Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto: nunca em detalhe.
Não se vê nenhum termo, nela,
em que atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave. (…)
(Escritos com o Corpo – João Cabral)
Abrindo 2009 com chave de ouro as atividades literárias do Projeto Palavra Expressa, na última quarta-feira, às 18h, aconteceu na Biblioteca Municipal Dr. Télio Barreto a extraordinária oficina literária Razão rosa: João Cabral & o feminino.
Ministrada pelo grande mestre Gerson Dudus e com duração aproximada de quatro horas (que por mim, estendiam-se por mais poemas e poemas afora…), quem compareceu ao banquete literário em nada teve do que reclamar. Muito pelo contrário; fica o gosto de quero mais.
O ofício da noite foi passear com olhar crítico pelas obras de João Cabral, buscando sempre a forma como olhava o feminino e a linguagem-mulher. Oficina é ofício, assim como poiesis, que significa feitura, criação. O ofício de desmistificar o olhar, de reencontrar o olhar de João Cabral em suas esculturas de linguagem.
A mulher, como escrevi em outras reflexões neste espaço, vive na poesia suas mais diversas formas de representação. Ora como uma santa beatificada de formosura, ora como um instrumento insensato de pecado, ora como retrato humano de sonho e sofrimento… E em João Cabral, como a encontraremos retratada?
João Cabral de Melo Neto (1920-1999) é poeta de alta estirpe, um refinador nato de palavras. Sua poesia, preenchida por uma tácita racionalidade, não deixa, em tempo algum de sensibilizar as idéias. É o poeta das sensações concretas, da poesia substantivada ao invés das adjetivações, preferindo o sensorial ao abstrato.
É nesta capacidade de entendimento da palavra, que veremos uma peculiar forma de entrever a mulher. Apesar de contido, racional ou sem extravasa-mento, acaba vazando de João Cabral um delicado traçado que contorna firmemente o perfil feminino. E assim vemos, como nos poemas Rio e/ou Poço, Mulher Vestida de Gaiola e Uma Ouriça, escritos profundos e sensibilizados sobre as múltiplas faces femininas.
Em se falando de mulher, acostumados que somos com um outro grande mestre, o Vinícius de Moraes, fazer poesia de mulher é também falar de sua beleza, uma beleza lânguida, extremamente acercada de desejo. E neste quesito, João Cabral se mostra inquietante, traduzindo o desejo e o sensorial com classe nunca dantes vista. Permeia o degustativo e a natureza, em Jogos Frutais; delineia o delicado e o fluídico em Imitação da Água; constrói a frase mais bela e feminina com Mondrian’s e sintaxes em Escritos com o Corpo; sem deixar, em tempo algum ser lírico demais, sentimental, ou adocicado.
Nele, a palavra impossível de poema, a palavra já gasta e invariável pode ser reinventada, como em A Palavra Seda, porque foge do lugar-comum. O feito de arrancar da linguagem tudo aquilo que viciou o poeta e a poesia é trabalho grande que ele faz com primor. Repensar a forma.
E para João Cabral, é tudo verdadeiramente poiesis… O feminino singular.
Sobre o Projeto Palavra Expressa: O projeto é na verdade um fomento à atividade literária no município, trazendo diversos eventos e comemorações ligados às letras. Chefiados pelas poetisas Carla Pereira e Rosane Machado, e com apoio e participação de vários outros escritores e poetas ligados à cidade, nos brinda sempre com benditas surpresas. Sejam palestras com autores, lançamentos de novas obras, manifestos literários, saraus de poesia e/ou oficinas interessantíssimas. Como esta.
Plá da Semana
Ainda pelo Projeto Palavra Expressa, acontece neste sábado, dia 21/03, um evento pelo Dia Mundial da Poesia, promulgado pela Unesco. Além do Varal Poético, com poetas macaenses, haverá uma Procissão Poética comemorando, com o Congresso Mundial Indígena no Brasil, a cura da Mãe Terra, pela vida e pela paz. A concentração do evento está marcada para sair às 10h, da Praia dos Cavaleiros, em frente ao Comfort Suites. Participe!
Até a próxima!
Carla Guedes

















