“A língua é o que nos une.” - frase de entrada do Museu da Língua Portuguesa
Mais um dia frio e cinzento em São Paulo. Com um mapa do metrô nas mãos, uma câmera fotográfica e algumas referências, parto ao meu destino. No metrô, sentado ao meu lado, um senhor idoso lia tranquilamente seu jornal.
Tento dar uma espiada para tentar ler qualquer coisa. Entretanto, para meu espanto, não consegui decifrar uma notícia sequer do periódico: todas, absolutamente, grafadas em japonês! Senti-me completamente analfabeta.
“— É aqui.”, me diz educadamente o senhor do jornal, três estações depois. Agradeço-o alegre e desço, finalmente, na Estação da Luz. Embora suas particularidades, ainda falamos a mesma língua neste mesmo solo.
O Museu da Língua Portuguesa é um prédio amarelo e conservado, que se espicha com sua torre-relógio até o fim da esquina. Adorável de se contemplar. Meus olhos e minha câmera não se cansam de registrá-lo.
Portão 1, bilheteria, elevador. Já no elevador, o clima. Ao som de fundo, o poeta Arnaldo Antunes cantarola seus músicos versos. Primeiro andar, o andar das Exposições Temporárias. Como já sabia de antemão o que estava em cartaz, aumenta meu contentamento: “Machado de Assis, mas este capítulo não é sério”; que fica ainda até 26 de outubro à mostra.
Ao entrar no espaço, a impressão que se tem é de estar em um livro aberto, onde o conto é a própria vida-obra de Machado: cada ambiente um capítulo; e eu, o “caro leitor”, bisbilhoto os acontecimentos.
Logo de início leio a “Advertência”, a mesma que Machado evoca na introdução do livro Papéis Avulsos. Relembro-me da responsabilidade de ser leitor, ainda mesmo que bisbilhoteiro.
Na meia-penumbra, vagueio por entre as salas. Aqui, um piano que executa sozinho algumas sonatas (como no conto “Trio em Lá menor“, a vida em andamentos musicais); logo adiante, chapéus flutuantes, de onde uma voz entoa um trecho do conto “Bons Dias!“. Os meus olhos pousam na caligrafia de documentos de época, meus dedos curiosamente apertam botões no caminho, para ouvir o que os alto-falantes têm a dizer…
Uma pausa para ver-ouvir-sentir uma projeção. De plena São Paulo, sou projetada à Rua do Ouvidor. Retiro-me comovida, e deparo-me com o Capítulo XIV: Olhos de Ressaca. Muitos olhos me fitam. Olhos das mulheres que Machado captou. Olhos capitolinos…
Vejo também palavras dependuradas num painel, e no centro da sala, um jogo de xadrez. Das palavras não tenha dúvidas: vez ou outra você as garimpa pelas páginas de Machado de Assis. Quanto ao xadrez, jogue com cuidado. Muito se escreve sobre o escrito. E a própria escrita já é um jogo cauteloso.
Virando a página, no Capítulo O Vergalho, observamos a face cruenta da escravidão. Mais à frente, deparo-me com um rolo enorme de papel. Sigo-o até o corredor, e chego à câmara da Sandice, da qual ninguém escapa….
Ah, o Irreal Gabinete de Leitura! É aqui onde relembro minha inesquecível visita ao Real Gabinete Português de Leitura, onde os olhos e o coração se encheram de livros e alegria. Agora em Sampa, carrego a eterna saudade, e adentro uma escura sala de projeções. Nela, um irreverente leitor faz da leitura uma inflexão. Entrando no País Misterioso, a partida de Machado. Um cortejo e um espelho: admira-me contemplar tantas imagens de mim e dos outros.
Antes de desembocar no Largo do Machado, passa-se pelo derradeiro Capítulo do Delyrio; a ilusão mais que presente de personagens que o Bruxo do Cosme Velho deu a vida, e da sua própria vida, sempre muito infundida ao conto de viver. Nele compreendemos que o Delyrio pode não ser irrealidade, e que caminha junto aos disparates de ver-se lendo o outro, de alongar a vista pela visão do passado, de descobrir-se, quem sabe, personagem.
Deixo na saída minha assinatura, e acolá um sorriso absorto de emoções evocadas. Tomo as escadas e sigo aos segundo e terceiro andares. Mas estes são outros capítulos…
Acesse o álbum no Orkut para poder ver as fotos do passeio pelo museu.
Plá da Semana
São Paulo fica um pouquinho longe de Macaé, eu sei. Em média, gasta-se na estrada umas 9 horas. Mas, surgindo uma oportunidade, não a perca! Para visitar: Museu da Língua Portuguesa - Estação da Luz, Praça da Luz - São Paulo, SP.
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Visitação de terça a domingo, das 10h às 17h (bilheteria). Ingressos por R$ 4 (estudantes pagam meia-entrada). Na primeira terça-feira do mês, a entrada é franca. A exposição temporária “Mas este capítulo não é sério”, no primeiro andar, fica aberta ao público até o dia 26 de outubro. Nos outros andares, muitas outras surpresas da língua portuguesa!
Um grande abraço,
Carla Guedes

















Com um descrição dessas, você simplesmente nos transporta para a exposição, nem precisamos ir até Sampa. Arrasou!