“A inenarrável promiscuidade dos sebos! (…) O sebo é a verdadeira democracia. (…) Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.” - Carlos Drummond de Andrade
Recorremos às livrarias quando queremos comprar livros recém-nascidos, estalando as páginas, novos em folha (literalmente). Mas os sebos são lugares à parte: neles os livros que são comercializados, além de manuseados, possuem vidas próprias.
A começar pelo nome, Sebo evoca nostalgia, que vem do tempo anterior à energia elétrica, onde a leitura era feita à luz da chama bruxuleante de velas amarelentas. Essa prática do contato das mãos com velas deixava os livros manuseados um tanto engordurados e sebosos, passando o substantivo a designar vulgarmente as livrarias onde se vendem livros usados.
Os primeiros estabelecimentos do tipo surgiram na Europa do séc. XVI, mas restritos à venda de documentos raros e importantes, já que a leitura não era um hábito popular ou acessível. No Brasil, esse seguimento do comércio passou a ser difundido a partir do séc. XVII, mas nos faltam referências e publicações sobre o tema.
Num sebo, seu espaço sagrado é algo um tanto peculiar, quase sempre tendendo à desordem gostosa de suas prateleiras. Vasculhando os espaços selvagens (na maiorida das vezes, tendendo a ser apertados) encontramos edições fora de catálogo, tiragens antigas, obras de colecionador, livros raros e lançamentos usados a preços modicamente baixos.
Muito se assemelha ao acervo de biblioteca, mas de uma forma menos organizada e menos formal. Dentre as diversas sensações e imagens características que o visitante de sebos é familiarizado, o papel amarelado e o cheiro dos anos são os mais marcantes.
Em nossa cidade não há sebos (ao menos, procuro-os esperançosa por Macaé, mas não tive notícias de nenhum), infelizmente. Quando estou em outras cidades, sempre que posso separo um tempo à visitação desses amarfanhados estabelecimentos. Mas não tendo um por perto, não é motivo para não ter edições vincadas, raras ou em preço mais acessível. Assim como o fenômeno das livrarias virtuais, nasceram os Sebos Virtuais, que adquiriram rapidamente um sucesso maior.
Grande exemplo é o site Estante Virtual, que funciona como um Mercado Livre de alfarrabistas (ou sebistas, como desejar). Com mais de 1.000 sebos cadastrados de 194 cidades, possui um acervo on-line de quase três milhões de livros. Não há como não encontrar aquele livro de segunda-mão procurado há tempo. O interessante também é que o internauta pode se cadastrar gratuitamente e anunciar alguns volumes que deseja comercializar, e, até certa quantidade, não paga comissão ao site pela venda.
Na mesma direção andam outros sebos virtuais, cujo princípio é “romper com o quadro atual de pulverização das centenas de sites de sebos brasileiros, que competem desnecessariamente pela atenção de um visitante que fatalmente não irá ter tempo ou paciência para visitar a todos.”
É certo que não teremos, com os sebos virtuais, o sem-fim de coisas que comumente nos apaixonamos: as incontáveis horas de garimpo entre lombadas roídas ou lustrosas, vitrines coloridas, dedos correndo folhas gastas e marcando-as demoradamente, uma troca de idéias com outro garimpeiro, os esbarrões em pilhas enormes, os olhos corriqueiros a localizarem um exemplar que os braços não alcançam, volumes de encherem os olhos e a imaginação de um dia poder ler aquilo tudo…
Mas a internet tem se mostrado um aliado importante de disseminação, não significando o fim dos sebos físicos, mas sim, seu fortalecimento e procura. Além disso, não poderão mais se valer do principal argumento (que os que possuem no fundo alguma preguiça de ler, recorrem sempre) de que livros são caros, ou inacessíveis.
Temos a oportunidade, com sebos virtuais ou não, de achar aquela edição esgotada, nos deparar com dedicatórias emocionadas, datas longínquas, ou rubricas desconhecidas. Pois assim como assinalou Drummond, os sebos são sempre democráticos. Acrescento que os sebos são templos repletos de histórias pessoais, em que se misturam homens e livros.
Plá da Semana
Desesperado procurando livros de segunda-mão pros estudos, ou querendo vender alguns volumes seus? Explorando o Estante Virtual você se cadastra e pode realizar estas e mais algumas transações comerciais. A negociação é feita diretamente com o anunciante, através do site. Consegui livros esgotados na editora, e tenho um amigo que vendeu algumas revistas antigas. Tudo correto, com qualificações positivas e sem transtornos. Vale a pena dar uma conferida!
Um grande abraço, e uma ótima semana!
Carla Guedes

















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