
“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?”
…
E agora, você? Mais um ano se vai, e mais uma FLIP também. Não que eu queira remoer fato passado, mas o trecho de Drummond acima me remonta indubitavelmente à festa da semana passada, como uma alegoria a me soprar pela sexta vez aos ouvidos: perdeu mais uma. E agora? O gosto da ressaca literária ainda nos olhos. A festa literária do ano… Fiquei daqui, apenas acompanhando os fatos.
Balanço de ganhos e perdas: o que o Brasil ganha realmente com a FLIP? O que a literatura ganha de novo?
A denominação Festa Literária Internacional de Paraty evoca celebração. Festa Literária então, é um sonho que cultiva do bibliófilo ao indivíduo que curte timidamente boa cultura. Na programação: papos literários, mostra de cinema, esquetes… e música. Nesse ano desfilaram presenças expoentes como o cantor Luiz Melodia e Carlos Lyra, autor eternizado da canção “Minha Namorada” (deu pra perceber as diversas formas celebradas, que não a grafada, da nossa amiga literatura).
No decretado Ano Nacional de Machado de Assis, os 22 literatos brasileiros e 18 estrangeiros convidados fizeram sua devida homenagem. Mas não quero falar de Machado por agora (o Bruxo do Cosme Velho merece um artigo só dele, que ele é paixão antiga minha). Quero falar exatamente da falta de universalidade ao acesso, contrária ao que se idealiza. Dessa restrição de classes. “Não me convidaram…”, enfatizaria o poema musical de Cazuza.
Isso porque ir à FLIP virou simplesmente a moda da temporada, e em Paraty, as temporadas não aliviam o bolso. Acampar é a solução se não puder se hospedar pelas bagatelas que cobram. Sem contar a não-gratuidade das oficinas ou dos ingressos pras palestras, ou dos concursos literários com taxas de inscrição salgadas da Off FLIP. E muita gente que queria celebrar a literatura ficou literalmente off.
No balancete final da festa, expectativa. Ponto pra literatura no Brasil? Justamente no pronunciamento oficial do diretor da programação me caiu a ficha da ousadia cultivada: “A FLIP é a melhor porta de entrada de um autor no Brasil“. Que funil, penso cá comigo. Mas ele prossegue, sendo mais enfático (o que me deixa mais apreensiva): “A FLIP é cada vez mais uma chancela fundamental que orienta o que vale e o que não vale a pena ler“.
Mortificação.
Fato consumado. A FLIP sem mais nem menos se transformou num selo elitizador da literatura. E arranha-me por dentro repensar a frase sobre o “que vale e o que não vale a pena” ser lido.
Lemos, logo pensamos! À medida que apreendemos uma visão de mundo construímos um parâmetro natural do “que vale e o que não vale a pena” (se é que existe mesmo isso). É claro que com uns anos calejados de bom olhar crítico, saberemos separar o joio do trigo, o “livro comercial” da “obra literária”. Mas pra isso é preciso treino, vivência própria, olhar propício. É preciso ler! Será que é mesmo necessária uma festa de poucos pra nos ditar parâmetros literários? “Tudo vale à pena (…)”, recorda o meu poeta.
Achei que o sonho ideal da festa da literatura (veja só que utopia!) fosse celebrar, na coletividade de boas mentes leitoras, temas eletrizantes, oficinas criativas, propostas inovadoras, educação em primeiro plano, e incentivo à leitura.
Mas ainda não foi dessa vez…
E o que perdi, perdendo mais essa? Perdi os casarões históricos de Paraty, e um rosário incontável de grandes nomes. A declamação poética de Elisa Lucinda, a lucidez de Ana Maria Machado, a musicalidade natural de José Wisnik, a vivacidade e luta de Pepetela, a juventude criativa de Vanessa Bárbara, a sacada de Neil Gaiman, a propriedade de Rouanet…
Perdi a poesia de um fim de tarde, com um livro no regaço, a beira de uma enseada ensolarada nos mares de Paraty… Mas ano que vem, tem mais!
Plá da Semana
Melhores Poemas (1965-1999), de Affonso Romano de Sant’anna 156 páginas - Ed. Global
Incansável, Affonso Romano faz de sua poesia seu manifesto habitual, divagando entre as questões políticas de sua época (a ditadura que sentiu na pele), a onírica estética e o intelectualismo clássico. Pra quem gosta de se deliciar em abstrações, sem tirar os pés da concretude em que estamos mergulhados.
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Boa semana e boas reflexões literárias!
Carla Guedes