Agora Fabiano era vaqueiro e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado… - trecho de Vidas Secas
Sol escaldante. É num dia tórrido que caminham Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, menino mais moço e Baleia (a cachorra). Entre eles e Baleia, pouca ou nenhuma diferença. A mesma fome, o mesmo destino: são retirantes. Vidas Secas, romance que este ano completa 70 anos de publicação, é um desses marcos na memória. Sua leitura nos deixa vincos, como os rostos vincados de sua estória.
Devemos a Graciliano Ramos (1892-1953) os grandes clássicos da literatura brasileira: São Bernardo, Angústia, Memórias do Cárcere, e, nosso objeto de reflexão de hoje, o romance Vidas Secas. Nascido no sertão alagoano, ele teve a sua vida pautada por acontecimentos políticos. Foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL) e militante do Partido Comunista, tendo sido preso. Iniciou sua carreira literária somente à meia idade: Caetés, seu romance de estréia foi publicado apenas em 1933.
Graciliano sempre foi considerado um homem de caráter duro, de poucas palavras; como um “mandacaru escrevendo“, disse Oswald de Andrade. Mas certamente, como define Otto Maria Carpeaux, “a alma deste romancista seco, não é seca“, visto que em sua obra há implícita a crítica social à pobreza do sertão nordestino. Mostra um Brasil excluído dentro do próprio Brasil: a segregação regional. Ponto alto da Literatura Regionalista.
Visceral. Assim pode ser definido o personagem Fabiano, homem tão ligado às coisas da terra que às vezes se confunde a ela. “Fabiano, você é um homem“; “Você é um bicho, Fabiano“. Construído a partir de monólogos psíquicos e não lineares, a obra se desengasta no desenrolar de uma fuga. A fuga do sertão castigado pela miséria, pela falta de trabalho, pela falta de dignidade.
Fabiano sonha um dia com “os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias“. Sinhá Vitória sonha com “uma cama real, de couro e sucupira, igual à de seu Tomás da bolandeira.” Sem nódulos no estrado. E assim seguem, rumo ao sul, em trapos, fome e sol castigante.
Em suas obras, Graciliano sempre fora muito meticuloso, eliminando os excessos, frases feitas e tendenciosas; o lugar-comum. Daí se explicam suas poucas palavras, que apesar de escassas, têm um caráter marcante e reverberativo. Em suas próprias:
“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer (…) A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”
Quando eu leio ou estudo Vidas Secas, torna-se impossível não fazer um paralelo de temas e condições sociais com o romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, grande escritora a quem Graciliano muito admirava. Sem dúvida, os universos abordados são quase sobrepostos.
O mesmo sofrimento, mesma resistência. Diferem, sem dúvida, na estilística. Em O Quinze há a presença do tempo cronológico, e da narrativa lirista. No mais, nos dois grandes romances há a fatalidade, há a condição subumana.
Uma personagem muito querida é a cachorra Baleia, e aqui uma contradição. Pretende-se supor que há certa humanização do personagem. Entretanto, vendo um pouco mais a fundo, percebe-se que há uma inversão: em meio à animalização da condição humana, o animal se torna até mais antropo-morfizado.
Setenta anos de Vidas Secas, e o romance continua tão vivo com suas vidas moribundas… É a ferida que permanece aberta das secas vidas que lutam diariamente contra a secura da morte. É um livro de um marcante lirismo amusical, estático, negativista, mas de uma beleza e emoção grandiosas.
E o mestre nos deixa a lição: talvez, nas poucas palavras é que conseguimos a síntese da tragédia humana, do mistério dos que se sentem sozinhos em meio à caminhada da busca de dignidade.
Setenta anos muito bem vividos de uma grande obra.
Plá da Semana
O Verão do Chibo, de Emilio Fraia e Vanessa Bárbara
120 páginas - Ed. Alfaguara
Quatro mãos: desta destra associação de dois jovens escritores nasceu uma obra inconfundível. O Verão do Chibo é um verão em meio à um milharal, um verão em meio à uma guerra de traidores e traídos: infância versus o amadurecimento. Em um mergulho profundo, revela-se o promissor horizonte desta nova safra de escritores brasileiros. Recomendo!
Um grande abraço!
Carla Guedes


Ridley Scott (Gladiador) volta às telonas em mais um thriller policial. No ano passado ele foi o responsável pelo confronto nas telonas entre Denzel Washington (Dia de Treinamento) e com o ator Russell Crowe (Uma Mente Brilhante) em O Gângster.
Quem disse que o terror adolescente não se renova a cada ano? Desde que Pânico resgatou esse gênero, diversos serial-killers já deram as caras nas telonas do cinema.
A divulgação deste filme já fala por si próprio. Ele se definiu como um pouco de Karatê Kid, uma pitada de Clube da Luta e muito do seriado The O.C.



Com a evolução dos efeitos especiais, uma guerra improvável se gerou nas telonas: a dos HQs x Games. Ela começou quando Super Mario Bros. chegou aos cinemas em 1993, numa adaptação que decepcionou os fãs do encanador mais famoso dos games.
Esse filme vem fazendo um tremendo sucesso nos cinemas e promete uma longa vida quando chegar às locadoras, ao lado de filmes como O Casamento do Meu Melhor Amigo e O Melhor Amigo da Noiva.
Após a ressurreição do gênero de faroeste no ano passado quando 4 produções chegaram à premiação do Oscar, algumas produtoras começaram a investir em produções de baixo orçamento que acabaram fazendo um tremendo sucesso nas locadoras.
Uma das mais duradouras franquias do mundo do cinema chega à sua 22ª adaptação para as telonas. Trata-se do agente com licença para matar, o lendário
Depois do premiado Tropa de Elite ser injustiçado no ano passado ao perder a vaga na indicação de melhor filme estrangeiro no Oscar para O Ano Em Que Meus Saíram de Férias, onde o filme não conseguiu ficar nem entre os cinco indicados.
Após apresentar ao mundo o seu modo diferente de fazer filmes de suspense em O Sexto Sentido, o diretor M. Night Shyamalan experimentou altos e baixos na sua carreira, passando por sucessos como Sinais e decepções como a fábula A Dama Na Água.














