“Assim são as páginas da vida,
(…) e acrescentava que as páginas vão
passando umas sobre as outras,
esquecidas, apenas lidas.”
(excerto do conto Suje-se Gordo!, de Machado de Assis)
Falar de Machado de Assis, a quem as páginas nunca passaram esquecidas, é tarefa que beira o prazer. Nele, o prazer de ler torna-se espontâneo, pois Machado, além de esmerado conhecedor da língua portuguesa, era um cômico observador.
Este é o seu ano por excelência. 2008 é decretado o Ano Nacional Machado de Assis. Por um lado, ótimo: choveram publicações sobre a obra do mestre, e muitos ficaram com vontade de reler com mais carinho aquelas obras que só leram à mando de algum professor caxias. Por outro, sabemos de antemão: após a sagração de Machado, todos os anos foram seus.
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) teve origem bem humilde. Filho de operário, e tendo perdido a mãe muito cedo, trabalhou e estudou como pôde, nunca em cursos regulares. Aos 16 anos publica na Marmota Fluminense um primeiro poema. No ano seguinte entrou para a Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo.
Foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, sendo suas obras espelhos dos gêneros literários de seu tempo. Se seu início teve características marcadamente Românticas (influenciado por José de Alencar, escritor de Iracema), sua maior contribuição está na inovação que propõe ao Realismo, sendo grande representante e referencial.
Renomadamente foi o fundador da 23ª cadeira da ABL (Academia Brasileira de Letras), e um dos que criaram a Casa, aos moldes da Academia Francesa de Letras. Por mais de dez anos esteve à frente de sua presidência.
Machado de Assis, como enfatiza Josué Montello, não era um homem improvisado. Ele tinha a consciência de que, pra chegar ao ponto em que chegou, era preciso ter o gosto da aprendizagem. Por isso, estudou a língua portuguesa a partir da leitura dos mestres da literatura. Não nos bancos da escola, mas em consultas freqüentes ao Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro.
Por falar em Rio de Janeiro, o Bruxo do Cosme Velho (como também é chamado devido à Rua Cosme Velho, nº 18, onde passou a maior parte de sua vida), retratou o Rio de seu tempo nas observações mais argutas e sutis. Quando vou à Rua do Ouvidor ou excursiono pelas ruas o Centro do Rio, tenho a suspensa sensação de ser uma de suas personagens, ansiando topar com qualquer carro de aluguel, bengala, monóculo, ou o próprio Machado atrás de seu pince-nez. Tal é a profundidade de sua obra em meu imaginário e tal a veracidade com que descreveu e imortalizou seu tempo.
Aviso aos que torcem o nariz ao intentar ler um livro que leva um título de “Clássico da Literatura”: Machado de Assis não dá motivo nenhum para se torcerem narizes. Ele sabe cativar o leitor e suas linhas, capítulos inteiros, que estão cheios de comicidade; a risada inteligente de quem mantém o frescor de sempre. Galhofeiro, possui a constante estratégia de conversar com o “amigo leitor” durante a narrativa nos momentos cruciais, ou somente pra descontrair. Machado dá o que pensar.
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1899), Contos Fluminenses (1870), Memorial de Aires (1908) e Papéis Avulsos (1882) são alguns dos títulos do nosso orgulho Machado, que tem seu nome figurado junto aos maiores da literatura mundial.
Aproveitando o ensejo do ano comemorativo, que nós possamos redescobrir a rica produção literária de nosso país, e, principalmente, que conheçamos as deliciosas venturas que nos aguardam a obra do eterno Machado.
Plá da Semana
Muitos foram os livros e sites comemorativos à Machado lançados este ano. Mas o site www.machadodeassis.org.br em especial, além de ser da ABL, tem uma interatividade e acervo consideráveis do autor, além de aliar a beleza das coisas antigas à praticidade do moderno. Dê uma clicada lá, que vale à pena (literalmente)!
Um grande abraço,
Carla Guedes


















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