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Um encontro sinGullar

Literatura

“O poema diz, o que o poema diz – Se eu pudesse dizer de outra forma, eu não escreveria um poema.” - Ferreira Gullar

Noite de 11 de agosto, terça-feira, Teatro Municipal. Ali marcamos um encontro com Gullar; um encontro singular de Literatura.

Encontro Literário - Ferreira Gullar 

De uma forma que não haveria melhor, fomos introduzidos em sua lírica pela música. A música-poema “Traduzir-se”, bem traduzido pelo cantor Fagner e encantadoramente declamado em pauta pelos músicos inspirados da Lyra dos Conspiradores, abriu do evento.

Logo após a pausa da última nota, sobe ao palco, com cuidado e maestria, o nosso Ferreira Gullar, debaixo d’uma cabeleira que ele conserva com orgulho da soma das cores todas que os anos imprimiram; com uma mão firme e a voz no mesmo compasso.

E já começa a entonação com uma pergunta que vem a nos massacrar: o que representa a poesia atualmente, numa sociedade midiática, engolfada pela massificação? O que faz a poesia sobreviver e se reinventar ao longo dos séculos, sem ser substituída por outra forma?

A poesia existe, responde o próprio, porque as pessoas são mais do que a superficialidade do contato primeiro, as pessoas são misteriosas. O homem comum não existe. “A individualidade é a expressão singular do ser especial”. E brinca, contando de um cômico caso durante o seu exílio, que a poesia “existe e permanece porque nem sempre há a morena do lado. Um dia esta morena vai embora, e fica a poesia.

Com uma pitada de bom humor, seriedade e reflexão artística, os temas foram conduzidos pela ordem cronológica de acontecimentos em sua vida, indo da saída de sua cidade natal ao Rio de Janeiro, até o período de exílio em países como Rússia, Peru, Chile, Argentina, e por fim, seu regresso ao Brasil.

O mundo não tem um sentido aparente, as coisas no seu contato primeiro parecem destituídas de qualquer explicação. “Mas ser inexplicável já é a própria explicação”, assevera. E quando o inexplicado emerge da capa da explicação, surge a poesia. “A poesia nasce do espanto”. O espanto do mundo, o espanto consigo, o espanto com a velha língua portuguesa, mastigada diariamente pelas sensações premeditadas.

E o trajeto na poesia? “Eu achava que ser poeta era ofício de defuntos”, brinca mais uma vez, levando o público presente à mais gargalhadas. Lógico. Os poetas de sua juventude, todos lidos nos livros didáticos, já estavam todos mortos. E, iniciado na poesia por um grupo de poetas descoberto em sua cidade (espanto: existiam poetas vivos!), começou seus versos inspirados em tudo lido. “Eu era um poeta de retaguarda”.

Mas aquilo tudo não bastava. Era preciso ser algo de seu. E bastou ler uns poemas de Drummond para que os horizontes se abrissem. “A linguagem é velha, nasceu muito antes do poema.” E o bom poema teria o dom de fazer nascer uma nova linguagem junto com ele, expressando o que há de novo na percepção. “No momento do poema, que ela ganhasse o frescor e a surpresa do espanto novamente.

O passo adiante no poema foi a linguagem implodida, fazendo nascer a poesia Concreta. Nela há a destruição do discurso e da sintaxe, e o poema se forma pela junção de palavras no espaço, pela proximidade unicamente. Assim, o sentido de significância é apreendido e nascido junto ao próprio ato da leitura.

Após um rompimento com o movimento Concreto, suas bases de trabalho se dão em torno do Neoconcretismo e o Livro-Poema, e a poesia espacial (diga-se, de passagem, o curioso caso do Poema Enterrado, literalmente falando).

Não dá pra dissociar a política de sua obra, marcadamente a partir do período ditatorial e sua aderência ao Comunismo. Com isso, ele larga um pouco a Vanguarda neo-concretista para se voltar ao Cordel, uma poesia visceral, mais primitiva. E através dela, fazer política: poesia não só como instrumento de contemplação.

O Poema Sujo, o mais aclamado pela crítica, nasceu durante o período de exílio em Buenos Aires, e trazido ao Brasil por seus amigos. Nele há o que do passado é ainda presente, como se fosse “a última coisa a ser escrita”. Por isso, a busca da terra verdadeira e primordial, como busca de sua identidade. “O caráter repressivo, como o de uma ditadura, pode provocar diversas reações artísticas.” Mas não que a crise e o sofrimento sejam a condição sine qua non para destilar uma boa obra.

Ao término, durante o período de debate e perguntas abertas ao público presente, surgiram alguns embates conceituais. Porém nada que vá além de demonstrar sua fala com propriedade de causa, e sua personalidade forte, no alto de seus quase 80 anos.

No meio disso tudo, a equipe do Makaeh Cult não poderia estar de fora. Com direito à pose para foto e entrevista exclusiva, trazemos a pessoa do poeta para mais perto dos questionamentos atuais, tirando algumas curiosidades pertinentes. Leia a entrevista aqui e mais fotos no orkut do site.


Eu, o escritor Ferreira Gullar e Mariah Guedes, gerente de Relações Culturais do site.

Assim, terminei a noite feliz da vida, com um volume autografado debaixo do braço, e a poesia rediviva nos recantos da alma.

Um grande abraço,
Carla Guedes

Entrevista com Ferreira Gullar

Literatura

Este é um conteúdo extra e parte integrante da matéria Encontro sinGullar, da coluna de Literatura escrita por Carla Guedes. As perguntas da entrevista foram elaboradas por Kaleb Aurich.

O escritor, poeta, crítico de arte, colunista e teatrólogo Ferreira Gullar esteve em Macaé para uma noite com palestra, debates e… autógrafos. Ele abordou a sua experiência poética ao longo de toda carreira como também nas suas vivências políticas em fatos importantes do país, na literatura e no jornalismo. Gullar gentilmente concedeu esta entrevista por e-mail, nos presenteando com seus testemunhos e opiniões sobre alguns assuntos e contribuindo para um conteúdo especial em comemoração aos 2 anos do site. Veja abaixo:

1) Em quase 80 anos de história, o que mudou de forma mais radical na vida e no pensamento do senhor? Como pessoa e escritor.

- Minha vida, tanto pessoal quanto literária, tem mudado muito, desde sempre. Nunca planejei minha vida nem minha obra, que se vão fazendo a cada dia, o que não significa abrir mão da reflexão e da busca de coerência.

2) Quais os seus melhores amigos dentro do universo dos escritores? De qual(is) você indicaria livros, dando uma sugestão relacionada às suas obras?

Tenho muitos amigos, felizmente, tanto no campo literário como fora dele. Prefiro não enumerá-los, para não cometer omissões.

3) Pessoalmente, qual sua obra preferida, aquela que mais realizações trouxe à sua vida?

Não tenho uma obra minha que prefira, a não ser o último poema que ainda estou lambendo… Na opinião dos leitores e críticos, o livro preferido é Poema Sujo.

4) Qual sua opinião sobre as novas mídias, a convergência digital que leva a informação para a web. Elas são o futuro das ferramentas de informação e formação de opinião? O senhor é adepto de alguma dessas tecnologias?

As novas mídias constituem uma revolução no modo de comunicação entre as pessoas e na busca de informações. Uso o computador sobretudo para escrever e remeter meu trabalho a jornais e editoras. Não sou um internauta.

5) O que achou da Nova Ortografia do Língua Portuguesa? O senhor é a favor ou contra as mudanças que entraram em vigor este ano?

Acho que a nova reforma ortográfica é um equívoco. Não tem sentido mudar a forma de escrever a cada década. Esta reforma tem quase tantas exceções quanto normas.

6) Você já foi contemplado com várias premiações, dentre elas o Prêmio Machado de Assis e o Jabuti; é um escritor muito respeitado no meio. Porque recusou o convite de candidatar-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras?

Tenho muitos amigos na ABL e com frequência vou lá participar de algum evento. Se não aceito entrar a Academia é porque não tenho espírito acadêmico. Acho melhor deixar como está.

7) Qual o principal papel da palavra escrita e que importância ela pode ter na formação do cidadão como pessoa?

O papel da palavra escrita é fundamental. Mesmo que o livro eletrônico venha a ocupar o lugar do livro impresso em papel, isso não vai alterar a importância da leitura e da escrita na formação das pessoas. O ser humano é um ser cultural e, se perdermos essa noção, caminharíamos para o desastre… Não acontecerá.

8) O senhor foi um dos muitos artistas e intelectuais presos e exilados na época da ditadura. O que pôde aproveitar de positivo em meio a tudo isso? Quais são as lutas dessa nova geração?

Os anos de exílio me ensinaram muita coisa, tanto no plano da vida quanto no plano político e cultural, mas preferia ter aprendido essas coisas de maneira menos traumatizante.

9) Que mensagem o senhor poderia deixar para os jovens estudantes, que muitas vezes se veem decepcionados com o cenário atual do país, em vários aspectos, inclusive o político.

É natural que os jovens estejam desapontados com o que ocorre na política brasileira. Diria a eles, herdeiros do país, que lhes cabe mudá-lo e melhorá-lo. A vida é inventada e, se não a reinventamos, ela tende a degenerar.

Literatura e o Propósito Político

Literatura

“A opinião de que a arte não deveria ter a ver com política é em si mesma uma atitude política.” - George Orwell

Semana de decisão nas urnas, a coluna Literatura não poderia ficar de fora das discussões suscitadas, assim como nós vimos a intersecção do Meio Ambiente, da Tecnologia, da Música e do Cinema com a política (tudo o que fazemos e pensamos é, de certa forma, política, no amplo sentido do termo). A Literatura também tem um forte engajamento com as questões quotidianas, e as obras incessantemente interagem com o período político vivido no momento em que foram escritas.

Assim como os leitores são dos mais variados, os escritores também o são. Existem os escritores do devaneio, do mundo do intelectualismo e da fantasia; e existem os escritores da realidade, da dura e desencantada realidade. Há aqueles que escrevem para mudar o mundo; uns o seu próprio mundo, devastando as suas incertezas e desconhecimentos interiores; já outros, o mundo externo mais amplo, espalhando utopias e apregoando ideais de mudança.

O que dizer da relação Literatura/Política? Não estão ambas encharcadas de visionarismo e cercadas pela realidade? A politização da literatura geraria um empobrecimento da arte? Afinal, arte pela arte, ou arte pela humanidade?

George Orwell, célebre escritor de A Revolução dos Bichos exemplifica bem os impulsos da escrita, classificando-os em quatro:

 ”1. Puro egoísmo: O desejo de ser engenhoso, de ser comentado, de ser lembrado após a morte, de se desforrar de adultos que o desdenharam na infância e por aí afora. É uma falsidade fazer de conta que este não é um motivo forte [...].

2. Entusiasmo estético: A percepção da beleza no mundo externo ou, de outro lado, nas palavras e em seu arranjo correto. Prazer no impacto de um som sobre outro, na firmeza de uma boa prosa ou no ritmo de uma boa história [...].

3. Impulso histórico: O desejo de ver as coisas como elas são, de encontrar fatos verídicos e guardá-los para o uso da posteridade.

4. Propósito político: O desejo de lançar o mundo em determinada direção, de mudar as idéias das pessoas sobre o tipo de sociedade que deveriam se esforçar para alcançar.”

Creia: nenhum escrito está isento de contrair, um mínimo que seja, de um de cada desses impulsos. E o quarto motivo é o mais perceptível deles: ninguém está isento de tendências políticas, como nenhum livro é de todo neutro. O escritor, assim como a gente, não está imune à realidade que o cerca, principalmente em tempos de crise. Na contra-mão, principalmente nos tempos de crise é que se levanta a voz da arte, seja como protesto, reflexão ou fuga.

Assim como nem toda obra política é verdadeiramente boa, alguns autores que se enveredaram por ela, conscientes ou não, deixaram importantes legados. Como exemplos de engajamento político de suas épocas, poderemos citar alguns grandes: Castro Alves, que com sua poesia Abolicionista cantou a dor dos escravos e criticou a política escravocrata vigente; Affonso Romano de Sant’Anna que em plenos anos de ditadura publicou corajosos e belos poemas, como o Que País é esse?; Oswald de Andrade com seus ideais anarquistas, e sua inconfundível obra crivada de chavões Vermelhos.

No mesmo engajamento segue Ferreira Gullar, com sua poesia de liberdade e crítica à repressão de 64; e Chico Buarque, que em seus poemas-canção retratou figuras de essencial denúncia social: o camponês de Funeral de um Lavrador, o operário em Samba e Amor, o pedreiro de Construção, os sem-terra de Assentamento, dentre outros.

É na reflexão da leitura e da arte que paramos para reorganizar idéias, esquadrinhar conceitos, concordar ou duvidar das situações expostas. E fazer literatura é arriscar, expondo o que se é, o que se sente e o que se pensa, sabendo que não há isenção completa do meio em que se atua.

Que possamos como humanos e cidadãos construir uma sociedade mais justa, expondo o queremos de melhor: seja através da escrita, da leitura, do debate saudável, ou do voto.

Um grande abraço,
Carla Guedes

2008: o Ano Machadiano

Literatura

“Assim são as páginas da vida, 
(…) e acrescentava que as páginas vão 
passando umas sobre as outras, 
esquecidas, apenas lidas.”

(excerto do conto Suje-se Gordo!, de Machado de Assis)

Falar de Machado de Assis, a quem as páginas nunca passaram esquecidas, é tarefa que beira o prazer. Nele, o prazer de ler torna-se espontâneo, pois Machado, além de esmerado conhecedor da língua portuguesa, era um cômico observador.

Este é o seu ano por excelência. 2008 é decretado o Ano Nacional Machado de Assis. Por um lado, ótimo: choveram publicações sobre a obra do mestre, e muitos ficaram com vontade de reler com mais carinho aquelas obras que só leram à mando de algum professor caxias. Por outro, sabemos de antemão: após a sagração de Machado, todos os anos foram seus.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) teve origem bem humilde. Filho de operário, e tendo perdido a mãe muito cedo, trabalhou e estudou como pôde, nunca em cursos regulares. Aos 16 anos publica na Marmota Fluminense um primeiro poema. No ano seguinte entrou para a Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo.

Foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, sendo suas obras espelhos dos gêneros literários de seu tempo. Se seu início teve características marcadamente Românticas (influenciado por José de Alencar, escritor de Iracema), sua maior contribuição está na inovação que propõe ao Realismo, sendo grande representante e referencial.

Renomadamente foi o fundador da 23ª cadeira da ABL (Academia Brasileira de Letras), e um dos que criaram a Casa, aos moldes da Academia Francesa de Letras. Por mais de dez anos esteve à frente de sua presidência.

Machado de Assis, como enfatiza Josué Montello, não era um homem improvisado. Ele tinha a consciência de que, pra chegar ao ponto em que chegou, era preciso ter o gosto da aprendizagem. Por isso, estudou a língua portuguesa a partir da leitura dos mestres da literatura. Não nos bancos da escola, mas em consultas freqüentes ao Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro.

Por falar em Rio de Janeiro, o Bruxo do Cosme Velho (como também é chamado devido à Rua Cosme Velho, nº 18, onde passou a maior parte de sua vida), retratou o Rio de seu tempo nas observações mais argutas e sutis. Quando vou à Rua do Ouvidor ou excursiono pelas ruas o Centro do Rio, tenho a suspensa sensação de ser uma de suas personagens, ansiando topar com qualquer carro de aluguel, bengala, monóculo, ou o próprio Machado atrás de seu pince-nez. Tal é a profundidade de sua obra em meu imaginário e tal a veracidade com que descreveu e imortalizou seu tempo.

Aviso aos que torcem o nariz ao intentar ler um livro que leva um título de “Clássico da Literatura”: Machado de Assis não dá motivo nenhum para se torcerem narizes. Ele sabe cativar o leitor e suas linhas, capítulos inteiros, que estão cheios de comicidade; a risada inteligente de quem mantém o frescor de sempre. Galhofeiro, possui a constante estratégia de conversar com o “amigo leitor” durante a narrativa nos momentos cruciais, ou somente pra descontrair. Machado dá o que pensar.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1899), Contos Fluminenses (1870), Memorial de Aires (1908) e Papéis Avulsos (1882) são alguns dos títulos do nosso orgulho Machado, que tem seu nome figurado junto aos maiores da literatura mundial.

Aproveitando o ensejo do ano comemorativo, que nós possamos redescobrir a rica produção literária de nosso país, e, principalmente, que conheçamos as deliciosas venturas que nos aguardam a obra do eterno Machado.

Plá da Semana

Muitos foram os livros e sites comemorativos à Machado lançados este ano. Mas o site www.machadodeassis.org.br em especial, além de ser da ABL, tem uma interatividade e acervo consideráveis do autor, além de aliar a beleza das coisas antigas à praticidade do moderno. Dê uma clicada lá, que vale à pena (literalmente)!

Um grande abraço,
Carla Guedes

120 anos de Pessoa

Literatura

Fernando Pessoa - Almada Negreiros“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.”
(De Poemas Inconjuntos por Alberto Caeiro)

E “entre uma e outra cousa”, Fernando Pessoa nos deixou mais do que um intervalo: uma vida dedicada ao extremo criativo; uma obra inconfundível.

De 13 de junho de 1888 à 30 de novembro de 1935, contamos com a passagem marcante do ilustre poeta. Não é à toa que hoje, para celebrar 120 anos de seu nascimento, a coluna Literatura faz esta pequena releitura de vida e obra. Homenagem merecida ao homem dos tantos “eus”. Afinal, redescobrimos a cada pensamento o nosso eu verdadeiro: sucessão infinita de metamorfoses diárias…

Nosso homenageado nasceu em Lisboa, numa tarde preguiçosa e tranquila. O Grande Poeta foi batizado como Fernando António Nogueira Pessoa, em homenagem ao santo de seu dia. Desde pequeno dá mostras de suas predileções, escrevendo os primeiros versos aos sete anos de idade.

Tendo o pai falecido ainda bem novo, passou a juventude em Durban, por conta do casamento de sua mãe com o cônsul de Portugal na África do Sul. O contato com a língua inglesa foi marcante em sua formação, refletindo-se também em sua carreira literária. Muitos de seus versos foram feitos em inglês, além de posteriormente trabalhar traduzindo correspondência comercial e obras literárias, como as de Edgar Allan Poe.

Apesar do inglês ter sido matéria para seus versos, a língua portuguesa foi de fato o seu ofício. Transmitiu a língua-mãe com apuro e riqueza naturais.

“Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.”
(De Quadras ao Gosto Popular por Fernando Pessoa)

A heteronímia criada por ele (ou as múltiplas fugas criativas) é inovadora na produção poética do início do século XX. Diferentemente dos pseudônimos, os heteronômios de Fernando Pessoa possuem, além de nome, uma identidade própria. Têm na verdade uma biografia completa: nome, data de nascimento e falecimento, profissão, formação acadêmica, personalidade e preferência temática… um personagem escritor, produzido pelo próprio.

Dos mais famosos temos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares. Além dos pseudônimos e heteronômios, há o ortônimo, ou seja, Fernando Pessoa por ele mesmo. Contabiliza-se (entre pseudônimos, heteronônimos, semi-heteronônimos e ortônimo), cerca de 72 nomes por ele criados.

Fernado Pessoa também foi participante ativo da Revista Orpheu, revista que inaugurou o Modernismo em Portugal. Se identificar com a obra de Pessoa é fácil: basta que seus poemas flutuem por nosso inconsciente. Escritor das surpresas; homem místico e ontológico: mostra em seus versos o ser em si mesmo, em sua dimensão ampla e fundamental. Costura as personalidades com maestria, vagueando entre o passado e o presente.

“Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo, todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.”
(Ricardo Reis)

E os versos de Pessoa falam por si mesmos. Espero que tenham gostado de mais uma edição de Literatura, e aproveitado para relembrar e reverenciar as jóias de nossa língua!

Com o desejo de boas leituras, e de um ótimo fim de semana!
Nas palavras do próprio poeta: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

Plá da Semana

Porta Literal - Site

Nesta semana trazemos como dica Portal Literal, onde podemos encontrar muitas coisas interessantes, além de ficar por dentro da boa literatura brasileira. Com apoio do Ministério da Cultura, o site traz novidades literárias em texto, imagem e som, além de contar com a colaboração de grandes escritores docomo Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles e Luis Fernando Veríssimo. Destaque para a Oficina Literária on-line.

Um grande abraço,
Carla Guedes

Literatura II

Literatura

Olá caros leitores! Teremos, a partir de hoje, encontros quinzenais na coluna Literatura. Retomando um projeto importante, neste espaço falaremos sobre tudo relacionado ao assunto. O enfoque é vasto, e quem gosta de boa leitura não perde por esperar! Traremos entrevistas com literatos de nossa região, discussão e resenhas sobre obras e movimentos literários importantes, além de novidades e eventos ligados aos livros e às palavras. Teremos também o “Plá da Semana”, trazendo dicas de leituras interessantes e links para conhecer mais sobre os assuntos abordados.

Na era das informações, é tão comum recebermos cargas e cargas de textos, ícones, imagens, gráficos… palavras e palavras: não mais que isso. O que fazer com essa carga mal digerida que recebemos?

Vamos deglutir com cuidado as palavras, sorvê-las de um modo interessante. Onde ficou o nosso senso crítico e a capacidade de transformar informações em reflexões de mundo? Porque não, degustá-las? Neste banquete literal, voltaremos ao tempo onde a leitura inspira paixão, onde ela revolve os sentimentos, e onde é capaz de mudar o nosso olhar.

Quem sabe, também, até conquistar bons leitores e descobrir escritores preciosos? Dentro de nós há muitas potencialidades. Leiamos, e pensemos! Espero que gostem do nosso espaço!

Um grande abraço,
Carla Guedes

Para Morrer de Rir!

Literatura

Assassinatos na Academia Brasileira de LetrasA matéria de hoje é sobre um simpático apresentador e excelente escritor! Quando parei para pensar sobre o que escreveria essa semana, me vieram à cabeça diversos escritores e vários livros excelentes. Busquei lançamentos, best-sellers internacionais.

Mas não resisti quando li um trecho do livro abordado hoje, elaborado por uma pessoa pública, a qual temos um encontro diário em um programa cheio de variedades e UTILIDADES, no qual os temas são tratados de forma muito inteligente e extremamente engraçados.

O terceiro romance de Jô Soares se passa no Rio de 1924 e põe um serial killer no encalço dos seletos membros da Academia Brasileira de Letras.
Assassinatos na Academia Brasileira de Letras conta um caso de mortes que provoca risos. Detalhe: os imortais são as vítimas.

O terceiro livro de Jô em dez anos contém a mesma fórmula dos anteriores, O Xangô de Baker Street (1995) e O Homem Que Matou Getúlio Vargas (1998): pesquisa histórica, entrecho policial e boas piadas que mexem com os fatos sem tirá-los do lugar. Algo um tanto matemático que altera os fatores sem modificar o produto.

Os dois romances foram traduzidos para uma dezena de línguas; o primeiro foi lançado em 12 países e o segundo em sete. Juntos, venderam 1,3 milhão de exemplares no mundo (no Brasil, Xangô vendeu 620 mil e Getúlio 410 mil).

O livro chegou às livrarias com tiragem de 100 mil exemplares. Prometendo igual sucesso, mesmo porque, segundo Jô, fluiu com mais naturalidade que os outros. Foi escrito em cinco meses, a partir de agosto de 2004, enquanto o primeiro levou oito meses e o segundo dois anos.

Jô SoaresJô, apesar de morar em São Paulo, sempre se declarou apaixonado pelo Rio de Janeiro antigo e inclusive morou, ainda criança, com seus pais no hotel Copacabana Palace, fundado em 1923 e um dos cenários do livro. A convivência no hotel teve como resultado uma narrativa ainda mais viva e enxuta que a dos outros volumes, devido aos recursos da memória.

Segue então, um trecho do livro, que além de tudo nos ajuda a entender de maneira cômica fatos na nossa história:

“Segunda-feira, 7 de abril de 1924

PULVIS EST ET IN PULVEREM REVERTERIS

Uma chuva de gotas grossas caía sobre a cidade do Rio de Janeiro naquela tarde de céu encoberto, e relâmpagos festejavam a tempestade. Contrariando a crença de que aguaceiros aliviam o calor, os termômetros acusavam uma temperatura de trinta e nove graus. O clima não impediu que os partícipes se apresentassem a rigor para as últimas despedidas ao senador da República e emérito escritor Belizário Bezerra, no cemitério São João Batista. Havia mais gente ainda que no dia da posse. Sérgio Loreto viera de Pernambuco, e até a autoridade maior do país, o presidente Arthur Bernardes, estava lá, de cartola e sobrecasaca, prestigiando o amigo morto, apesar das preocupações com o estado de sítio, que vigorava desde o governo anterior.

Turistas ocasionais também se amontoavam em volta do túmulo, dando mostras da curiosidade mórbida que se manifesta em catástrofes e nos enterros de pessoas ilustres.

Imortais mais ansiosos já cabalavam, entre si, votos para futuros candidatos. Causava estranheza vê-los de fardão e guarda-chuva.

Outros grupelhos contavam anedotas e riam disfarçadamente. Mulheres envoltas em renda negra trocavam idéias, em voz baixa, sobre os últimos lançamentos da moda em Paris e falavam do exótico Cuir de Russie, novo perfume de Coco Chanel.

Deputados e senadores, conhecedores das tensões do momento político, dirigiam olhares para o presidente, conjecturando sobre possíveis rebeliões tenentistas, inspiradas pelos Dezoito do Forte. Enfim, como em qualquer funeral, o único silencioso era o morto.

Todos pretendiam despachar o defunto com um necrológio pujante, porém o criminalista Aloysio Varejeira foi o mais pressuroso. Quando ele puxou do bolso o panegírico, um enorme círculo abriu-se à sua volta. O inescrupuloso advogado era temido pelo seu mau hálito.

Os maledicentes imputavam-lhe o sucesso nos tribunais ao bafejo cáustico, cultivado por anos de vinho avinagrado e queijo-do-reino, que ele expelia, ameaçador, em direção aos jurados. Pura aleivosia: o talento de Varejeira era tão perigoso quanto seu bafo venéfico.”

“Só senti coragem de escrever romances quando descobri qual era meu aspecto mais forte. Obviamente, o humor. Escrevo brincando.” - Jô Soares

Um ótimo fim de semana!
Nathália Borges

Literatura

Literatura

Esta é a primeira grande novidade do Makaeh Cult em 2008. Agora todas as sextas-feiras você terá encontro com a nova coluna de Literatura. Este novo tema irá tratar de assuntos como críticas e análises de livros, falar sobre escritores importantes e algumas outras questões das quais irão conhecer com o tempo.

Quem irá comandar esta inédita área do Makaeh Cult é a nova colunista Nathália Borges, que assinou um contrato de 3 anos com site (Hahahah, brincadeira).

Na verdade ela foi escolhida como se estivesse “na multidão”. O fato de se interessar pela idéia e o espírito do site, além de comentar a sua vontade em participar dele, lhe fez mais uma participante da nossa equipe.

A coluna de Fotografia & Design que antigamente era publicada neste dia passa agora a ser postada aos Sábados. O Victor me falou que todos devem se preparar para acompanhar as grandes matérias que serão publicadas.

Bom, a grande questão é que essa se trata apenas da primeira entre as muitas inovações que o Makaeh Cult irá proporcionar a você leitor durante este ano de 2008. Portanto sempre acompanhem as atualizações diárias do site para ficar por dentro das novidades. E prestigiem a nova coluna de Literatura.

Abraços e fiquem atentos com as novidades!
Kaleb Aurich