“A pena está para o pensamento assim como a bengala está para o andar.” - Arthur Schopenhauer
Já havia me prometido que não adquiriria mais livros enquanto não lesse a maioria dos que eu tenho (a mancheias). Entretanto, fazer-me esta promessa, não significa deixar de dar uma “olhadinha” em uns livros por aí… E foi em uma recente olhadela dessas que a obra A Arte de Escrever, do filósofo Arthur Schopen-hauer (1788-1860), veio parar em minhas mãos.
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Bastou ler a sinopse de contracapa, para devorá-lo:
Embora redigidos na primeira metade do séc. XIX, estes ensaios, ao tratar sobre o mundo das letras, os vícios do pensamento humano, as armadilhas da escrita e da crítica, continuam válidos – hoje talvez mais do que nunca.
Interesse à primeira linha, este livreto de cento e poucas páginas furou a gigantesca fila de espera de obras encarecidas de leitura. Afinal, por que o interesse? – irás me perguntar. Ora, ora! Em tempos de best-sellers, é bom ouvir o que esta aclamada (e controvertida) voz do passado tem a dizer sobre o ofício, ou o melhor, sobre a arte de literar.
Admirador de Goethe; crítico ferrenho de Schelling e Hegel; influenciador de Nietzche, Thomas Mann e Liev Tolstói; Schopenhauer distribui críticas e mais críticas ao longo do livro. Porém, no meio de tantas alfinetadas, é possível recolher preciosas tiradas, se deixarmos de lado seu puritanismo lingüista e as desavenças pessoais de seu tempo.
Importante questão abordada em relação ao hábito da leitura é o que ele chama de “a arte de não ler“. É isto mesmo o que você leu! Não ler. E este estranho conceito traz duas implicações lúcidas. Uma é a atitude crítica do que não escolher para ler, principalmente as obras das abomináveis listas de mais vendidos. Outra é a cômica, mas verdadeira: “Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto!”
Na atitude de escolher o que não ler, é importante ter senso. Quem escreve para encher o papel engana o leitor, fingindo que escreve. Que por sua vez engana o autor, fingindo que lê. Chega a ser radical, aconselhando a se jogar fora tal livro, mas, não vamos contribuir para o sacrifício de mais árvores. Basta dizer seu ‘não’ deixando de contribuir à máquina capitalista.
Outra coisa: é melhor ler os verdadeiros autores. Nada de obra sobre a obra da obra… Vá direto à fonte! “É melhor comprar livros de segunda mão do que ler conteúdos de segunda mão.” Você tem plena capacidade, tanto quanto os outros autores, de assimilar a essência do texto integral.
Agora, sobre a leitura em demasia, seria muito bom comprar livros se fosse possível comprar junto o tempo para lê-los. Eu mesma caí nessa armadilha, e nunca tenho o tempo suficiente. Entretanto, a crítica vai mais fundo: quem lê muito, quase o dia todo e não pensa por si mesmo nos intervalos, com o tempo a capacidade de pensar por si mesmo só tende a diminuir! Você estará pensando (repetindo!) pensamentos de outros. É preciso a ruminação do conteúdo. Só assim chegamos ao aprendizado e à retenção do que é válido.
“Quem lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes (…)”
Mais uma vez, faço apologia ao discernimento entre literatura unicamente comercial e literatura de qualidade (aquelas que sobrevivem a despeito dos séculos: os famosos clássicos). É certo que toda e qualquer literatura é válida, desde que filtrada por sua retina crítica e pensante. É certo também que há literaturas consideradas comerciais que são ótimo lazer.
Mas, mesmo que você leia pouco (não sendo um desses exemplos bibliófilos acima citados), leia com consciência e qualidade. De resto, exercitando a boa leitura, você de olho vai saber escolhê-las (não só pela capa, ou por indicações editoriais). Numa era em que fórmulas prontas pra vender superam o amor às palavras, é bom de vez em quando rever os conceitos do que você traz nos escaninhos do pensamento. E na estante.
Grande abraço, e um Feliz Natal antecipado!
Carla Guedes


















Cacetada! Dois posts da Carla Guedes chamam na guelra mesmo. Esse e o Papel e Lápis. Ela e o Christian Gump que postou um comentário lá no blog Sem Religião, do Lordelo, parecem um pouco com a cancha do Haddammann.