Arquivo da Coluna LiteraturaPág. 2 de 3

A hora e vez de Guimarães Rosa

Literatura

“Às vezes, quase acredito que eu mesmo, João, seja um conto contado por mim.” 
João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa (1908-1967), comemorado este ano, nos advertiu, em 1965: “Que nasci no ano de 1908, você já sabe. (…) Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim são minha maior aventura”.

Vamos então rever e compreender através de sua maior aventura pessoal, a literatura, quem foi João Guimarães Rosa…

Nascido em Minas Gerais, foi médico e diplomata. E nesse percurso, a literatura alinhavou seus passos. Em pequeno, demonstra especial interesse pelas línguas e livros. Na faculdade de medicina, para auxílio financeiro, escrevia contos para a revista O Cruzeiro, além de participar de inúmeros concursos literários (premiado em muitos deles).

É assim que o exercício começa: a intimidade com as palavras. Seu olhar literário não deixava escapar os acontecimentos. Em dois anos, como médico no interior de Minas Gerais, a curiosidade pelas coisas da terra, o folclore e espirituosidade do sertanejo não passaram em branco. Rosa foi anotando os ditos, frases em pára-choque de caminhão, falas e expressões, descrevendo paisagens e sensações; as míticas e crédulas lembranças de um povo.

A literatura Moderna é marcada pela rudeza naturalista. Assim, a Geração de 45 retoma o percurso de escrita regionalista da Geração de 1930, mas com toda a carga política e amadurecimento. São nos sertões nordestinos e mineiros dos interiorões que encontram a matéria humana, as lides com o animal, com o rancho, com a seca.

Mas, como descrever a fala e dramas sertanejos? Com a bagagem culta, própria do escritor, ou com a fala simples, própria do cotidiano das querências? Guimarães Rosa, com sua prosa repleta de poesia, mitologia e realidade reinventa a linguagem.

Nenhum autor brasileiro foi tão fundo como ele na arte de inventar palavras: circuntristeza, suspirância, velhouco, ensimesmudo, embriagatinhar, nonada, mimbauamanhanaçara… Calma! Não se espante. Não é tão complicado assim. Rosa não queria que seus leitores vivessem consultando dicionários (até porque essas palavras não serão encontradas lá). As palavras seriam como enigmas divertidos.

O contexto da obra e um mínimo conhecimento de radicais, às vezes, bastam para decifrar os risonhos significados. A linguagem cotidiana, como dizia, estava desgastada pelo uso: só expressava lugares-comuns, e não idéias. “Cada autor deve criar seu próprio léxico, do contrário não pode cumprir sua missão”.

Imortalizado por obras como Grande Sertão: Veredas, Corpo de Baile e Sagarana, Guimarães é digno da cadeira que conquistou na Academia Brasileira de Letras, em 1967. Curiosamente, três dias após a posse, aos 59 anos, falece vítima de infarto. Ele prenunciara a emoção em ser condecorado. Apesar da brevidade da posse, seus contos, poemas e romances permanecem mais que lembrados nos personagens e lutas que vivificou.

Com base num conhecimento lingüístico espantoso (tendo estudado as gramáticas de mais de vinte e três línguas), Rosa foi mestre em fabricar novos termos, assim como em desenterrar palavras do desusado português arcaico e do palavreado popular. Não só a língua em esmero, mas também conteúdo: captou em suas raízes a brutalidade de viver, a crença do sertanejo, as superstições e a relação entre o trabalhador e o divino. Pois a língua é instrumento de emotividade, e de liberdade.

Plá da Semana

Sagarana, de Guimarães Rosa
413 páginas - Ed. Nova Fronteira

Publicado pela primeira vez em 1946, Sagarana reúne os mais conhecidos contos do nosso autor, como “O burrinho pedrês”, “São Marcos” e “A hora e vez de Augusto Matraga”. Uma curiosidade: o título foi criado a partir da junção das palavras Saga, que significa narrativa, conto; e a palavra Rana: do tupi ‘rana’; semelhante, parecido a.

E esta semana, em ritmo de homenagem à Guimarães Rosa e em também em comemoração ao 1º Ano do Makaeh Cult, temos um Plá mais que especial!

Pergunta: “Qual o nome dado ao fenômeno lingüístico de criação de novas palavras, muito utilizado por Guimarães Rosa?”

Envie um e-mail para carlaguedes@makaehcult.com, respondendo a pergunta acima corretamente, e concorra ao livro da nossa dica de hoje! O resultado estará disponível na próxima matéria da coluna de Literatura.

Até lá, e Boa Sorte!
Carla Guedes

Maravilhas no mundo dos Sebos

Literatura

“A inenarrável promiscuidade dos sebos! (…) O sebo é a verdadeira democracia. (…) Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.” - Carlos Drummond de Andrade

Recorremos às livrarias quando queremos comprar livros recém-nascidos, estalando as páginas, novos em folha (literalmente). Mas os sebos são lugares à parte: neles os livros que são comercializados, além de manuseados, possuem vidas próprias.

A começar pelo nome, Sebo evoca nostalgia, que vem do tempo anterior à energia elétrica, onde a leitura era feita à luz da chama bruxuleante de velas amarelentas. Essa prática do contato das mãos com velas deixava os livros manuseados um tanto engordurados e sebosos, passando o substantivo a designar vulgarmente as livrarias onde se vendem livros usados.

Os primeiros estabelecimentos do tipo surgiram na Europa do séc. XVI, mas restritos à venda de documentos raros e importantes, já que a leitura não era um hábito popular ou acessível. No Brasil, esse seguimento do comércio passou a ser difundido a partir do séc. XVII, mas nos faltam referências e publicações sobre o tema.

Num sebo, seu espaço sagrado é algo um tanto peculiar, quase sempre tendendo à desordem gostosa de suas prateleiras. Vasculhando os espaços selvagens (na maiorida das vezes, tendendo a ser apertados) encontramos edições fora de catálogo, tiragens antigas, obras de colecionador, livros raros e lançamentos usados a preços modicamente baixos.

Muito se assemelha ao acervo de biblioteca, mas de uma forma menos organizada e menos formal. Dentre as diversas sensações e imagens características que o visitante de sebos é familiarizado, o papel amarelado e o cheiro dos anos são os mais marcantes.

Em nossa cidade não há sebos (ao menos, procuro-os esperançosa por Macaé, mas não tive notícias de nenhum), infelizmente. Quando estou em outras cidades, sempre que posso separo um tempo à visitação desses amarfanhados estabelecimentos. Mas não tendo um por perto, não é motivo para não ter edições vincadas, raras ou em preço mais acessível. Assim como o fenômeno das livrarias virtuais, nasceram os Sebos Virtuais, que adquiriram rapidamente um sucesso maior.

Grande exemplo é o site Estante Virtual, que funciona como um Mercado Livre de alfarrabistas (ou sebistas, como desejar). Com mais de 1.000 sebos cadastrados de 194 cidades, possui um acervo on-line de quase três milhões de livros. Não há como não encontrar aquele livro de segunda-mão procurado há tempo. O interessante também é que o internauta pode se cadastrar gratuitamente e anunciar alguns volumes que deseja comercializar, e, até certa quantidade, não paga comissão ao site pela venda.

Na mesma direção andam outros sebos virtuais, cujo princípio é “romper com o quadro atual de pulverização das centenas de sites de sebos brasileiros, que competem desnecessariamente pela atenção de um visitante que fatalmente não irá ter tempo ou paciência para visitar a todos.”

É certo que não teremos, com os sebos virtuais, o sem-fim de coisas que comumente nos apaixonamos: as incontáveis horas de garimpo entre lombadas roídas ou lustrosas, vitrines coloridas, dedos correndo folhas gastas e marcando-as demoradamente, uma troca de idéias com outro garimpeiro, os esbarrões em pilhas enormes, os olhos corriqueiros a localizarem um exemplar que os braços não alcançam, volumes de encherem os olhos e a imaginação de um dia poder ler aquilo tudo…

Mas a internet tem se mostrado um aliado importante de disseminação, não significando o fim dos sebos físicos, mas sim, seu fortalecimento e procura. Além disso, não poderão mais se valer do principal argumento (que os que possuem no fundo alguma preguiça de ler, recorrem sempre) de que livros são caros, ou inacessíveis.

Temos a oportunidade, com sebos virtuais ou não, de achar aquela edição esgotada, nos deparar com dedicatórias emocionadas, datas longínquas, ou rubricas desconhecidas. Pois assim como assinalou Drummond, os sebos são sempre democráticos. Acrescento que os sebos são templos repletos de histórias pessoais, em que se misturam homens e livros.

Plá da Semana

Desesperado procurando livros de segunda-mão pros estudos, ou querendo vender alguns volumes seus? Explorando o Estante Virtual você se cadastra e pode realizar estas e mais algumas transações comerciais. A negociação é feita diretamente com o anunciante, através do site. Consegui livros esgotados na editora, e tenho um amigo que vendeu algumas revistas antigas. Tudo correto, com qualificações positivas e sem transtornos. Vale a pena dar uma conferida!

Um grande abraço, e uma ótima semana!
Carla Guedes

A Festa da Literatura

Literatura

Casarões de Paraty“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?”

E agora, você? Mais um ano se vai, e mais uma FLIP também. Não que eu queira remoer fato passado, mas o trecho de Drummond acima me remonta indubitavelmente à festa da semana passada, como uma alegoria a me soprar pela sexta vez aos ouvidos: perdeu mais uma. E agora? O gosto da ressaca literária ainda nos olhos. A festa literária do ano… Fiquei daqui, apenas acompanhando os fatos.

Balanço de ganhos e perdas: o que o Brasil ganha realmente com a FLIP? O que a literatura ganha de novo?

A denominação Festa Literária Internacional de Paraty evoca celebração. Festa Literária então, é um sonho que cultiva do bibliófilo ao indivíduo que curte timidamente boa cultura. Na programação: papos literários, mostra de cinema, esquetes… e música. Nesse ano desfilaram presenças expoentes como o cantor Luiz Melodia e Carlos Lyra, autor eternizado da canção “Minha Namorada” (deu pra perceber as diversas formas celebradas, que não a grafada, da nossa amiga literatura).

No decretado Ano Nacional de Machado de Assis, os 22 literatos brasileiros e 18 estrangeiros convidados fizeram sua devida homenagem. Mas não quero falar de Machado por agora (o Bruxo do Cosme Velho merece um artigo só dele, que ele é paixão antiga minha). Quero falar exatamente da falta de universalidade ao acesso, contrária ao que se idealiza. Dessa restrição de classes. “Não me convidaram…”, enfatizaria o poema musical de Cazuza.

Isso porque ir à FLIP virou simplesmente a moda da temporada, e em Paraty, as temporadas não aliviam o bolso. Acampar é a solução se não puder se hospedar pelas bagatelas que cobram. Sem contar a não-gratuidade das oficinas ou dos ingressos pras palestras, ou dos concursos literários com taxas de inscrição salgadas da Off FLIP. E muita gente que queria celebrar a literatura ficou literalmente off.

No balancete final da festa, expectativa. Ponto pra literatura no Brasil? Justamente no pronunciamento oficial do diretor da programação me caiu a ficha da ousadia cultivada: “A FLIP é a melhor porta de entrada de um autor no Brasil“. Que funil, penso cá comigo. Mas ele prossegue, sendo mais enfático (o que me deixa mais apreensiva): “A FLIP é cada vez mais uma chancela fundamental que orienta o que vale e o que não vale a pena ler“.

Mortificação.

Fato consumado. A FLIP sem mais nem menos se transformou num selo elitizador da literatura. E arranha-me por dentro repensar a frase sobre o “que vale e o que não vale a pena” ser lido.

Lemos, logo pensamos! À medida que apreendemos uma visão de mundo construímos um parâmetro natural do “que vale e o que não vale a pena” (se é que existe mesmo isso). É claro que com uns anos calejados de bom olhar crítico, saberemos separar o joio do trigo, o “livro comercial” da “obra literária”. Mas pra isso é preciso treino, vivência própria, olhar propício. É preciso ler! Será que é mesmo necessária uma festa de poucos pra nos ditar parâmetros literários? “Tudo vale à pena (…)”, recorda o meu poeta.

Achei que o sonho ideal da festa da literatura (veja só que utopia!) fosse celebrar, na coletividade de boas mentes leitoras, temas eletrizantes, oficinas criativas, propostas inovadoras, educação em primeiro plano, e incentivo à leitura.

Mas ainda não foi dessa vez…

E o que perdi, perdendo mais essa? Perdi os casarões históricos de Paraty, e um rosário incontável de grandes nomes. A declamação poética de Elisa Lucinda, a lucidez de Ana Maria Machado, a musicalidade natural de José Wisnik, a vivacidade e luta de Pepetela, a juventude criativa de Vanessa Bárbara, a sacada de Neil Gaiman, a propriedade de Rouanet

Perdi a poesia de um fim de tarde, com um livro no regaço, a beira de uma enseada ensolarada nos mares de Paraty… Mas ano que vem, tem mais!

Plá da Semana

Melhores Poemas de Affonso Romano Sant'annaMelhores Poemas (1965-1999), de Affonso Romano de Sant’anna 156 páginas - Ed. Global

Incansável, Affonso Romano faz de sua poesia seu manifesto habitual, divagando entre as questões políticas de sua época (a ditadura que sentiu na pele), a onírica estética e o intelectualismo clássico. Pra quem gosta de se deliciar em abstrações, sem tirar os pés da concretude em que estamos mergulhados.

Boa semana e boas reflexões literárias!
Carla Guedes

Antes do Kasato Maru…

Literatura

Livro - Antes do Kasato MaruNo último dia 18, tivemos uma calorosa comemoração do Centenário da Imigração Japonesa em nosso país (1908-2008). Na historiografia oficial, a consenso de todos, o estado de São Paulo foi o primeiro a receber este movimento de imigração no Brasil.

O que poucos sabem, entretanto, é que nossa região também se insere nesse contexto, e pode ter abrigado a primeira corrente imigratória proveniente da “Terra do Sol Nascente”, em 1907.

Esse é o tema do mais novo livro do professor e pesquisador Marcelo Abreu, intitulado “Antes do Kasato Maru…” (Ed. Macuco), que conta a saga de Saburo Kumabe (1865-1926) e seu grupo na tentativa de prosperar em terras brasileiras. Mais precisamente, na Fazenda Santo Antônio, no município de Conceição de Macabu, na época distrito de Macaé.

O professor Marcelo Abreu é uma lenda viva, e seus alunos têm sempre alguma estória memorável para contar sobre sua História… Mais do que um professor dedicado, engraçado e querido por todos os pupilos, seu trabalho vai além da sala de aula.

Escrever para todos, “escrever para quem sabe ler”, como diz, é fazer com que conheçamos e preservemos nossa memória regional. É fazer com que nos apaixonemos pela História: seu principal objetivo.

O lançamento do livro no dia 12 de Abril, em Conceição de Macabu, foi anunciado nos jornais circulares, sites, programas de TV conceituados e em sua badalada comunidade do Orkut. Segundo o próprio, modestamente, a popularidade “o persegue”.

Ele ainda prometeu o lançamento aqui em Macaé, no mês Agosto, e nos concedeu esta entrevista falando um pouco mais sobre o seu novo trabalho.

Clique aqui para saber mais sobre o Prof. Marcelo Abreu

Continue lendo a matéria ‘Antes do Kasato Maru…’

120 anos de Pessoa

Literatura

Fernando Pessoa - Almada Negreiros“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.”
(De Poemas Inconjuntos por Alberto Caeiro)

E “entre uma e outra cousa”, Fernando Pessoa nos deixou mais do que um intervalo: uma vida dedicada ao extremo criativo; uma obra inconfundível.

De 13 de junho de 1888 à 30 de novembro de 1935, contamos com a passagem marcante do ilustre poeta. Não é à toa que hoje, para celebrar 120 anos de seu nascimento, a coluna Literatura faz esta pequena releitura de vida e obra. Homenagem merecida ao homem dos tantos “eus”. Afinal, redescobrimos a cada pensamento o nosso eu verdadeiro: sucessão infinita de metamorfoses diárias…

Nosso homenageado nasceu em Lisboa, numa tarde preguiçosa e tranquila. O Grande Poeta foi batizado como Fernando António Nogueira Pessoa, em homenagem ao santo de seu dia. Desde pequeno dá mostras de suas predileções, escrevendo os primeiros versos aos sete anos de idade.

Tendo o pai falecido ainda bem novo, passou a juventude em Durban, por conta do casamento de sua mãe com o cônsul de Portugal na África do Sul. O contato com a língua inglesa foi marcante em sua formação, refletindo-se também em sua carreira literária. Muitos de seus versos foram feitos em inglês, além de posteriormente trabalhar traduzindo correspondência comercial e obras literárias, como as de Edgar Allan Poe.

Apesar do inglês ter sido matéria para seus versos, a língua portuguesa foi de fato o seu ofício. Transmitiu a língua-mãe com apuro e riqueza naturais.

“Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.”
(De Quadras ao Gosto Popular por Fernando Pessoa)

A heteronímia criada por ele (ou as múltiplas fugas criativas) é inovadora na produção poética do início do século XX. Diferentemente dos pseudônimos, os heteronômios de Fernando Pessoa possuem, além de nome, uma identidade própria. Têm na verdade uma biografia completa: nome, data de nascimento e falecimento, profissão, formação acadêmica, personalidade e preferência temática… um personagem escritor, produzido pelo próprio.

Dos mais famosos temos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares. Além dos pseudônimos e heteronômios, há o ortônimo, ou seja, Fernando Pessoa por ele mesmo. Contabiliza-se (entre pseudônimos, heteronônimos, semi-heteronônimos e ortônimo), cerca de 72 nomes por ele criados.

Fernado Pessoa também foi participante ativo da Revista Orpheu, revista que inaugurou o Modernismo em Portugal. Se identificar com a obra de Pessoa é fácil: basta que seus poemas flutuem por nosso inconsciente. Escritor das surpresas; homem místico e ontológico: mostra em seus versos o ser em si mesmo, em sua dimensão ampla e fundamental. Costura as personalidades com maestria, vagueando entre o passado e o presente.

“Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo, todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.”
(Ricardo Reis)

E os versos de Pessoa falam por si mesmos. Espero que tenham gostado de mais uma edição de Literatura, e aproveitado para relembrar e reverenciar as jóias de nossa língua!

Com o desejo de boas leituras, e de um ótimo fim de semana!
Nas palavras do próprio poeta: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

Plá da Semana

Porta Literal - Site

Nesta semana trazemos como dica Portal Literal, onde podemos encontrar muitas coisas interessantes, além de ficar por dentro da boa literatura brasileira. Com apoio do Ministério da Cultura, o site traz novidades literárias em texto, imagem e som, além de contar com a colaboração de grandes escritores docomo Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles e Luis Fernando Veríssimo. Destaque para a Oficina Literária on-line.

Um grande abraço,
Carla Guedes

Afinal, o que é Literatura?

Literatura

Poetry Reading - Irene SheriCaros leitores do Makaeh Cult, muito prazer! Ótimo estar aqui trazendo a vocês a coluna de Literatura. Grande responsabilidade, pois pra quem já vinha acompanhando o trabalho da colega Nathália Borges, sabe bem do alto nível da conversa que vínhamos tendo nesta seção. Venho então com este desafio de continuar o projeto idealizado e tão importante que é o espaço literário aqui no site.

Afinal, para início de conversa, alguém se lembra da definição da palavra Literatura? Corramos então ao dicionário para relembrá-la…

Literatura: s.f. [do latim litteratura, a partir da palavra littera, "letra"]: 1. A arte de compor ou escrever trabalhos artísticos em prosa e verso. (Fonte: Aurélio)

Definir este conceito talvez seja resolvido pensando-se na classificação dos textos em literário e não-literário. Recordamos então que a notícia no jornal ou a bula do remédio não são literaturas propriamente ditas. Precisamos de um “quê” a mais nos textos verbais. Enumero alguns: eloqüência, princípios teóricos, linguagem verbal, assunto…

Mas apenas isso não basta. Os dois quesitos mais importantes e marcantes presentes numa boa literatura são a estética e a subjetividade.

Literatura é a arte da palavra. Está carregada da alma de quem o fez, do enfoque que se quis dar, do período em que se retrata e do que é retratado, das conjunturas estéticas, dos padrões de escrita (ou a negação deles)… Literatura é a arte de tocar com verbos, subjetivos, adjetivos e rimas. Idéias em forma gráfica e palpável de letras. E é isso que abordaremos neste espaço durante as próximas semanas…

“De que serve o homem de letras para realizar seu gênio inventivo? Não é, por natureza, nem do movimento como o dançarino, nem da linha como o escultor ou o arquiteto, nem do som como o músico, nem da cor como o pintor. E sim - da palavra. A palavra é, pois, o elemento material intrínseco do homem de letras para realizar sua natureza e alcançar seu objetivo artístico.”
(Alceu Amoroso Lima, em A Estética Literária e o Crítico)

E nós, leitores de mundo, somos degustadores de todo esse banquete de prosa e poesia: sejam nos nossos bons e velhos amigos livros, na nossa vertiginosa e mutante Internet, ou talvez, nas telas de nossos mp4’s… obras literárias figuram por toda parte!

Paramos por aqui na nossa edição introdutória, propondo algumas reflexões e inquietações a vocês. Por ora, fica o convite de se pensar sobre o que é literatura, qual sua importância (individual e conjunturalmente falando) e qual nosso papel como leitores (depósitos de conceitos ou agentes críticos?).

Leitura crítica, leitura contemplativa, leitura estudiosa ou leitura pelo simples gosto de ler: não importa o olhar que escolhamos, ler é sempre um bom convite à viagem (seja ela ao mundo interior ou a mundos imaginários). Porque ler, é ser cult. Mas cult mesmo é ampliar nossa visão de mundo.

Plá da Semana

Livro - A Sombra do VentoA Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón
400 páginas - Editora Suma de Letras

Livro mais que aprovado, A Sombra do Vento é um sucesso que prende do início ao fim, sem ser clichê. Numa narrativa em compasso frenético, traça a história do menino Daniel Sempere na Barcelona de Franco Salazar do século XX. Entre casarões abandonados e a Biblioteca Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel busca o autor misterioso de um raro livro (que dá nome à obra). Afinal, quem é Julian Carax?

“Além de ser uma grande homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias.” Recomendadíssimo!

Um grande abraço, e boas leituras!
Carla Guedes

Literatura II

Literatura

Olá caros leitores! Teremos, a partir de hoje, encontros quinzenais na coluna Literatura. Retomando um projeto importante, neste espaço falaremos sobre tudo relacionado ao assunto. O enfoque é vasto, e quem gosta de boa leitura não perde por esperar! Traremos entrevistas com literatos de nossa região, discussão e resenhas sobre obras e movimentos literários importantes, além de novidades e eventos ligados aos livros e às palavras. Teremos também o “Plá da Semana”, trazendo dicas de leituras interessantes e links para conhecer mais sobre os assuntos abordados.

Na era das informações, é tão comum recebermos cargas e cargas de textos, ícones, imagens, gráficos… palavras e palavras: não mais que isso. O que fazer com essa carga mal digerida que recebemos?

Vamos deglutir com cuidado as palavras, sorvê-las de um modo interessante. Onde ficou o nosso senso crítico e a capacidade de transformar informações em reflexões de mundo? Porque não, degustá-las? Neste banquete literal, voltaremos ao tempo onde a leitura inspira paixão, onde ela revolve os sentimentos, e onde é capaz de mudar o nosso olhar.

Quem sabe, também, até conquistar bons leitores e descobrir escritores preciosos? Dentro de nós há muitas potencialidades. Leiamos, e pensemos! Espero que gostem do nosso espaço!

Um grande abraço,
Carla Guedes

Perdas & Ganhos

Literatura

Livro - Perdas e GanhosDepois de uma breve pausa em minhas matérias, eu volto. Dessa vez com a missão de falar do livro mais elogiado da Lya Luft: Perdas e Ganhos. Um livro de auto-ajuda? Pode ser. Depende do ângulo que você observa.

Nele encontramos um mix de vários sentimentos demonstrados por Lya, sempre de uma forma requintada, com a profundidade de observação e uma sensibilidade incrível, que explica a capacidade da autora de investigar bem a fundo os mistérios mais profundos do ser humano - solidão, morte, amor, vício, assombramento e desencontro - nos conflitos que tecem a trama das vidas de todos nós.

Em Perdas & Ganhos, Lya Luft fala sobre o amor, o prazer e a dor da perda, em textos curtos, a meio caminho entre as memórias e o ensaio, cedendo a sugestão poética de ter um quase diálogo com o leitor.

A cada página, encontramos uma nova maneira de olhar a nossa volta e uma inspiração para refletir sobre nossas próprias histórias, fazendo com que nos identifiquemos com muitos fatos ali narrados. Na contramão da banalização, Lya baseia sua relação com o leitor numa convocação à descoberta da beleza e das questões existenciais mais essenciais nos acontecimentos comuns da vida.

O livro tem o poder de tocar nossos sentimentos mais profundos e fazer despertar idéias, quase teses sobre os temas. Uma prova de o livro ser tão tocante foi o seu estouro de vendas, quando lançado, no ano de 2003. Foram mais de 700 mil exemplares vendidos no Brasil, permanecendo no topo da lista dos mais vendidos por mais de 54 semanas, e uma dezena de traduções para idiomas estrangeiros.

Ao meu ver, a Sra. Luft desabafou nesse livro. São detalhes, opiniões de quem já viveu, pelo visto viveu como pode e atualmente senta no topo de sua vida e vê que aprendeu com tudo o que aconteceu, cresceu com todo o ocorrido. E é tudo natural, viver é natural. Complicam-se muito as coisas. Por se tratar de crônicas que contém partes, e boas partes, de realidade o livro ganha uma certa densidade. Ele é bem escrito e seu ritmo varia de acordo com a natureza do que vai sendo dito. Às vezes notamos um tom claro de grito angustiado, outras uma leveza digna da serenidade.

O que mais me interessa em tudo isso é que Lya não busca um leitor, ela não utiliza artifícios pra que ele se mantenha fixado na leitura; isso ocorre naturalmente. É agradável ler sua obra. O segredo está em não ler procurando respostas, procurando algo; mas em ler de forma despretensiosa, que você acha respostas maravilhosas sem querer.

Eu nunca havia lido nenhuma de suas obras, nada mesmo, nem sequer uma frase. Mas há uns 5 anos atrás, na Biblioteca do Colégio São José (colégio no qual cursei o primeiro ano do Ensino Médio, localizado em Pelotas/RS), freqüentada por mim semanalmente, eu procurei por um livro especial e não o encontrei.

Resolvi que naquela semana não iria ler nada, já que eu estava com o meu tempo tão dividido entre os estudos incessantes de química e meus ensaios para o espetáculo de dança que se aproximava. Porém quando estava saindo, a bibliotecária me chamou atenção para o lançamento carregado de tantas críticas positivas; eu resolvi levar, mas não dei muita importância.

Sem querer eu achei a resposta da qual estava precisando pra minha vida naquelas circunstâncias pessoais: nós somos pessoas únicas, que devemos crescer concomitantemente sozinhas e juntas, sempre da melhor maneira possível; a individualidade é algo fundamental, mas nós podemos ganhar muito com outras pessoas. Para me despedir, deixo um pequeno trecho do livro:

Clique aqui para ler o trecho do livro!

Bons ganhos à todos nesse feriado e se houverem perdas, que elas venham acompanhas de maturidade! Uma ótima páscoa!
Nathália Borges

Para Morrer de Rir!

Literatura

Assassinatos na Academia Brasileira de LetrasA matéria de hoje é sobre um simpático apresentador e excelente escritor! Quando parei para pensar sobre o que escreveria essa semana, me vieram à cabeça diversos escritores e vários livros excelentes. Busquei lançamentos, best-sellers internacionais.

Mas não resisti quando li um trecho do livro abordado hoje, elaborado por uma pessoa pública, a qual temos um encontro diário em um programa cheio de variedades e UTILIDADES, no qual os temas são tratados de forma muito inteligente e extremamente engraçados.

O terceiro romance de Jô Soares se passa no Rio de 1924 e põe um serial killer no encalço dos seletos membros da Academia Brasileira de Letras.
Assassinatos na Academia Brasileira de Letras conta um caso de mortes que provoca risos. Detalhe: os imortais são as vítimas.

O terceiro livro de Jô em dez anos contém a mesma fórmula dos anteriores, O Xangô de Baker Street (1995) e O Homem Que Matou Getúlio Vargas (1998): pesquisa histórica, entrecho policial e boas piadas que mexem com os fatos sem tirá-los do lugar. Algo um tanto matemático que altera os fatores sem modificar o produto.

Os dois romances foram traduzidos para uma dezena de línguas; o primeiro foi lançado em 12 países e o segundo em sete. Juntos, venderam 1,3 milhão de exemplares no mundo (no Brasil, Xangô vendeu 620 mil e Getúlio 410 mil).

O livro chegou às livrarias com tiragem de 100 mil exemplares. Prometendo igual sucesso, mesmo porque, segundo Jô, fluiu com mais naturalidade que os outros. Foi escrito em cinco meses, a partir de agosto de 2004, enquanto o primeiro levou oito meses e o segundo dois anos.

Jô SoaresJô, apesar de morar em São Paulo, sempre se declarou apaixonado pelo Rio de Janeiro antigo e inclusive morou, ainda criança, com seus pais no hotel Copacabana Palace, fundado em 1923 e um dos cenários do livro. A convivência no hotel teve como resultado uma narrativa ainda mais viva e enxuta que a dos outros volumes, devido aos recursos da memória.

Segue então, um trecho do livro, que além de tudo nos ajuda a entender de maneira cômica fatos na nossa história:

“Segunda-feira, 7 de abril de 1924

PULVIS EST ET IN PULVEREM REVERTERIS

Uma chuva de gotas grossas caía sobre a cidade do Rio de Janeiro naquela tarde de céu encoberto, e relâmpagos festejavam a tempestade. Contrariando a crença de que aguaceiros aliviam o calor, os termômetros acusavam uma temperatura de trinta e nove graus. O clima não impediu que os partícipes se apresentassem a rigor para as últimas despedidas ao senador da República e emérito escritor Belizário Bezerra, no cemitério São João Batista. Havia mais gente ainda que no dia da posse. Sérgio Loreto viera de Pernambuco, e até a autoridade maior do país, o presidente Arthur Bernardes, estava lá, de cartola e sobrecasaca, prestigiando o amigo morto, apesar das preocupações com o estado de sítio, que vigorava desde o governo anterior.

Turistas ocasionais também se amontoavam em volta do túmulo, dando mostras da curiosidade mórbida que se manifesta em catástrofes e nos enterros de pessoas ilustres.

Imortais mais ansiosos já cabalavam, entre si, votos para futuros candidatos. Causava estranheza vê-los de fardão e guarda-chuva.

Outros grupelhos contavam anedotas e riam disfarçadamente. Mulheres envoltas em renda negra trocavam idéias, em voz baixa, sobre os últimos lançamentos da moda em Paris e falavam do exótico Cuir de Russie, novo perfume de Coco Chanel.

Deputados e senadores, conhecedores das tensões do momento político, dirigiam olhares para o presidente, conjecturando sobre possíveis rebeliões tenentistas, inspiradas pelos Dezoito do Forte. Enfim, como em qualquer funeral, o único silencioso era o morto.

Todos pretendiam despachar o defunto com um necrológio pujante, porém o criminalista Aloysio Varejeira foi o mais pressuroso. Quando ele puxou do bolso o panegírico, um enorme círculo abriu-se à sua volta. O inescrupuloso advogado era temido pelo seu mau hálito.

Os maledicentes imputavam-lhe o sucesso nos tribunais ao bafejo cáustico, cultivado por anos de vinho avinagrado e queijo-do-reino, que ele expelia, ameaçador, em direção aos jurados. Pura aleivosia: o talento de Varejeira era tão perigoso quanto seu bafo venéfico.”

“Só senti coragem de escrever romances quando descobri qual era meu aspecto mais forte. Obviamente, o humor. Escrevo brincando.” - Jô Soares

Um ótimo fim de semana!
Nathália Borges

O livro de não-ficção mais vendido do mundo

Literatura

O Segredo - Rhonda ByrneHoje iremos falar sobre o livro mais “publicidade e propaganda” dos últimos tempos: O Segredo (The Secret) de Rhonda Byrne. Afinal, não poderíamos ficar fora da moda né?!

Vou confessar a vocês que não costumo me interessar muito por coisas banalizadas, mas o livro traz uma mensagem tão bacana que é inevitável não se interessar. E aliás, o principal objetivo é que banalize mesmo!

Eu já havia assistido ao filme e lido o e-mail; até que meus avós apareceram aqui em casa com um exemplar. Na primeira página, já dá para entender do que se trata; O segredo nada mais é do que a “lei de atração”, o poder que o pensamento tem de influenciar na nossa vida. Mas é importante que se leia até o final, pois só assim conseguimos fixar bem a mensagem, a ponto de praticá-la no nosso dia-a-dia.

A autora descobriu que a maioria das pessoas que têm ou tiveram sucesso, conheciam um Grande Segredo e dá exemplos que vão desde Einstein a Galileu Galilei. A partir dessa descoberta, ela foi procurar pessoas que atualmente conhecem o Segredo e vivem de acordo com ele. Falou com elas, entrevistou-as, e através do testemunho delas, vai explicando no livro a “lei da atração”.

Nós atraímos aquilo que queremos atrair e, se queremos atrair o sucesso, conseguimos atrair o sucesso. Com ele, o leitor poderá entender seu poder oculto e inexplorado, trazendo alegria para cada aspecto da vida.

Curiosidades

O livro tornou-se mania americana e liderou por 15 semanas consecutivas a lista de Best-Sellers do The New York Times, ultrapassando a casa de seis milhões de exemplares vendidos nos EUA. Trata-se de auto-ajuda e tirou do anonimato a produtora de vídeos australiana Rhonda Byrne.

Embora fosse conhecida pela série ‘Os melhores comerciais do mundo’, ela atravessava aos 55 anos uma péssima fase de sua vida. Separada e com os filhos já adultos, sentia-se cansada com os seus relacionamentos amorosos e profissionais desmoronando seguidamente.

Caiu-lhe então nas mãos um livro sobre o segredo que há por trás da felicidade, sabedoria compartilhada por todos os vencedores da espécie humana. Por que não divulgar a boa nova por meio de um vídeo? Oito meses depois, o filme fazia sucesso nas locadoras.

Na seqüência, aconselhada por amigos, Rhonda transformou o vídeo em livro. Acertou em cheio nos EUA, e continua acertando no mundo. No Brasil, por exemplo, a primeira tiragem de 100 mil exemplares está toda vendida através de encomendas. Propagandas não faltam, é só andar na rua que a gente vê um cartaz pendurado!

Com certeza vale a leitura! Até semana que vem!
Nathália Borges