“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.”
(De Poemas Inconjuntos por Alberto Caeiro)
E “entre uma e outra cousa”, Fernando Pessoa nos deixou mais do que um intervalo: uma vida dedicada ao extremo criativo; uma obra inconfundível.
De 13 de junho de 1888 à 30 de novembro de 1935, contamos com a passagem marcante do ilustre poeta. Não é à toa que hoje, para celebrar 120 anos de seu nascimento, a coluna Literatura faz esta pequena releitura de vida e obra. Homenagem merecida ao homem dos tantos “eus”. Afinal, redescobrimos a cada pensamento o nosso eu verdadeiro: sucessão infinita de metamorfoses diárias…
Nosso homenageado nasceu em Lisboa, numa tarde preguiçosa e tranquila. O Grande Poeta foi batizado como Fernando António Nogueira Pessoa, em homenagem ao santo de seu dia. Desde pequeno dá mostras de suas predileções, escrevendo os primeiros versos aos sete anos de idade.
Tendo o pai falecido ainda bem novo, passou a juventude em Durban, por conta do casamento de sua mãe com o cônsul de Portugal na África do Sul. O contato com a língua inglesa foi marcante em sua formação, refletindo-se também em sua carreira literária. Muitos de seus versos foram feitos em inglês, além de posteriormente trabalhar traduzindo correspondência comercial e obras literárias, como as de Edgar Allan Poe.
Apesar do inglês ter sido matéria para seus versos, a língua portuguesa foi de fato o seu ofício. Transmitiu a língua-mãe com apuro e riqueza naturais.
“Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.”
(De Quadras ao Gosto Popular por Fernando Pessoa)
A heteronímia criada por ele (ou as múltiplas fugas criativas) é inovadora na produção poética do início do século XX. Diferentemente dos pseudônimos, os heteronômios de Fernando Pessoa possuem, além de nome, uma identidade própria. Têm na verdade uma biografia completa: nome, data de nascimento e falecimento, profissão, formação acadêmica, personalidade e preferência temática… um personagem escritor, produzido pelo próprio.
Dos mais famosos temos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares. Além dos pseudônimos e heteronômios, há o ortônimo, ou seja, Fernando Pessoa por ele mesmo. Contabiliza-se (entre pseudônimos, heteronônimos, semi-heteronônimos e ortônimo), cerca de 72 nomes por ele criados.
Fernado Pessoa também foi participante ativo da Revista Orpheu, revista que inaugurou o Modernismo em Portugal. Se identificar com a obra de Pessoa é fácil: basta que seus poemas flutuem por nosso inconsciente. Escritor das surpresas; homem místico e ontológico: mostra em seus versos o ser em si mesmo, em sua dimensão ampla e fundamental. Costura as personalidades com maestria, vagueando entre o passado e o presente.
“Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo, todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.”
(Ricardo Reis)
E os versos de Pessoa falam por si mesmos. Espero que tenham gostado de mais uma edição de Literatura, e aproveitado para relembrar e reverenciar as jóias de nossa língua!
Com o desejo de boas leituras, e de um ótimo fim de semana!
Nas palavras do próprio poeta: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”
Plá da Semana
Nesta semana trazemos como dica Portal Literal, onde podemos encontrar muitas coisas interessantes, além de ficar por dentro da boa literatura brasileira. Com apoio do Ministério da Cultura, o site traz novidades literárias em texto, imagem e som, além de contar com a colaboração de grandes escritores docomo Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles e Luis Fernando Veríssimo. Destaque para a Oficina Literária on-line.
Um grande abraço,
Carla Guedes


















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