Entrevista com Ferreira Gullar

Literatura

Este é um conteúdo extra e parte integrante da matéria Encontro sinGullar, da coluna de Literatura escrita por Carla Guedes. As perguntas da entrevista foram elaboradas por Kaleb Aurich.

O escritor, poeta, crítico de arte, colunista e teatrólogo Ferreira Gullar esteve em Macaé para uma noite com palestra, debates e… autógrafos. Ele abordou a sua experiência poética ao longo de toda carreira como também nas suas vivências políticas em fatos importantes do país, na literatura e no jornalismo. Gullar gentilmente concedeu esta entrevista por e-mail, nos presenteando com seus testemunhos e opiniões sobre alguns assuntos e contribuindo para um conteúdo especial em comemoração aos 2 anos do site. Veja abaixo:

1) Em quase 80 anos de história, o que mudou de forma mais radical na vida e no pensamento do senhor? Como pessoa e escritor.

- Minha vida, tanto pessoal quanto literária, tem mudado muito, desde sempre. Nunca planejei minha vida nem minha obra, que se vão fazendo a cada dia, o que não significa abrir mão da reflexão e da busca de coerência.

2) Quais os seus melhores amigos dentro do universo dos escritores? De qual(is) você indicaria livros, dando uma sugestão relacionada às suas obras?

Tenho muitos amigos, felizmente, tanto no campo literário como fora dele. Prefiro não enumerá-los, para não cometer omissões.

3) Pessoalmente, qual sua obra preferida, aquela que mais realizações trouxe à sua vida?

Não tenho uma obra minha que prefira, a não ser o último poema que ainda estou lambendo… Na opinião dos leitores e críticos, o livro preferido é Poema Sujo.

4) Qual sua opinião sobre as novas mídias, a convergência digital que leva a informação para a web. Elas são o futuro das ferramentas de informação e formação de opinião? O senhor é adepto de alguma dessas tecnologias?

As novas mídias constituem uma revolução no modo de comunicação entre as pessoas e na busca de informações. Uso o computador sobretudo para escrever e remeter meu trabalho a jornais e editoras. Não sou um internauta.

5) O que achou da Nova Ortografia do Língua Portuguesa? O senhor é a favor ou contra as mudanças que entraram em vigor este ano?

Acho que a nova reforma ortográfica é um equívoco. Não tem sentido mudar a forma de escrever a cada década. Esta reforma tem quase tantas exceções quanto normas.

6) Você já foi contemplado com várias premiações, dentre elas o Prêmio Machado de Assis e o Jabuti; é um escritor muito respeitado no meio. Porque recusou o convite de candidatar-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras?

Tenho muitos amigos na ABL e com frequência vou lá participar de algum evento. Se não aceito entrar a Academia é porque não tenho espírito acadêmico. Acho melhor deixar como está.

7) Qual o principal papel da palavra escrita e que importância ela pode ter na formação do cidadão como pessoa?

O papel da palavra escrita é fundamental. Mesmo que o livro eletrônico venha a ocupar o lugar do livro impresso em papel, isso não vai alterar a importância da leitura e da escrita na formação das pessoas. O ser humano é um ser cultural e, se perdermos essa noção, caminharíamos para o desastre… Não acontecerá.

8) O senhor foi um dos muitos artistas e intelectuais presos e exilados na época da ditadura. O que pôde aproveitar de positivo em meio a tudo isso? Quais são as lutas dessa nova geração?

Os anos de exílio me ensinaram muita coisa, tanto no plano da vida quanto no plano político e cultural, mas preferia ter aprendido essas coisas de maneira menos traumatizante.

9) Que mensagem o senhor poderia deixar para os jovens estudantes, que muitas vezes se veem decepcionados com o cenário atual do país, em vários aspectos, inclusive o político.

É natural que os jovens estejam desapontados com o que ocorre na política brasileira. Diria a eles, herdeiros do país, que lhes cabe mudá-lo e melhorá-lo. A vida é inventada e, se não a reinventamos, ela tende a degenerar.

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