“Vou-me embora pra Pasárgada (…)” - Manuel Bandeira

Mais um ano, e a irresistível FLIP diz adeus. Disse adeus a mim e a minha pequena limitação frugal de não poder banquetear a grande mesa do saber e do conhecimento, destrinchada sobre garfos de autores comezinhos.
Mas, não vamos chorar o leite derramado, brindado nos copos do banquete. Sobre isso já dizia minha avó – provavelmente inspirada na moral da fábula de cabeceira, A Vendedora de Leite, minha favorita de La Fontaine.
Também voltou a dizer sobre os desperdícios lácticos, o velho Chico. Não o rio, mas o Buarque. Talvez menos leite derramado sane a falta de leite do mundo, e combata um pouco desta fome. A fome do leite no bucho de milhares de nascituros, a fome de livros que se nota na mesa. Na mesa da escola.
Cantarolando o refrão: livro pra comida, prato…
Há pratos, mas há falta de comida (não nas despensas, que estão fartas). Há mesas. Será que há falta de fome?
A propósito das coisas internacionais, feito uma festa assim em Paraty, ser internacional hoje em dia anda um pouco perigoso. Vide a gripe que ronda os lenços (pobre Marquês de Rabicó). Soubesse um dia o Lobato sobre o mal que padece o nosso amigo, lhe teria precavido. E já há algum tempo, George Orwel alertou sobre a perspicácia suína e o grande poder que eles possuem de comandar uma Revolução. Seja a Revolução dos Bichos, ou o que seja.
Mas a gripe não preocupa. Preocupa o vírus inativo da poesia que há muito se incuba nos corações e não são escarradas nos papéis.
E ficam assim, inofensivos.
Um grande doente desse quilate foi o próprio Bandeira, o Manuel, que não teve vergonha de esconder sua doença fatal. Poiesiou até não mais poder. Fugiu pra Pasárgada, inúmeras vezes, e felizmente sempre voltou de lá pra nos dizer os seus noticiários. E quando o mundo ficava assim também meio indigesto; pronto! Ia pra Pasárgada outra vez. E até hoje ele é amigo do rei…
Mas o mundo concreto, esse sim, não dá pra fugir. A vida presente é a melhor matéria, como anuncia profético nosso Drummond (acho que um pouco do vírus que possuo, também é mutação da doença do Manuel, do Drummond e de tantos outros vírus juntos).
A propósito do Manuel (sim, o Bandeira) ter sido o propósito da festa, isso é fato mais que merecido. Quero chegar aos oitent’anos que um dia ele chegou, lutando a boa luta que ainda não se lutou.
Os convidados para o banquete, como sempre, causam as velhas e renovadas sensações. Uns nomes ao serem pronunciados provocam frisson. Outros, no entanto, não despertam nada na curta memória.
Naturalmente, acho que a gripe bateu mais forte por conta do nome áureo da FLIP: Lobo, o António. Também pudera: essa de lobo e sopro já conta o conto das casinhas de palha, madeira e tijolos.
Gosto do Lobo, o António. De sua fronte grisalha emanam pensamentos sutis. Cortes sutis e ferinos (ou lupinos, como preferir) nas camadas mais enraizadas do pensamento comum. Queria estar lá só para tê-lo visto, o Lobo, ditando as regras mais insensatas do bem escrever, num português de gostoso sotaque lusitano.
Viva o Marquês de Rabicó, e nosso eterno mote: Vou-me embora…
Pra onde mesmo?!
Esperando a próxima FLIP,
Carla Guedes

“E agora, José?
















