“O poema diz, o que o poema diz – Se eu pudesse dizer de outra forma, eu não escreveria um poema.” - Ferreira Gullar
Noite de 11 de agosto, terça-feira, Teatro Municipal. Ali marcamos um encontro com Gullar; um encontro singular de Literatura.
De uma forma que não haveria melhor, fomos introduzidos em sua lírica pela música. A música-poema “Traduzir-se”, bem traduzido pelo cantor Fagner e encantadoramente declamado em pauta pelos músicos inspirados da Lyra dos Conspiradores, abriu do evento.
Logo após a pausa da última nota, sobe ao palco, com cuidado e maestria, o nosso Ferreira Gullar, debaixo d’uma cabeleira que ele conserva com orgulho da soma das cores todas que os anos imprimiram; com uma mão firme e a voz no mesmo compasso.
E já começa a entonação com uma pergunta que vem a nos massacrar: o que representa a poesia atualmente, numa sociedade midiática, engolfada pela massificação? O que faz a poesia sobreviver e se reinventar ao longo dos séculos, sem ser substituída por outra forma?
A poesia existe, responde o próprio, porque as pessoas são mais do que a superficialidade do contato primeiro, as pessoas são misteriosas. O homem comum não existe. “A individualidade é a expressão singular do ser especial”. E brinca, contando de um cômico caso durante o seu exílio, que a poesia “existe e permanece porque nem sempre há a morena do lado. Um dia esta morena vai embora, e fica a poesia.”
Com uma pitada de bom humor, seriedade e reflexão artística, os temas foram conduzidos pela ordem cronológica de acontecimentos em sua vida, indo da saída de sua cidade natal ao Rio de Janeiro, até o período de exílio em países como Rússia, Peru, Chile, Argentina, e por fim, seu regresso ao Brasil.
O mundo não tem um sentido aparente, as coisas no seu contato primeiro parecem destituídas de qualquer explicação. “Mas ser inexplicável já é a própria explicação”, assevera. E quando o inexplicado emerge da capa da explicação, surge a poesia. “A poesia nasce do espanto”. O espanto do mundo, o espanto consigo, o espanto com a velha língua portuguesa, mastigada diariamente pelas sensações premeditadas.
E o trajeto na poesia? “Eu achava que ser poeta era ofício de defuntos”, brinca mais uma vez, levando o público presente à mais gargalhadas. Lógico. Os poetas de sua juventude, todos lidos nos livros didáticos, já estavam todos mortos. E, iniciado na poesia por um grupo de poetas descoberto em sua cidade (espanto: existiam poetas vivos!), começou seus versos inspirados em tudo lido. “Eu era um poeta de retaguarda”.
Mas aquilo tudo não bastava. Era preciso ser algo de seu. E bastou ler uns poemas de Drummond para que os horizontes se abrissem. “A linguagem é velha, nasceu muito antes do poema.” E o bom poema teria o dom de fazer nascer uma nova linguagem junto com ele, expressando o que há de novo na percepção. “No momento do poema, que ela ganhasse o frescor e a surpresa do espanto novamente.”
O passo adiante no poema foi a linguagem implodida, fazendo nascer a poesia Concreta. Nela há a destruição do discurso e da sintaxe, e o poema se forma pela junção de palavras no espaço, pela proximidade unicamente. Assim, o sentido de significância é apreendido e nascido junto ao próprio ato da leitura.
Após um rompimento com o movimento Concreto, suas bases de trabalho se dão em torno do Neoconcretismo e o Livro-Poema, e a poesia espacial (diga-se, de passagem, o curioso caso do Poema Enterrado, literalmente falando).
Não dá pra dissociar a política de sua obra, marcadamente a partir do período ditatorial e sua aderência ao Comunismo. Com isso, ele larga um pouco a Vanguarda neo-concretista para se voltar ao Cordel, uma poesia visceral, mais primitiva. E através dela, fazer política: poesia não só como instrumento de contemplação.
O Poema Sujo, o mais aclamado pela crítica, nasceu durante o período de exílio em Buenos Aires, e trazido ao Brasil por seus amigos. Nele há o que do passado é ainda presente, como se fosse “a última coisa a ser escrita”. Por isso, a busca da terra verdadeira e primordial, como busca de sua identidade. “O caráter repressivo, como o de uma ditadura, pode provocar diversas reações artísticas.” Mas não que a crise e o sofrimento sejam a condição sine qua non para destilar uma boa obra.
Ao término, durante o período de debate e perguntas abertas ao público presente, surgiram alguns embates conceituais. Porém nada que vá além de demonstrar sua fala com propriedade de causa, e sua personalidade forte, no alto de seus quase 80 anos.
No meio disso tudo, a equipe do Makaeh Cult não poderia estar de fora. Com direito à pose para foto e entrevista exclusiva, trazemos a pessoa do poeta para mais perto dos questionamentos atuais, tirando algumas curiosidades pertinentes. Leia a entrevista aqui e mais fotos no orkut do site.

Eu, o escritor Ferreira Gullar e Mariah Guedes, gerente de Relações Culturais do site.
Assim, terminei a noite feliz da vida, com um volume autografado debaixo do braço, e a poesia rediviva nos recantos da alma.
Um grande abraço,
Carla Guedes


















Oi Carla, tudo bem? É… estava feliz da vida mesmo hein!? Parabéns!
Carla, bem legal essa sua matéria e a entrevista com Gullar. Continua ainda escrevendo no site?
Um abraço!