Arquivo de Tag para 'Guimarães Rosa'

A hora e vez de Guimarães Rosa

Literatura

“Às vezes, quase acredito que eu mesmo, João, seja um conto contado por mim.” 
João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa (1908-1967), comemorado este ano, nos advertiu, em 1965: “Que nasci no ano de 1908, você já sabe. (…) Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim são minha maior aventura”.

Vamos então rever e compreender através de sua maior aventura pessoal, a literatura, quem foi João Guimarães Rosa…

Nascido em Minas Gerais, foi médico e diplomata. E nesse percurso, a literatura alinhavou seus passos. Em pequeno, demonstra especial interesse pelas línguas e livros. Na faculdade de medicina, para auxílio financeiro, escrevia contos para a revista O Cruzeiro, além de participar de inúmeros concursos literários (premiado em muitos deles).

É assim que o exercício começa: a intimidade com as palavras. Seu olhar literário não deixava escapar os acontecimentos. Em dois anos, como médico no interior de Minas Gerais, a curiosidade pelas coisas da terra, o folclore e espirituosidade do sertanejo não passaram em branco. Rosa foi anotando os ditos, frases em pára-choque de caminhão, falas e expressões, descrevendo paisagens e sensações; as míticas e crédulas lembranças de um povo.

A literatura Moderna é marcada pela rudeza naturalista. Assim, a Geração de 45 retoma o percurso de escrita regionalista da Geração de 1930, mas com toda a carga política e amadurecimento. São nos sertões nordestinos e mineiros dos interiorões que encontram a matéria humana, as lides com o animal, com o rancho, com a seca.

Mas, como descrever a fala e dramas sertanejos? Com a bagagem culta, própria do escritor, ou com a fala simples, própria do cotidiano das querências? Guimarães Rosa, com sua prosa repleta de poesia, mitologia e realidade reinventa a linguagem.

Nenhum autor brasileiro foi tão fundo como ele na arte de inventar palavras: circuntristeza, suspirância, velhouco, ensimesmudo, embriagatinhar, nonada, mimbauamanhanaçara… Calma! Não se espante. Não é tão complicado assim. Rosa não queria que seus leitores vivessem consultando dicionários (até porque essas palavras não serão encontradas lá). As palavras seriam como enigmas divertidos.

O contexto da obra e um mínimo conhecimento de radicais, às vezes, bastam para decifrar os risonhos significados. A linguagem cotidiana, como dizia, estava desgastada pelo uso: só expressava lugares-comuns, e não idéias. “Cada autor deve criar seu próprio léxico, do contrário não pode cumprir sua missão”.

Imortalizado por obras como Grande Sertão: Veredas, Corpo de Baile e Sagarana, Guimarães é digno da cadeira que conquistou na Academia Brasileira de Letras, em 1967. Curiosamente, três dias após a posse, aos 59 anos, falece vítima de infarto. Ele prenunciara a emoção em ser condecorado. Apesar da brevidade da posse, seus contos, poemas e romances permanecem mais que lembrados nos personagens e lutas que vivificou.

Com base num conhecimento lingüístico espantoso (tendo estudado as gramáticas de mais de vinte e três línguas), Rosa foi mestre em fabricar novos termos, assim como em desenterrar palavras do desusado português arcaico e do palavreado popular. Não só a língua em esmero, mas também conteúdo: captou em suas raízes a brutalidade de viver, a crença do sertanejo, as superstições e a relação entre o trabalhador e o divino. Pois a língua é instrumento de emotividade, e de liberdade.

Plá da Semana

Sagarana, de Guimarães Rosa
413 páginas – Ed. Nova Fronteira

Publicado pela primeira vez em 1946, Sagarana reúne os mais conhecidos contos do nosso autor, como “O burrinho pedrês”, “São Marcos” e “A hora e vez de Augusto Matraga”. Uma curiosidade: o título foi criado a partir da junção das palavras Saga, que significa narrativa, conto; e a palavra Rana: do tupi ‘rana’; semelhante, parecido a.

E esta semana, em ritmo de homenagem à Guimarães Rosa e em também em comemoração ao 1º Ano do Makaeh Cult, temos um Plá mais que especial!

Pergunta: “Qual o nome dado ao fenômeno lingüístico de criação de novas palavras, muito utilizado por Guimarães Rosa?”

Envie um e-mail para carlaguedes@makaehcult.com, respondendo a pergunta acima corretamente, e concorra ao livro da nossa dica de hoje! O resultado estará disponível na próxima matéria da coluna de Literatura.

Até lá, e Boa Sorte!
Carla Guedes