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Cartas a um Jovem Poeta

Literatura

“Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade.” - Rilke

Aqui estou, novamente escrevendo, após um breve tempo de férias. Nesse breve tempo, as leituras renderam e as produções literárias também. Mas o grande dilema foi: o que falar disso tudo? Ou melhor: o que não falar?!

“Quando falar alguém grandioso e único, os pequenos têm de se calar”, disse Franz Xaver Kappus na introdução da obra Cartas a um Jovem Poeta. Pois bem, sigamos o seu conselho. Deixemos falar Rainer Maria Rilke através de suas sábias cartas; o mais célebre poeta de língua alemã do último século.

Rainer Maria Rilke (1875- 1926) nasceu em Praga, então parte do Império Austro-Húngaro. As suas obras e poemas tiveram um impacto grandioso em gerações e mais gerações de poetas, sempre despertando interesse e estudo aprofundado. Não é à toa que grandes poetas como Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Augusto de Campos se incursionaram por traduzir suas prosas e poemas.

Na obra deste autor clarificam-se duas fases marcantes. A primeira corrente é marcada pelas coisas fluidas e mistificadas, com presença de figuras espectrais e diáfanas. Tal é o caso do conhecido (e favorito) poema Elegias de Duíno:

Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio
Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros
Sintam o ar mais vasto num voo mais íntimo.

Já a segunda corrente de Rilke, e provinda de um impulso interno não menos verdadeiro, é marcada pelas coisas propriamente ditas. Os chamados poemas-coisas. Mais densos, diretos e precisos, e imprimidos de uma beleza intelecto-emocional.

Aqui no Brasil, a produção literária da chamada Geração de 45 foi diretamente impactada, nos seus chamados “rilkeanismos”. Foi marcada principalmente pela fase mais diáfana da obra Elegias de Duíno. Já os seus poemas-coisas impressionaram poetas como João Cabral de Melo Neto.

Publicadas três anos depois de sua morte, as Cartas a um Jovem Poeta são realmente conselhos a quem quer se tornar um profícuo poeta ou escritor: ser um verdadeiro ser-humano. O então jovem Franz Kappus envia seus poemas ao consagrado Rilke e pede sinceramente que ele dê seu parecer sobre sua escrita. As cartas que trocaram durante anos são então matéria de nossa reflexão hoje.

Afinal, perguntamo-nos: a necessidade está em escrever ou em ser lido?

Pois bem, e já que me permite aconselhá-lo, peço-lhe que desista de tudo isso. Estás a olhar para fora de si. Investigue a razão que o leva a escrever, observe se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se a resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade; a sua vida, mesmo nas horas indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto.

Eis então a razão de ser da boa escrita! Não deve ser suprimento de nenhum apelo exterior, apenas das agruras e impulsos íntimos. Nisso vemos alguma arte. Nisso consiste a maior necessidade. Por fim, em palavras que muito me tocam, ele expressa o mais delicado conteúdo do ser-artístico:

Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem, apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda amplidão e serenidade, sem preocupação alguma.

Pois bem, deixemos que as cartas falem por si. Elas traduzem uma preciosa modalidade que Rilke soube conduzir: uma prosa, que apesar de prosa, não nega a substancialidade poética do acontecimento humano.

Plá da Semana

Cartas a um Jovem Poeta/A Canção de Amor e Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, de Rainer Maria Rilke – 111 páginas – Editora Globo

E o Plá da Semana vai para… nosso ilustre Rilke! Nesta bela edição com prefácio de Cecília Meireles, lemos na íntegra as dez cartas selecionadas pelo aspirante Franz Kappus, mais um entusiástico poema. Numa linguagem simples e profunda, as missivas são a porta de entrada para que nós conheçamos um pouco mais da sutileza do Poeta. Para ler: a Primeira Carta do volume.

Um grande abraço!
Carla Guedes