Literatura e o Propósito Político

Literatura

“A opinião de que a arte não deveria ter a ver com política é em si mesma uma atitude política.” - George Orwell

Semana de decisão nas urnas, a coluna Literatura não poderia ficar de fora das discussões suscitadas, assim como nós vimos a intersecção do Meio Ambiente, da Tecnologia, da Música e do Cinema com a política (tudo o que fazemos e pensamos é, de certa forma, política, no amplo sentido do termo). A Literatura também tem um forte engajamento com as questões quotidianas, e as obras incessantemente interagem com o período político vivido no momento em que foram escritas.

Assim como os leitores são dos mais variados, os escritores também o são. Existem os escritores do devaneio, do mundo do intelectualismo e da fantasia; e existem os escritores da realidade, da dura e desencantada realidade. Há aqueles que escrevem para mudar o mundo; uns o seu próprio mundo, devastando as suas incertezas e desconhecimentos interiores; já outros, o mundo externo mais amplo, espalhando utopias e apregoando ideais de mudança.

O que dizer da relação Literatura/Política? Não estão ambas encharcadas de visionarismo e cercadas pela realidade? A politização da literatura geraria um empobrecimento da arte? Afinal, arte pela arte, ou arte pela humanidade?

George Orwell, célebre escritor de A Revolução dos Bichos exemplifica bem os impulsos da escrita, classificando-os em quatro:

 ”1. Puro egoísmo: O desejo de ser engenhoso, de ser comentado, de ser lembrado após a morte, de se desforrar de adultos que o desdenharam na infância e por aí afora. É uma falsidade fazer de conta que este não é um motivo forte [...].

2. Entusiasmo estético: A percepção da beleza no mundo externo ou, de outro lado, nas palavras e em seu arranjo correto. Prazer no impacto de um som sobre outro, na firmeza de uma boa prosa ou no ritmo de uma boa história [...].

3. Impulso histórico: O desejo de ver as coisas como elas são, de encontrar fatos verídicos e guardá-los para o uso da posteridade.

4. Propósito político: O desejo de lançar o mundo em determinada direção, de mudar as idéias das pessoas sobre o tipo de sociedade que deveriam se esforçar para alcançar.”

Creia: nenhum escrito está isento de contrair, um mínimo que seja, de um de cada desses impulsos. E o quarto motivo é o mais perceptível deles: ninguém está isento de tendências políticas, como nenhum livro é de todo neutro. O escritor, assim como a gente, não está imune à realidade que o cerca, principalmente em tempos de crise. Na contra-mão, principalmente nos tempos de crise é que se levanta a voz da arte, seja como protesto, reflexão ou fuga.

Assim como nem toda obra política é verdadeiramente boa, alguns autores que se enveredaram por ela, conscientes ou não, deixaram importantes legados. Como exemplos de engajamento político de suas épocas, poderemos citar alguns grandes: Castro Alves, que com sua poesia Abolicionista cantou a dor dos escravos e criticou a política escravocrata vigente; Affonso Romano de Sant’Anna que em plenos anos de ditadura publicou corajosos e belos poemas, como o Que País é esse?; Oswald de Andrade com seus ideais anarquistas, e sua inconfundível obra crivada de chavões Vermelhos.

No mesmo engajamento segue Ferreira Gullar, com sua poesia de liberdade e crítica à repressão de 64; e Chico Buarque, que em seus poemas-canção retratou figuras de essencial denúncia social: o camponês de Funeral de um Lavrador, o operário em Samba e Amor, o pedreiro de Construção, os sem-terra de Assentamento, dentre outros.

É na reflexão da leitura e da arte que paramos para reorganizar idéias, esquadrinhar conceitos, concordar ou duvidar das situações expostas. E fazer literatura é arriscar, expondo o que se é, o que se sente e o que se pensa, sabendo que não há isenção completa do meio em que se atua.

Que possamos como humanos e cidadãos construir uma sociedade mais justa, expondo o queremos de melhor: seja através da escrita, da leitura, do debate saudável, ou do voto.

Um grande abraço,
Carla Guedes

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