“Os olhos do Sr. Button seguiram a direção apontada pelo dedo, e é isso que ele viu. Envolto em um lençol branco volumoso, e parcialmente abarrotado num dos berços, um velho aparentemente com cerca de setenta anos de idade.” – excerto do conto O Curioso Caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald
A mídia esquenta nesses tempos. Não só o Carnaval, mas também o bilionário ritual de 81 edições chamado Academy Awards, ou Oscar, acontecerão neste fim de semana.
E você, não pense que se enganou: esta não é mesmo a coluna comandada pelo Jonathan “Ceará”. Literatura e cinema têm mais a ver do que você imagina (assim como literatura tem muito a ver com muito mais coisas do nosso dia-a-dia).
Nunca se viu, nos últimos tempos, tantas indicações à estatueta de filmes baseados em livros ou contos. Fazem parte dessa mostra os cotados O Leitor, O Curioso Caso de Benjamin Button, Foi Apenas Um Sonho e Quem Quer Ser Um Milionário? (inspirado na obra Sua Resposta Vale Um Bilhão, de Vikas Swarup). Mas, o que explica essa alta dose de adaptações literárias?
Essa utilização já não é tão nova. Não só o cinema, mas também o teatro e a ópera se utilizam dos sucessos da literatura para abrilhantar seus enredos. No caso da segunda, é clássica a citação de Manon Lescaut, do escritor Abade Prévost, que fora adaptada para ópera pelos grandes Jules Massenet e Giacomo Puccini. No teatro, o ofício se confunde. Os grandes romancistas adaptaram suas próprias obras para teatro, e escreveram diversas comédias, tragédias e dramas.
A adaptação de obras brasileiras para as telonas não fica muito longe de ser comentada. Lembro-me de ter assistido, há muito tempo, o raro Morte e Vida Severina, com canções de Elba Ramalho, e que apesar do desenrolar obscuro das cenas, ficou para sempre gravada sua sensibilidade poética traduzida em cinética.
Poderíamos citar tantas outras adaptações nacionais: Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Tieta do Agreste (Jorge Amado), Senhora (José de Alencar), O Menino Maluquinho (Ziraldo), O Auto da Compadecida (Ariano Suassuna), Bicho de Sete Cabeças (Austregésilo Carrano) e outros tantos.
Dos internacionais, temos um sem-fim de títulos. Destaque para as grandes trilogias, séries ou contos fantásticos tais como Harry Potter, O Senhor dos Anéis, ou As Crônicas de Nárnia. A tecnologia tem possibilitado a reprodução fiel daquelas cenas que antes só eram possíveis no nosso imaginário.
É bem sabido que é mais comum as pessoas lerem certo livro por ter visto o filme dele do que o contrário. Já comigo, posso citar o oposto: antes de ir aos cinemas, gosto de primeiro ler a obra. Ou, quando alugo um filme, vou pelas escolhas direcionadas: baseada nos livros e/ou clássicos que já li. O mesmo aconteceu com Viagem ao Centro da Terra, Volta ao Mundo em 80 dias, Orgulho e Preconceito, Oliver Twist e O Primo Basílio.
Comparações são inevitáveis quando se vê um e lê outro. Decepções também. Às vezes nós temos a sensação que aquele personagem que imaginamos foi pobremente caracterizado, ou que tal filme fantástico foi baseado em uma obra de enredo tão arrastado. No mais, cada um com sua particularidade e riqueza. Cada qual com sua linguagem e mensagem próprias.
Seria falta de roteiros próprios? Busca de renovação do consagrado? Certeza de público cativo? O que sabemos sobre a enorme quantidade de filmes sobre nossos livros preferidos ou adotados é que eles nos proporcionam, de certa forma, uma boa chance de releitura.
Afinal, o filme é sempre filtrado pelo olhar do roteirista e do diretor (vide a quantidade de cenas cortadas de uma produção cinematográfica). Com isso, podemos criticar ao acharmos que a mensagem principal foi perdida ou até manipulada… Ou observar coisas que não havíamos percebido em leituras anteriores!
Um grande abraço, e votos de paz,
Carla Guedes

















