

Mas o mundo concreto, esse sim, não dá pra fugir. A vida presente é a melhor matéria, como anuncia profético nosso Drummond (acho que um pouco do vírus que possuo, também é mutação da doença do Manuel, do Drummond e de tantos outros vírus juntos).

A propósito do Manuel (sim, o Bandeira) ter sido o propósito da festa, isso é fato mais que merecido. Quero chegar aos oitent’anos que um dia ele chegou, lutando a boa luta que ainda não se lutou.

Os convidados para o banquete, como sempre, causam as velhas e renovadas sensações. Uns nomes ao serem pronunciados provocam frisson. Outros, no entanto, não despertam nada na curta memória.

Naturalmente, acho que a gripe bateu mais forte por conta do nome áureo da FLIP: Lobo, o António. Também pudera: essa de lobo e sopro já conta o conto das casinhas de palha, madeira e tijolos.

Gosto do Lobo, o António. De sua fronte grisalha emanam pensamentos sutis. Cortes sutis e ferinos (ou lupinos, como preferir) nas camadas mais enraizadas do pensamento comum. Queria estar lá só para tê-lo visto, o Lobo, ditando as regras mais insensatas do bem escrever, num português de gostoso sotaque lusitano.

Viva o Marquês de Rabicó, e nosso eterno mote: Vou-me embora…
Pra onde mesmo?!

Esperando a próxima FLIP,
Carla Guedes

Campanha: Sente-se deprimido? Leia poesia!

Literatura

“Mens sana in corpore sano.” (Sátira XJuvenal)

O Ministério da Saúde, Educação, Cultura e Lazer, Desenvolvimento Humano e de Inclusão Social adverte:

Ler poesia é tiro e queda pra qualquer estado emocional alterado; cura tédio, depressão, loucura; alivia as dores de cabeça, do coração e da alma; também potencializa sorrisos, lágrimas, pensamentos e senso crítico. Persistindo os sintomas, recomenda-se fazer uso de criação literária, pois é caso crônico de criatividade tolhida. Posologia: sempre que se puder.

Nunca me senti envergonhada em afirmar que a literatura é minha terapia particular. Intuitivamente falando, acho que não é só a mim que se aplica esta máxima; e cientificamente, também não. Tantas e tantas pessoas que conheço costumam dizer coisas bem parecidas. “Escrevo poemas porque me alivia os sentimentos“. “Leio pra fortalecer a alma“. “Ler exercita o pensamento“. “Um bom livro é um bom remédio“.

Cada qual possui a sua terapia, e as receitas são pessoais. Há pessoas que tricotam, pintam, escrevem, meditam, cantam, cozinham, jogam… Mas existem terapias, além dessas particularíssimas, que se aplicam a todo e qualquer um da espécie Hommo sapiens (incluindo as outras espécies do reino Animalia e até mesmo as do reino Plantae).

A Musicoterapia é uma delas. Como linguagem universal, a música tem um poder de internalização instantânea, porém não é dela que queremos falar. Onde queremos chegar soa quase como a contemporânea biblioterapia: batizo de Poiesisterapia.

A Biblioterapia é tão antiga quanto o “Era uma vez…”. Acho que ela começou nas cabeceiras das crianças onde suas vovós e papais contavam histórias para sonhar. Começou nas tribos, onde em volta da fogueira eram narradas em conjunto as histórias fantásticas da floresta e da criação do universo. Começou com a arte de narrar dos trovadores galantes.

A tradição do conto quando não se tem o domínio da leitura e da escrita, é uma parte importante dela. E o que interessa tanto na Biblioterapia, quanto na nossa Poiesisterapia, é o dom de se curar através do fantástico encontro consigo mesmo que ambos permitem.

Qual apaixonado nunca identificou sua amada num poema de amor? E qual o jovem – os jovens de espírito – que não se identifica com os poemas de liberdade (da alma, da pátria, do indivíduo)? Nos momentos de sinestesia, nos momentos do quotidiano, em uma viagem ou nos momentos de dor (física e emocional)… Existem poemas para todos os gostos e estados d’alma. Eis a tautologia da Poiesisterapia.

Incrivelmente, quando se faz uso da leitura, e aqui, da leitura de poemas, há um pôr-se para fora. Tal como a filosofia, a poesia também está cheia dessas constantes. Ao pôr-se para fora, ao provocar estranhamento de ver as gastas matérias quotidianas de um ângulo nunca dantes imaginado, mergulhamos num encontro mais profundo com as partes que não conhecíamos de nós mesmos. Nos curamos pelo equilíbrio interior de se ver refletido; de se ver ser humano, de ver ser humano no outro (que também sente).

Fazer poesia, entalhar um texto, é um ritual à parte. Não só nos deparamos com toda essa parte desconhecida de nós, como a expomos para o mundo. E aí a tragédia do alívio: ficou no papel toda angústia, ansiedade, palpitação, pensamento repentino. Fica registrada a alegria, que pode ser revivida a cada vez lida. A mágica de perpetuação do bom, e o consolo da agrura.

Convido-o gentilmente a aderir esta campanha. Leia poesia! Faça poesia! Viva poesia. A cura é mais sutil e permanente do que podemos imaginar.

Plá da Semana

Biblioterapia, de Eva Maria Seitz
95 páginas – Habitus Editora

Nosso Manifesto da Poiesisterapia tem sua partida na Biblioterapia, que vem crescendo de forma tímida nas fileiras das universidades. Aliando os profissionais da Biblioteconomia aos da Saúde, prescreve-se a leitura e a contação de histórias como um passatempo, cultura e também para auxiliar nos processos de recuperação. Este embasado livro conta um pouco dessa experiência.

Pratique a Poiesisterapia!
Carla Guedes

Livre-se dos Livros!

Literatura

Não, esta não é mais uma chamada revolucionária anticultural, nem uma convocação inquisitorial com cheiro de fogueira, muito menos uma manifestação indignada dos anti-leitores. Mas, participe, livre-se dos livros!

Para você se livrar dos seus livros, dica é o que não falta. Vamos então propor aqui algumas iniciativas para você fazer com que eles estejam longe de você (mas perto de alguém que o precisa).

Para começar, o site LivraLivro é um dos caminhos. A ideia é simples. Você tem um livro em sua estante, que você já leu. Você está interessado em um determinado livro para ler, mas que ainda não possui. Com certeza, existe alguém que já leu o livro que você quer, mas que ainda não leu o livro que você já leu…

Então, livre-se do seu livro, que outra pessoa também se livrará do dela, e ambos estarão satisfeitos com a troca. Eureca!

A efetuação das trocas no LivraLivro funcionam mais ou menos assim: você se cadastra e monta duas listas. Uma lista será a de “Livros que Possui”, e a outra, a de “Livros que Deseja”. O resto será por conta do sistema, que têm mecanismos simultâneos de identificação, casando suas necessidades com as de outras pessoas. Achado a permuta (com sorte e ajuda da probabilidade), um e-mail é enviado, havendo um prazo para as trocas.

O envio é por sua conta, pelos Correios mesmo (que pode variar, dependendo do livro, de R$3,00 à R$8,00). Não é um custo muito alto, não é verdade? Há também um sistema de avaliação do usuário, que permite medir a reputação, confiabilidade de quem você está trocando (não vale enviar livro deteriorado, que você corre o risco de ser qualificado negativamente). Outra coisa que vale a pena enfatizar é que os livros trocados não serão devolvidos. É uma espécie de escambo dos tempos atuais.

Com proposta similar, trâmites um pouco diferentes (e muito mais dinâmico), o Trocando Livros é interessantíssimo! Com um sistema de créditos, você é quem faz a troca, e, para acompanhar o envio do seu livro, é disponibilizado o código de rastreamento pelos Correios. Conheço pessoas que já fizeram a troca, e não se arrependeram!

Outro projeto muito interessante é o Livro Errante, que nós já tivemos a oportunidade de falar um pouquinho aqui na nossa coluna (Projeto Chá de Letrinhas). Celebrado em território “orkuteano” e propagado em iniciativas mais, o Livro Errante prega a mesma ideologia: não deixe seu livro em uma estante; há outras pessoas querendo lê-lo.

Os caminhos para fazê-lo, são os mais diversos. Você pode se tornar membro da Comunidade e participar dos tópicos de lista de empréstimo ou ser um ativista radical, deixando por aí seus livros em praças públicas, bancos, ônibus, salas de espera. Dentro, coloque um recadinho: “Pegue! Leia este livro, e passe a iniciativa adiante!”

Nós achamos que os livros, em vez de amarelarem nas estantes, longe dos olhares curiosos, são destinados a estar ao alcance dos leitores. Assim, esses volumes passam de mão em mão, e são folheados, lidos e relidos (…) Viagem ao Centro da Terra, Jules Verne

São iniciativas próprias e criativas que vêm crescendo no território da web, nas escolas, bibliotecas, hospitais. O objetivo maior é levar a leitura a pessoas que talvez não teriam acesso; ou despertar a curiosidade de ler um livro naqueles que geralmente não o fazem por falta de incentivo; ou fazer a circulação de leituras pelo preço muito abaixo de uma obra: apenas a postagem de envio dos Correios!

Em tempos de crise, vale a criatividade. Não importa a crise que seja. Seja ela econômica, educacional, cultural ou humanitária, façamos a nossa parte para mudar o que nos cabe como indivíduos sociais que somos. Basta um pouco de união e exercício de nossas capacidades intelecto-morais.

Quase sempre nos sentiremos como o beija-flor que tenta apagar o incêndio na floresta, mas acho que não importa. O que interessa é o que realmente importa para nós.

Livre-se do seu livro!
Carla Guedes

Cartas a um Jovem Poeta

Literatura

“Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade.” - Rilke

Aqui estou, novamente escrevendo, após um breve tempo de férias. Nesse breve tempo, as leituras renderam e as produções literárias também. Mas o grande dilema foi: o que falar disso tudo? Ou melhor: o que não falar?!

“Quando falar alguém grandioso e único, os pequenos têm de se calar”, disse Franz Xaver Kappus na introdução da obra Cartas a um Jovem Poeta. Pois bem, sigamos o seu conselho. Deixemos falar Rainer Maria Rilke através de suas sábias cartas; o mais célebre poeta de língua alemã do último século.

Rainer Maria Rilke (1875- 1926) nasceu em Praga, então parte do Império Austro-Húngaro. As suas obras e poemas tiveram um impacto grandioso em gerações e mais gerações de poetas, sempre despertando interesse e estudo aprofundado. Não é à toa que grandes poetas como Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Augusto de Campos se incursionaram por traduzir suas prosas e poemas.

Na obra deste autor clarificam-se duas fases marcantes. A primeira corrente é marcada pelas coisas fluidas e mistificadas, com presença de figuras espectrais e diáfanas. Tal é o caso do conhecido (e favorito) poema Elegias de Duíno:

Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio
Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros
Sintam o ar mais vasto num voo mais íntimo.

Já a segunda corrente de Rilke, e provinda de um impulso interno não menos verdadeiro, é marcada pelas coisas propriamente ditas. Os chamados poemas-coisas. Mais densos, diretos e precisos, e imprimidos de uma beleza intelecto-emocional.

Aqui no Brasil, a produção literária da chamada Geração de 45 foi diretamente impactada, nos seus chamados “rilkeanismos”. Foi marcada principalmente pela fase mais diáfana da obra Elegias de Duíno. Já os seus poemas-coisas impressionaram poetas como João Cabral de Melo Neto.

Publicadas três anos depois de sua morte, as Cartas a um Jovem Poeta são realmente conselhos a quem quer se tornar um profícuo poeta ou escritor: ser um verdadeiro ser-humano. O então jovem Franz Kappus envia seus poemas ao consagrado Rilke e pede sinceramente que ele dê seu parecer sobre sua escrita. As cartas que trocaram durante anos são então matéria de nossa reflexão hoje.

Afinal, perguntamo-nos: a necessidade está em escrever ou em ser lido?

Pois bem, e já que me permite aconselhá-lo, peço-lhe que desista de tudo isso. Estás a olhar para fora de si. Investigue a razão que o leva a escrever, observe se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se a resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade; a sua vida, mesmo nas horas indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto.

Eis então a razão de ser da boa escrita! Não deve ser suprimento de nenhum apelo exterior, apenas das agruras e impulsos íntimos. Nisso vemos alguma arte. Nisso consiste a maior necessidade. Por fim, em palavras que muito me tocam, ele expressa o mais delicado conteúdo do ser-artístico:

Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem, apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda amplidão e serenidade, sem preocupação alguma.

Pois bem, deixemos que as cartas falem por si. Elas traduzem uma preciosa modalidade que Rilke soube conduzir: uma prosa, que apesar de prosa, não nega a substancialidade poética do acontecimento humano.

Plá da Semana

Cartas a um Jovem Poeta/A Canção de Amor e Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, de Rainer Maria Rilke – 111 páginas – Editora Globo

E o Plá da Semana vai para… nosso ilustre Rilke! Nesta bela edição com prefácio de Cecília Meireles, lemos na íntegra as dez cartas selecionadas pelo aspirante Franz Kappus, mais um entusiástico poema. Numa linguagem simples e profunda, as missivas são a porta de entrada para que nós conheçamos um pouco mais da sutileza do Poeta. Para ler: a Primeira Carta do volume.

Um grande abraço!
Carla Guedes

A Biblioteca Mundial Digital da UNESCO

Literatura

Biblioteca; Espaço físico onde se guardam livros. 

Partindo da definição etimológica da palavra biblioteca, vemos que muita coisa mudou ao longo das eras. Hoje em dia, o espaço físico a que nos remetemos pode muito bem ser um espaço virtual!

A produção de conhecimento pelo homem implica também na garantia de acesso e conservação desse bem. A função das bibliotecas seriam assegurar essas duas características importantes para a manutenção das informações armazenadas nos livros. Se durante parte da História, o acesso fora restrito (vide O Nome da Rosa, de Umberto Eco), esse fato evidencia o poder que o conhecimento pode agregar ao indivíduo através da capacidade de questionar e pensar.

Grandes e famosas foram algumas bibliotecas do mundo. A Antiga Biblioteca de Alexandria, no Egito, em 295 a.C., é o maior exemplo do idílico acervo cultural humano. No Brasil, a Biblioteca Nacional, encravada no Centro do Rio de Janeiro, também exemplifica esse esforço de romantismo bibliófilo.

E se uma arrumação na bagunça do espaço virtual pudesse proporcionar esse tão buscado acervo cultural fidedigno? É com alguma esperança e alegria que no dia 21 de Abril será lançada a Biblioteca Mundial Digital (World Digital Library) na sede da UNESCO, em Paris.

O projeto implantado em 2005, com um protótipo lançado, será oficialmente inaugurado e disponibilizado aos internautas. Com participação de países do mundo inteiro como a Arábia Saudita, Brasil, Egito, China, Estados Unidos, Rússia, França, Iraque, Israel, Japão, Grã-Bretanha, México e África do Sul, o site pretende disponibilizar tesouros histórico-literários destes vários países, gratuitamente.

Funcionando em 7 idiomas (árabe, chinês espanhol, francês, inglês, português e russo), a ideia é ter um grande portal da cultura do mundo, com trabalhos raros e únicos sendo digitalizados. Serão incluídos manuscritos, mapas, livros, partituras e gravações musicais, filmes, gravuras e fotografias.

O maior acervo digital atualmente fica por conta da Biblioteca do Congresso Americano, que conta com cerca de 7,5 milhões de documentos on line. Inclusive, a equipe desta é que esteve coordenando o projeto da Biblioteca Mundial Digital, em parceria com as diversas instituições internacionais.

O Brasil, participante desde o início, teve total apoio da Biblioteca Nacional, que enviou reproduções de mapas e registros fotográficos de valor raro. Inclusive, todo o acervo em Português será brasileiro, já que as instituições de Portugal não estarão participando do projeto nesse primeiro momento.

Dentre essas maravilhas, poderemos consultar temas como história, religião, filosofia e ciência com explicativos do texto nas sete línguas do site, além de contar com recursos de aumento e visualização de detalhes de gravuras. Não deixe de conferir!

Cada vez mais iniciativas como essa irão engrandecer o ato da leitura, a disponibilidade para pesquisa e a democratização do conhecimento. Um dia, a internet será democrática para todos, tanto quanto gostaríamos…

Plá da Semana

O nosso plá desta semana será muito mais que uma dica, será um lembrete! 18 de Abril é o Dia Nacional do Livro Infantil. Quem não se recorda dos belos e fantásticos livros que folheou na infância e das histórias maravilhosas que conheceu? Pois bem, este dia é um brinde à nossa imaginação, e um parabéns acalorado ao também aniversariante do dia: Monteiro Lobato. Portanto, comemoremos o livro infantil e enxerguemos nele um instrumento prazeroso para desenvolvimento humano e transformação social.

Razão Rosa: João Cabral & o Feminino

Literatura

Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto: nunca em detalhe.

Não se vê nenhum termo, nela,
em que atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.
(…)

(Escritos com o CorpoJoão Cabral)

Abrindo 2009 com chave de ouro as atividades literárias do Projeto Palavra Expressa, na última quarta-feira, às 18h, aconteceu na Biblioteca Municipal Dr. Télio Barreto a extraordinária oficina literária Razão rosa: João Cabral & o feminino.

Ministrada pelo grande mestre Gerson Dudus e com duração aproximada de quatro horas (que por mim, estendiam-se por mais poemas e poemas afora…), quem compareceu ao banquete literário em nada teve do que reclamar. Muito pelo contrário; fica o gosto de quero mais.

O ofício da noite foi passear com olhar crítico pelas obras de João Cabral, buscando sempre a forma como olhava o feminino e a linguagem-mulher. Oficina é ofício, assim como poiesis, que significa feitura, criação. O ofício de desmistificar o olhar, de reencontrar o olhar de João Cabral em suas esculturas de linguagem.

A mulher, como escrevi em outras reflexões neste espaço, vive na poesia suas mais diversas formas de representação. Ora como uma santa beatificada de formosura, ora como um instrumento insensato de pecado, ora como retrato humano de sonho e sofrimento… E em João Cabral, como a encontraremos retratada?

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) é poeta de alta estirpe, um refinador nato de palavras. Sua poesia, preenchida por uma tácita racionalidade, não deixa, em tempo algum de sensibilizar as idéias. É o poeta das sensações concretas, da poesia substantivada ao invés das adjetivações, preferindo o sensorial ao abstrato.

É nesta capacidade de entendimento da palavra, que veremos uma peculiar forma de entrever a mulher. Apesar de contido, racional ou sem extravasa-mento, acaba vazando de João Cabral um delicado traçado que contorna firmemente o perfil feminino. E assim vemos, como nos poemas Rio e/ou Poço, Mulher Vestida de Gaiola e Uma Ouriça, escritos profundos e sensibilizados sobre as múltiplas faces femininas.

Em se falando de mulher, acostumados que somos com um outro grande mestre, o Vinícius de Moraes, fazer poesia de mulher é também falar de sua beleza, uma beleza lânguida, extremamente acercada de desejo. E neste quesito, João Cabral se mostra inquietante, traduzindo o desejo e o sensorial com classe nunca dantes vista. Permeia o degustativo e a natureza, em Jogos Frutais; delineia o delicado e o fluídico em Imitação da Água; constrói a frase mais bela e feminina com Mondrian’s e sintaxes em Escritos com o Corpo; sem deixar, em tempo algum ser lírico demais, sentimental, ou adocicado.

Nele, a palavra impossível de poema, a palavra já gasta e invariável pode ser reinventada, como em A Palavra Seda, porque foge do lugar-comum. O feito de arrancar da linguagem tudo aquilo que viciou o poeta e a poesia é trabalho grande que ele faz com primor. Repensar a forma.

E para João Cabral, é tudo verdadeiramente poiesis… O feminino singular.

Sobre o Projeto Palavra Expressa: O projeto é na verdade um fomento à atividade literária no município, trazendo diversos eventos e comemorações ligados às letras. Chefiados pelas poetisas Carla Pereira e Rosane Machado, e com apoio e participação de vários outros escritores e poetas ligados à cidade, nos brinda sempre com benditas surpresas. Sejam palestras com autores, lançamentos de novas obras, manifestos literários, saraus de poesia e/ou oficinas interessantíssimas. Como esta.

Plá da Semana

Sarau de Poesia - Palavra Expressa

Ainda pelo Projeto Palavra Expressa, acontece neste sábado, dia 21/03, um evento pelo Dia Mundial da Poesia, promulgado pela Unesco. Além do Varal Poético, com poetas macaenses, haverá uma Procissão Poética comemorando, com o Congresso Mundial Indígena no Brasil, a cura da Mãe Terra, pela vida e pela paz. A concentração do evento está marcada para sair às 10h, da Praia dos Cavaleiros, em frente ao Comfort Suites. Participe!

Até a próxima!
Carla Guedes

Cine-Literatura

Literatura

“Os olhos do Sr. Button seguiram a direção apontada pelo dedo, e é isso que ele viu. Envolto em um lençol branco volumoso, e parcialmente abarrotado num dos berços, um velho aparentemente com cerca de setenta anos de idade.” – excerto do conto O Curioso Caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald

OscarA mídia esquenta nesses tempos. Não só o Carnaval, mas também o bilionário ritual de 81 edições chamado Academy Awards, ou Oscar, acontecerão neste fim de semana.

E você, não pense que se enganou: esta não é mesmo a coluna comandada pelo Jonathan “Ceará”. Literatura e cinema têm mais a ver do que você imagina (assim como literatura tem muito a ver com muito mais coisas do nosso dia-a-dia).

Nunca se viu, nos últimos tempos, tantas indicações à estatueta de filmes baseados em livros ou contos. Fazem parte dessa mostra os cotados O Leitor, O Curioso Caso de Benjamin Button, Foi Apenas Um Sonho e Quem Quer Ser Um Milionário? (inspirado na obra Sua Resposta Vale Um Bilhão, de Vikas Swarup). Mas, o que explica essa alta dose de adaptações literárias?

Essa utilização já não é tão nova. Não só o cinema, mas também o teatro e a ópera se utilizam dos sucessos da literatura para abrilhantar seus enredos. No caso da segunda, é clássica a citação de Manon Lescaut, do escritor Abade Prévost, que fora adaptada para ópera pelos grandes Jules Massenet e Giacomo Puccini. No teatro, o ofício se confunde. Os grandes romancistas adaptaram suas próprias obras para teatro, e escreveram diversas comédias, tragédias e dramas.

A adaptação de obras brasileiras para as telonas não fica muito longe de ser comentada. Lembro-me de ter assistido, há muito tempo, o raro Morte e Vida Severina, com canções de Elba Ramalho, e que apesar do desenrolar obscuro das cenas, ficou para sempre gravada sua sensibilidade poética traduzida em cinética.

Poderíamos citar tantas outras adaptações nacionais: Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Tieta do Agreste (Jorge Amado), Senhora (José de Alencar), O Menino Maluquinho (Ziraldo), O Auto da Compadecida (Ariano Suassuna), Bicho de Sete Cabeças (Austregésilo Carrano) e outros tantos.

Dos internacionais, temos um sem-fim de títulos. Destaque para as grandes trilogias, séries ou contos fantásticos tais como Harry Potter, O Senhor dos Anéis, ou As Crônicas de Nárnia. A tecnologia tem possibilitado a reprodução fiel daquelas cenas que antes só eram possíveis no nosso imaginário.

É bem sabido que é mais comum as pessoas lerem certo livro por ter visto o filme dele do que o contrário. Já comigo, posso citar o oposto: antes de ir aos cinemas, gosto de primeiro ler a obra. Ou, quando alugo um filme, vou pelas escolhas direcionadas: baseada nos livros e/ou clássicos que já li. O mesmo aconteceu com Viagem ao Centro da Terra, Volta ao Mundo em 80 dias, Orgulho e Preconceito, Oliver Twist e O Primo Basílio.

Comparações são inevitáveis quando se vê um e lê outro. Decepções também. Às vezes nós temos a sensação que aquele personagem que imaginamos foi pobremente caracterizado, ou que tal filme fantástico foi baseado em uma obra de enredo tão arrastado. No mais, cada um com sua particularidade e riqueza. Cada qual com sua linguagem e mensagem próprias.

Seria falta de roteiros próprios? Busca de renovação do consagrado? Certeza de público cativo? O que sabemos sobre a enorme quantidade de filmes sobre nossos livros preferidos ou adotados é que eles nos proporcionam, de certa forma, uma boa chance de releitura.

Afinal, o filme é sempre filtrado pelo olhar do roteirista e do diretor (vide a quantidade de cenas cortadas de uma produção cinematográfica). Com isso, podemos criticar ao acharmos que a mensagem principal foi perdida ou até manipulada… Ou observar coisas que não havíamos percebido em leituras anteriores!

Um grande abraço, e votos de paz,
Carla Guedes