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Papel e Lápis: Apontamentos – Parte I

Literatura

Gosto é o que há de mais imprevisível no ser humano. Pode-se dizer que é uma das coisas mais curiosas. Se acontece uma divergência de gostos com um filme, uma comida ou um hobby, tão frequente é também com um livro.

Artigo Primeiro; Parágrafo único:
- Ninguém é obrigado a gostar de um livro; sendo livre, inclusive, para desgostá-lo.

Lápis e Caderno

Pois é. Apenas não gostar daquele bendito livro (de capa até bonita e autor consagrado…) pode acontecer. Já aconteceu comigo inúmeras vezes, e já deve ter ocorrido com você também, caro leitor. No fundo, chego à conclusão que é uma questão de sorte, hora, lugar, posição dos astros e humor (se você até hoje nunca leu um livro que gostasse e por isso diz que detesta ler, auto lá: não há azar assim tão grande, ou mau humor que dê).

Começar a ler um livro que alguém adorou, até te indicou com entusiasmo, e não gostar dele – do princípio ao fim – é algo constrangedor. Quando é assim, paro até mesmo antes da contracapa chegar.

Daí começam as indagações existenciais: será que há algo de errado comigo? Será que não consegui captar a essência? O que todo mundo vê nesse livro de tão bom assim? Mas eu achei a narrativa mal costurada, chata mesmo…

Com o passar do tempo, fui aprendendo que simplesmente não há nada de errado em pensar diferente. Na verdade, nossos olhos são bem diferentes dos olhos dos outros; fixamos nossa atenção em novos detalhes, ampliamos ou damos foco no que achamos essencial… Por isso, mais que uma questão de íris: é questão de cuca e gosto; e pronto.

Mais do que normal, portanto, não gostar de determinado livro de primeira, e aclamá-lo numa releitura cinco anos depois. Você passou a enxergar coisas diferentes após 5 anos, pois adquiriu experiências diferentes nesse período. Mais que normal também você detestar aquele livro odioso até ficar velhinho, porque você vai sempre pensar assim sobre determinados assuntos.

Na escola, há muitos que sofrem com as indicações dos professores. Primeiro, que ler um livro por “obrigação” (com prazo de término e ainda com uma prova sobre) não é algo que te deixa muito à vontade. Segundo: você é obrigado a ler até o final uma obra que você nem gostou tanto. Eu sempre adorei as indicações; elas sempre me foram motivo de várias descobertas maravilhosas: conheci o Machado de Assis assim.

Mas teve um, um único dos tantos, que não me desceu bem pela goela. Não sei o que não deu certo entre eu e o Policarpo Quaresma, só sei que o seu Triste Fim me acabou sendo traumatizante. Paciência. Um dia tentarei relê-lo com mais carinho (que ainda está lá na estante esperando), e quem sabe não descubro algo de melhor.

E olha, a indicação de um livro é tarefa árdua. Até porque você tem de estar preparado para receber uma negativa. Certa vez, li uma opinião na Internet sobre um livro que eu tinha acabado de ler. E eram impressões totalmente opostas! Eu mesma havia mergulhado na narrativa, vivido as descobertas mais geniais… e a resenha sobre, falava que ele era altamente desgastante. Vai saber…

No fim, que opinião é certa? As duas! Um livro é pra mim aquilo que me faz sentido, e foi pra outra pessoa aquilo fez sentido (ou deixou de fazer) para ela. As vivências foram verdadeiras para cada um dos leitores. Gozado como são inextensíveis as experiências literárias.
Logo, nada mais justo que o Artigo Primeiro: “Ninguém é obrigado a gostar de um livro (…)”.

E acho que aqui cabe uma Emenda: “Só será válido e aplicável se especificado o motivo do desgostança”. No fundo a gente aprende muito mais sabendo o porquê de não gostarmos do que não sabendo o por que gostamos.

Plá da Semana

Jornal Plástico Bolha

E de repente – Ploct!- nasce uma idéia literária. Assim também nasceu o Jornal Plástico Bolha, periódico literário da PUC. Dedicado em seu início a poetas universitários, com o tempo ele se estendeu a quem mais tem estouros de criatividade. O jornal é impresso, mas no site encontramos todas as edições, desde o primeiro número.

Um grande abraço,
Carla Guedes

Ano Novo, Feliz Ortografia Nova!

Literatura

Ano novo, vida nova… e 2009 começa com mais alguma coisa de nova: a ortografia. Infelicidade para alguns, curiosidade e cautela a outros. No fundo, reaprendizado a todos.

Grafismos

A língua portuguesa vem passando por um longo e novelesco processo de comum acordo. A estória é antiga. Remonta desde como nasceu nossa língua-mãe e sua adoção nos países colonizados, até a atual influência geopolítica da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), que é formada pelos oito países independentes que possuem o português como língua oficial: Portugal, Angola, Moçambique, Brasil, Cabo Verde, Timor-Leste, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

Lá pelos idos dos séculos XIII à XVI, havia a prática da escrita baseada na pronúncia. Entretanto, isto causava uma grande divergência (lembra dos ditados?). O mesmo som pode ser representado de formas muito diferentes, como exemplificado em asa e azar; uma grafia pode representar muitos sons distintos, como o caso do xis: som de ch em xícara, e som de z em exame.

Do Renascimento, até o começo do século XX, surgiu um novo movimento, estando a buscar uma grafia mais consoante com as origens grega e latina dos radicais. Foi a era da ortographia etimológica, onde desfilaram palavras como theatro e pharmácia

Com a transformação de Portugal em república, no início do século XX, surge a necessidade de uma ortografia homogênea em solo lusitano (para regimento de ofícios, aplicação nas escolas, e manutenção do espírito nacional). Em 1911 é feita a primeira Reforma Ortográfica, proposta por Portugal e promulgada em lei.

Ao tentar aplicá-la em outros países lusófonos, Portugal recebeu veemente recusa do Brasil. Ao longo século passado, foram inúmeras as tentativas de aproximação, com a criação e Formulários e Acordos Ortográficos não aceitos por ambas as partes.

O responsável pelas mudanças atuais é o Acordo Ortográfico de 1990, como mais uma tentativa de uniformização da língua. Posto em vigor neste ano no Brasil, haverá um quadriênio para adaptação, que durará até 2012. Nesse período, o uso é facultativo, mas a partir de 2013 a regra é pra valer.

No nosso caso não será muito traumática: a reforma afetará apenas 0,5% das palavras e traz mudanças apenas no uso dos sinais, hífen, alfabeto (k, y, w) e sumiço do trema. Já em Portugal o índice sobe para cerca de 1,5%, já que serão abolidas as sequências consonânticas não pronunciadas, como os famosos óptimo, contacto, Egipto… Em todos os casos, não haverá alteração de pronúncia.

Mudar é difícil, principalmente quando já se está acostumado. Nossa memória ortográfica é baseada unicamente no quanto utilizamos certas palavras. É muito mais que uma questão de gravar regras: é o quanto escrevemos ou vimos escrito o vocábulo (lemos). Por isso, quando bate aquela dúvida se a palavra é com s ou z, ss ou ç, significa que não estamos acostumados a grafá-la, e nossa memória ortográfica falha.

Por enquanto o seu uso é apenas facultativo, mas fique atento em concursos e vestibulares; a regra será duramente cobrada se for pedida no edital. Se o uso for livre, nada de misturar as grafias nova e anterior: ou uma, ou outra.

Muitos sites e jornais, além de dicionários e livros já estão migrando para as mudanças recentes. Se puder, pratique desde já, assim será bem mais fácil quando for obrigatória. Como disse, a reforma só afeta uma pequena parte das palavras. Procure estar por dentro: só se aprende praticando.

Falamos unicamente nas implicações gráficas da Reforma, mas os impactos são ainda mais profundos. Não se trata de um simples preciosismo linguista: todos estes processos têm sempre uma conjuntura político-econômico-cultural por detrás. A briga ortográfica histórica sempre foi uma questão diplomática entre colonizados e colonizador, e a língua é uma marca evidente dessa relação.

A Reforma Ortográfica reforçará eixos econômicos e políticos entre os países lusófonos, inclusive no intercâmbio com outros blocos econômicos. Tanto no comércio de publicações editoriais e substituição do estoque de livros em relação aos países do continente africano, quanto no compartilhamento de pesquisa científica e fortalecimento da CPLP frente às outras comunidades.

Além disso, reforça a campanha de o português ser uma das línguas oficiais da ONU, já que documentos em português têm de ser duplamente redigidos: português de Portugal e português do Brasil.

Ainda não superamos de todo a última Resolução Ortográfica. Ainda vejo por aí grafados flôr, êle, côco… Quando nos acostumaremos à nova ortografia? Neste ano, os livros didáticos serão substituídos, nossas crianças já estarão sendo alfabetizadas pela nova regra. E criarão suas memórias ortográficas…

Plá da Semana

Michaelis

Para saber mais sobre tudo isso… visite o site oficial da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ou baixe o arquivo PDF com o Guia Prático da Nova Ortografia – Michaelis.

Guia da Reforma Ortográfica

Um grande abraço,
Carla Guedes

Aquilo que vale à pena

Literatura

“O ‘Chá de Letrinhas’ foi uma das experiências mais encantadoras que tivemos em 2008. (…) sentimos a alegria de poder abrir janelas de novos horizontes, através dos livros doados.” - Marilda, em comentário ao blog Livro Errante

Mais um ano chega ao fim. Daquilo que vivenciamos, lemos e experimentamos, ficam os melhores aprendizados. É certo que a leitura e a formação de leitores no Brasil, como um todo, está ainda muito longe do ideal. Apesar de tudo, as mais simples iniciativas são um raio de esperança e mostram que tudo pode e deve mudar!

Nesta última matéria da coluna de Literatura este ano, é mais que justo homenagear um projeto que começou no ano passado e rendeu muitos bons frutos em 2008. Nascido na comunidade do orkut, Livro Errante, o Chá de Letrinhas recrutava Madrinhas e Padrinhos Errantes para a doação de livros a alunos da 3ª série da Escola Municipal Antônio Sérgio Teixeira, em Poços de Caldas, Minas Gerais. Nesse recrutamento solidário interagiram pessoas de todo o Brasil.

Para falar do projeto, entrevistamos a Profª Lívia Garcia, que ao longo deste ano letivo pôde ver de perto as surpresas, emoções e curiosidade de seus pequenos leitores!

Conte-nos um pouquinho de sua experiência com a Literatura…

Meu nome é Lívia Garcia. Desde pequena fui envolvida no mundo letrado através de histórias, poesias e “causos”, típicos de nossa região. Tenho como referência principal, minha tia Ruth, que desde cedo recitava poesias. Os “recitais” eram comuns quando pessoas da sociedade e da própria família iam nos visitar. Meus primos e eu recitávamos poesias enquanto minha querida avó dedilhava no piano lindas músicas e minhas tias lhe acompanhavam cantando. Já minha formação acadêmica seguiu os passos de outra tia; a tia Beatriz que me fez encantar com a sala de aula, vendo seu magnífico trabalho de alfabetizadora. Hoje sou professora da Rede Municipal em Poços de Caldas há 4 anos.

Como nasceu o Projeto?

O projeto do “Livro Errante” foi apresentado à escola pela minha vice-diretora Cláudia, no início de 2008. Ela nos mostrou a comunidade no orkut e disse que pessoas maravilhosas iriam mandar livros. No início o projeto estava direcionado para alunos da fase introdutória de alfabetização, mas como eu adoro novidades, resolvi entrar no projeto com meus 32 alunos de 3ª série. Assim que os livros foram chegando à escola, eu apresentava para as crianças e fazia um mistério para deixarem curiosos para ler. As crianças escolhiam o livro, e após feita a leitura, contavam para os colegas, na intenção de deixá-los interessados a ler também.

De onde surgiu o nome que o batizou?

O projeto “Chá de Letrinhas” foi uma releitura do projeto executado pela professora de Português, Andrea. O original chama-se “Chá com Letras” e, como o nosso é direcionado aos pequenos, colocamos o título no diminutivo também.

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A Arte de Ler

Literatura

“A pena está para o pensamento assim como a bengala está para o andar.” - Arthur Schopenhauer

Já havia me prometido que não adquiriria mais livros enquanto não lesse a maioria dos que eu tenho (a mancheias). Entretanto, fazer-me esta promessa, não significa deixar de dar uma “olhadinha” em uns livros por aí… E foi em uma recente olhadela dessas que a obra A Arte de Escrever, do filósofo Arthur Schopen-hauer (1788-1860), veio parar em minhas mãos.
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Bastou ler a sinopse de contracapa, para devorá-lo:
Embora redigidos na primeira metade do séc. XIX, estes ensaios, ao tratar sobre o mundo das letras, os vícios do pensamento humano, as armadilhas da escrita e da crítica, continuam válidos – hoje talvez mais do que nunca.

Interesse à primeira linha, este livreto de cento e poucas páginas furou a gigantesca fila de espera de obras encarecidas de leitura. Afinal, por que o interesse? – irás me perguntar. Ora, ora! Em tempos de best-sellers, é bom ouvir o que esta aclamada (e controvertida) voz do passado tem a dizer sobre o ofício, ou o melhor, sobre a arte de literar.

Admirador de Goethe; crítico ferrenho de Schelling e Hegel; influenciador de Nietzche, Thomas Mann e Liev Tolstói; Schopenhauer distribui críticas e mais críticas ao longo do livro. Porém, no meio de tantas alfinetadas, é possível recolher preciosas tiradas, se deixarmos de lado seu puritanismo lingüista e as desavenças pessoais de seu tempo.

Importante questão abordada em relação ao hábito da leitura é o que ele chama de “a arte de não ler“. É isto mesmo o que você leu! Não ler. E este estranho conceito traz duas implicações lúcidas. Uma é a atitude crítica do que não escolher para ler, principalmente as obras das abomináveis listas de mais vendidos. Outra é a cômica, mas verdadeira: “Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto!”

Na atitude de escolher o que não ler, é importante ter senso. Quem escreve para encher o papel engana o leitor, fingindo que escreve. Que por sua vez engana o autor, fingindo que lê. Chega a ser radical, aconselhando a se jogar fora tal livro, mas, não vamos contribuir para o sacrifício de mais árvores. Basta dizer seu ‘não’ deixando de contribuir à máquina capitalista.

Outra coisa: é melhor ler os verdadeiros autores. Nada de obra sobre a obra da obra… Vá direto à fonte! “É melhor comprar livros de segunda mão do que ler conteúdos de segunda mão.” Você tem plena capacidade, tanto quanto os outros autores, de assimilar a essência do texto integral.

Agora, sobre a leitura em demasia, seria muito bom comprar livros se fosse possível comprar junto o tempo para lê-los. Eu mesma caí nessa armadilha, e nunca tenho o tempo suficiente. Entretanto, a crítica vai mais fundo: quem lê muito, quase o dia todo e não pensa por si mesmo nos intervalos, com o tempo a capacidade de pensar por si mesmo só tende a diminuir! Você estará pensando (repetindo!) pensamentos de outros. É preciso a ruminação do conteúdo. Só assim chegamos ao aprendizado e à retenção do que é válido.

Quem lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes (…)”

Mais uma vez, faço apologia ao discernimento entre literatura unicamente comercial e literatura de qualidade (aquelas que sobrevivem a despeito dos séculos: os famosos clássicos). É certo que toda e qualquer literatura é válida, desde que filtrada por sua retina crítica e pensante. É certo também que há literaturas consideradas comerciais que são ótimo lazer.

Mas, mesmo que você leia pouco (não sendo um desses exemplos bibliófilos acima citados), leia com consciência e qualidade. De resto, exercitando a boa leitura, você de olho vai saber escolhê-las (não só pela capa, ou por indicações editoriais). Numa era em que fórmulas prontas pra vender superam o amor às palavras, é bom de vez em quando rever os conceitos do que você traz nos escaninhos do pensamento. E na estante.

Grande abraço, e um Feliz Natal antecipado!
Carla Guedes

Septuagenárias Vidas Secas

Literatura

Agora Fabiano era vaqueiro e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado… – trecho de Vidas Secas

Sol escaldante. É num dia tórrido que caminham Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, menino mais moço e Baleia (a cachorra). Entre eles e Baleia, pouca ou nenhuma diferença. A mesma fome, o mesmo destino: são retirantes. Vidas Secas, romance que este ano completa 70 anos de publicação, é um desses marcos na memória. Sua leitura nos deixa vincos, como os rostos vincados de sua estória.

Devemos a Graciliano Ramos (1892-1953) os grandes clássicos da literatura brasileira: São Bernardo, Angústia, Memórias do Cárcere, e, nosso objeto de reflexão de hoje, o romance Vidas Secas. Nascido no sertão alagoano, ele teve a sua vida pautada por acontecimentos políticos. Foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL) e militante do Partido Comunista, tendo sido preso. Iniciou sua carreira literária somente à meia idade: Caetés, seu romance de estréia foi publicado apenas em 1933.

Graciliano sempre foi considerado um homem de caráter duro, de poucas palavras; como um “mandacaru escrevendo“, disse Oswald de Andrade. Mas certamente, como define Otto Maria Carpeaux, “a alma deste romancista seco, não é seca“, visto que em sua obra há implícita a crítica social à pobreza do sertão nordestino. Mostra um Brasil excluído dentro do próprio Brasil: a segregação regional. Ponto alto da Literatura Regionalista.

Visceral. Assim pode ser definido o personagem Fabiano, homem tão ligado às coisas da terra que às vezes se confunde a ela. “Fabiano, você é um homem“; “Você é um bicho, Fabiano“. Construído a partir de monólogos psíquicos e não lineares, a  obra se desengasta no desenrolar de uma fuga. A fuga do sertão castigado pela miséria, pela falta de trabalho, pela falta de dignidade.

Fabiano sonha um dia com “os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias“. Sinhá Vitória sonha com “uma cama real, de couro e sucupira, igual à de seu Tomás da bolandeira.” Sem nódulos no estrado. E assim seguem, rumo ao sul, em trapos, fome e sol castigante.

Em suas obras, Graciliano sempre fora muito meticuloso, eliminando os excessos, frases feitas e tendenciosas; o lugar-comum. Daí se explicam suas poucas palavras, que apesar de escassas, têm um caráter marcante e reverberativo. Em suas próprias:

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer (…) A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.

Quando eu leio ou estudo Vidas Secas, torna-se impossível não fazer um paralelo de temas e condições sociais com o romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, grande escritora a quem Graciliano muito admirava. Sem dúvida, os universos abordados são quase sobrepostos.

O mesmo sofrimento, mesma resistência. Diferem, sem dúvida, na estilística. Em O Quinze há a presença do tempo cronológico, e da narrativa lirista. No mais, nos dois grandes romances há a fatalidade, há a condição subumana.

Uma personagem muito querida é a cachorra Baleia, e aqui uma contradição. Pretende-se supor que há certa humanização do personagem. Entretanto, vendo um pouco mais a fundo, percebe-se que há uma inversão: em meio à animalização da condição humana, o animal se torna até mais antropo-morfizado.

Setenta anos de Vidas Secas, e o romance continua tão vivo com suas vidas moribundas… É a ferida que permanece aberta das secas vidas que lutam diariamente contra a secura da morte. É um livro de um marcante lirismo amusical, estático, negativista, mas de uma beleza e emoção grandiosas.

E o mestre nos deixa a lição: talvez, nas poucas palavras é que conseguimos a síntese da tragédia humana, do mistério dos que se sentem sozinhos em meio à caminhada da busca de dignidade.

Setenta anos muito bem vividos de uma grande obra.

Plá da Semana

O Verão do Chibo, de Emilio Fraia e Vanessa Bárbara
120 páginas – Ed. Alfaguara

Quatro mãos: desta destra associação de dois jovens escritores nasceu uma obra inconfundível. O Verão do Chibo é um verão em meio à um milharal, um verão em meio à uma guerra de traidores e traídos: infância versus o amadurecimento. Em um mergulho profundo, revela-se o promissor horizonte desta nova safra de escritores brasileiros. Recomendo!

Um grande abraço!
Carla Guedes

A sina do velho Novo Jornalismo

Literatura

Olhamos para ele, boquiabertos e quase sem fôlego. Naquela situação, não contamos ao doente as horas que passamos.” – Revista piauí

Para o fenômeno há muitos nomes: Jornalismo Literário, Novo Jornalismo, Reportagem-ensaio, Literatura da Realidade. Em suma, o que tudo isso invoca é o jornalismo do dia-a-dia tecido com a arte da palavra: a literatura.

Sabemos que o jornalismo em si não é literatura, pois trata antes de fatos crus, e sem subjetividade. Tem maior preocupação em informar do que ser arte. Entretanto, pela ótica do Novo Jornalismo, literatura e informação podem sim serem aliados.

Nele, a notícia não é somente construída por fatos objetivos; como, onde, quando, ou o quê. Passa antes pelo tratamento subjetivo do repórter-autor, que, procurando ser fidedigno ao real, descreve uma observação um pouco mais literária (ou lírica) do acontecimento.

“…Mais que uma técnica narrativa, o JL é também um processo criativo e uma atitude (…) fatores que o projetam, hoje, como alternativa (óbvia) para arejar os conteúdos de jornais e revistas, principalmente, mas também de documentários audiovisuais, radiofônicos e até sites.” - Vilas Boas

Tudo começa na década de 40, e um começo contravertido. Uns consideram Trumam Capote e seu A Sangue Frio o grande marco, já outros, o anterior Hiroshima, de John Hersey (ambos autores estadunidenses). Entretanto, um novo estilo não é medido por um único marco, mas sim por uma corrente expressiva de novas produções que comunicam entre si, em um processo gradual.

Aqui no Brasil a imprensa passou a praticar esta modalidade de produção nos anos 60, ecoada nas publicações de revistas como Realidade e O Pasquim, até hoje muito saudosas por seus contemporâneos. Cabe lembrar que desde muito antes do pioneirismo estadunidense, ainda em 1897, nosso Euclides da Cunha, publicando Os Sertões em artigos no jornal O Estado de São Paulo (e em 1902, o livro) pode ter de fato realizado uma obra com as características próprias no Novo Jornalismo.

Em Os Sertões, “escrito nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante”, Euclides se envereda romanceando os fatos que vivenciou na Canudos de Antônio Conselheiro, mudando a perspectiva de que se tinha da Revolta, humanizando os acontecimentos e questionando a intervenção do Estado.

Apesar do nome Novo, vê-se que não é de agora o movimento (embora nos últimos tempos a corrente tenha sido ressuscitada com lançamentos aqui). As revistas Brasileiros, piauí,  e Rolling Stone Brasil, são em si bons exemplos.

Curiosa, passei a acompanhar alguns números da Revista piauí, que é mensal. O fato de ser mensal, não anula a informatividade. E por ser mensal, a leitura rende mesmo pelo mês todo. Densa e de qualidade (não sem um pouco de hermetismo), a proposta tem peculiaridades que garantem sucesso. Os textos são envolventes, criativos, profundamente ligados com a responsa-bilidade social, e que permitem a reflexão dos fatos.

Entretanto, pensando sobre o drama de estarmos num país de não-leitores, ou ao menos num lugar onde uma parcela ínfima tem acesso à literatura, pergunto a quem se direciona o Jornalismo Literário. Sim, porque apesar de tudo, tudo ainda parece distante, um sonho quase intelectual.

Diferente do que ocorre em outros países, onde a literatura é só mais um joguete de mercado, acredito em outros parâmentros. É muito triste fomentar a leitura somente para transformar o livro em mais um objeto de consumo, cercado de marketing, capas chamativas nas prateleiras; ler os famosos best-sellers porque todo mundo leu, e no fim, consumir, consumir, e consumir…

Não. Ler vai muito além disso. É uma questão de cultivo de si mesmo, de se apropriar de ferramentas de transformação. Talvez a reflexão proposta no Jornalismo Literário, a emoção integrada aos dados frios, nos transforme em melhores leitores quotidianos, em melhores humanos. E chega daquela idéia de que ler o primeiro parágrafo de cada notícia nos deixa “informados”.

A informação vai além. A literatura, também. No fundo, uma pausa de reflexão na era da fast-informação.

Um grande abraço,
Carla Guedes

Leitura no Brasil: Alguns Flashes

Literatura

Dia 29 de Outubro foi comemorado o Dia Nacional do Livro, e não podemos passar sem honras à comemoração desta semana. A propósito, o dia fora escolhido em homenagem à Biblioteca Nacional, pois que “a 29 de outubro de 1810, o Príncipe Regente determinou que no lugar que servia de catacumba aos religiosos do Carmo, fosse erigida e acomodada a Real Biblioteca no Brasil”…

O primeiro livro publicado pela Imprensa Régia aqui no Brasil consta de Marília de Dirceu, com poemas de Tomás Antônio Gonzaga à sua musa, Maria Dorotéia. Apesar disso, somente no ano de 1925, com os impulsos do escritor Monteiro Lobato para a criação da Companhia Editora Nacional, que houve uma pequena revolução no mercado editorial.

Este ano, mais uma vez, repetimos a pergunta que nunca cala: festejar o quê?!

Tempo, principalmente, de balanços. O Instituto Pró-Livro e o Observatório do Livro e da Leitura apresentaram dados recentes na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, uma espécie de perfil do leitor brasileiro (ou também, do não leitor) no ano de 2007, e que de boa reflexão.

Na pesquisa em questão foram registrados alguns avanços em relação à última edição, que data de 2000. Nisso há alguma alegria, mas os avanços, como sempre, não são suficientes. Nas palavras de Galeno Amorim, “só não dá para parar para festejar porque há um chamamento nacional para pôr as mãos à obra.”

A realidade é crua. O tempo dedicado à leitura é baixo (a grande maioria, de 1 a 3 horas semanais); 48% dos entrevistados não haviam lido um livro há pelo menos três meses antes da pesquisa, e a média de livros comprada por ano é de 1,2 livro por leitor. Soma-se a isso a baixa renda, a dificuldade de acesso, e principalmente, a falta de incentivo (próprio e externo).

Uma boa surpresa é o aumento do índice de leitura. Outra é a preferência dos leitores pela poesia. Este dado deixa um grande ponto de interrogação, já que a dificuldade de publicação e venda nesse gênero é enorme. Fica aí um bom campo a ser trabalhado pelas editoras, divulgadores e livrarias.

Fatos em números? Aqui vão alguns deles:

Dificuldades de leitura: 17% lêem muito devagar; 7% não compreendem o que lêem; 11% não têm paciência para ler; 7% não têm concentração.

Ausência de leitura: 54% por falta de tempo; 34% têm outras preferências; 19% por simples desinteresse; 18% por falta de dinheiro; 15% por falta de bibliotecas.

No ranking de preferências, a leitura aparece em quinto lugar, logo após assistir televisão (com esmagadores 77%), ouvir música, ouvir rádio -notícias- e descansar (50%).

Há a pertinente reclamação de falta dos “pontos de venda”, requerendo uma melhor manutenção e fomento de livreiros e livrarias. Com irrisórios 2%, a venda pela internet nem tão cedo chegará à maioria da população, e, se chegar, não substituirá o contato e uma boa prateleira.

Vê-se que há um grande problema de acesso aos livros. Mas, mesmo tendo-os ao alcance, falta a descoberta, o prazer. É sabido também que a escola, querendo ou não, torna o livro um objeto chato e obrigatório. Assim, quando o aluno finda os estudos, faz questão de manter certa distância da leitura, desconhecendo a diversão que é se aventurar pelo próprio imaginário…

Mas, o trabalho de reversão desta imagem só está por começar. Cabe a nós redescobrir a importância cultural e social da leitura, e contagiar a todos ao redor. A iniciativa pra mudança começa no micro: presenteie com um livro, doe alguns já lidos, dê ao seu amigo a dica daquele livro que marcou sua vida, leia uma estória para alguma criança. Assim, sempre garantiremos um feliz Dia Nacional do Livro!

Plá da Semana

Este é o Meu Corpo, de Filipa Melo
135 páginas - Ed. Planeta

Este é um desses livros inquietantes e apaixonantes. Romance de estréia da jornalista angolana, trata de muitos corpos; vivos e mortos. Tudo gira em torno de uma trama, e um assassinato, trazendo, em cada observação, por mais crua que pareça, uma sensibi-lidade estonteante.

Uma ótima semana, e até!
Carla Guedes

Mas este capítulo não é sério

Literatura

“A língua é o que nos une.” – frase de entrada do Museu da Língua Portuguesa

Mais um dia frio e cinzento em São Paulo. Com um mapa do metrô nas mãos, uma câmera fotográfica e algumas referências, parto ao meu destino. No metrô, sentado ao meu lado, um senhor idoso lia tranquilamente seu jornal.

Tento dar uma espiada para tentar ler qualquer coisa. Entretanto, para meu espanto, não consegui decifrar uma notícia sequer do periódico: todas, absolutamente, grafadas em japonês! Senti-me completamente analfabeta.

“— É aqui.”, me diz educadamente o senhor do jornal, três estações depois. Agradeço-o alegre e desço, finalmente, na Estação da Luz. Embora suas particularidades, ainda falamos a mesma língua neste mesmo solo.

O Museu da Língua Portuguesa é um prédio amarelo e conservado, que se espicha com sua torre-relógio até o fim da esquina. Adorável de se contemplar. Meus olhos e minha câmera não se cansam de registrá-lo.

Portão 1, bilheteria, elevador. Já no elevador, o clima. Ao som de fundo, o poeta Arnaldo Antunes cantarola seus músicos versos. Primeiro andar, o andar das Exposições Temporárias. Como já sabia de antemão o que estava em cartaz, aumenta meu contentamento: “Machado de Assis, mas este capítulo não é sério”; que fica ainda até 26 de outubro à mostra.

Ao entrar no espaço, a impressão que se tem é de estar em um livro aberto, onde o conto é a própria vida-obra de Machado: cada ambiente um capítulo; e eu, o “caro leitor”, bisbilhoto os acontecimentos.

Logo de início leio a “Advertência”, a mesma que Machado evoca na introdução do livro Papéis Avulsos. Relembro-me da responsabilidade de ser leitor, ainda mesmo que bisbilhoteiro.

Na meia-penumbra, vagueio por entre as salas. Aqui, um piano que executa sozinho algumas sonatas (como no conto Trio em Lá menor, a vida em andamentos musicais); logo adiante, chapéus flutuantes, de onde uma voz entoa um trecho do conto Bons Dias!. Os meus olhos pousam na caligrafia de documentos de época, meus dedos curiosamente apertam botões no caminho, para ouvir o que os alto-falantes têm a dizer…

Uma pausa para ver-ouvir-sentir uma projeção. De plena São Paulo, sou projetada à Rua do Ouvidor. Retiro-me comovida, e deparo-me com o Capítulo XIV: Olhos de Ressaca. Muitos olhos me fitam. Olhos das mulheres que Machado captou. Olhos capitolinos…

Vejo também palavras dependuradas num painel, e no centro da sala, um jogo de xadrez. Das palavras não tenha dúvidas: vez ou outra você as garimpa pelas páginas de Machado de Assis. Quanto ao xadrez, jogue com cuidado. Muito se escreve sobre o escrito. E a própria escrita já é um jogo cauteloso.

Virando a página, no Capítulo O Vergalho, observamos a face cruenta da escravidão. Mais à frente, deparo-me com um rolo enorme de papel. Sigo-o até o corredor, e chego à câmara da Sandice, da qual ninguém escapa….

Ah, o Irreal Gabinete de Leitura! É aqui onde relembro minha inesquecível visita ao Real Gabinete Português de Leitura, onde os olhos e o coração se encheram de livros e alegria. Agora em Sampa, carrego a eterna saudade, e adentro uma escura sala de projeções. Nela, um irreverente leitor faz da leitura uma inflexão. Entrando no País Misterioso, a partida de Machado. Um cortejo e um espelho: admira-me contemplar tantas imagens de mim e dos outros.

Antes de desembocar no Largo do Machado, passa-se pelo derradeiro Capítulo do Delyrio; a ilusão mais que presente de personagens que o Bruxo do Cosme Velho deu a vida, e da sua própria vida, sempre muito infundida ao conto de viver. Nele compreendemos que o Delyrio pode não ser irrealidade, e que caminha junto aos disparates de ver-se lendo o outro, de alongar a vista pela visão do passado, de descobrir-se, quem sabe, personagem.

Deixo na saída minha assinatura, e acolá um sorriso absorto de emoções evocadas. Tomo as escadas e sigo aos segundo e terceiro andares. Mas estes são outros capítulos…

Acesse o álbum no Orkut para poder ver as fotos do passeio pelo museu.

Plá da Semana

São Paulo fica um pouquinho longe de Macaé, eu sei. Em média, gasta-se na estrada umas 9 horas. Mas, surgindo qualquer oportunidade, não a perca! Para visitar: Museu da Língua Portuguesa - Estação da Luz, Praça da Luz – São Paulo, SP.

Visitação de terça a domingo, das 10h às 17h (bilheteria). Ingressos por R$ 4 (estudantes pagam meia-entrada). Na primeira terça-feira do mês, a entrada é franca. A exposição temporária “Mas este capítulo não é sério”, no primeiro andar, fica aberta ao público até o dia 26 de outubro. Nos outros andares, muitas outras surpresas da língua portuguesa!

Um grande abraço,
Carla Guedes

Literatura e o Propósito Político

Literatura

“A opinião de que a arte não deveria ter a ver com política é em si mesma uma atitude política.” - George Orwell

Semana de decisão nas urnas, a coluna Literatura não poderia ficar de fora das discussões suscitadas, assim como nós vimos a intersecção do Meio Ambiente, da Tecnologia, da Música e do Cinema com a política (tudo o que fazemos e pensamos é, de certa forma, política, no amplo sentido do termo). A Literatura também tem um forte engajamento com as questões quotidianas, e as obras incessantemente interagem com o período político vivido no momento em que foram escritas.

Assim como os leitores são dos mais variados, os escritores também o são. Existem os escritores do devaneio, do mundo do intelectualismo e da fantasia; e existem os escritores da realidade, da dura e desencantada realidade. Há aqueles que escrevem para mudar o mundo; uns o seu próprio mundo, devastando as suas incertezas e desconhecimentos interiores; já outros, o mundo externo mais amplo, espalhando utopias e apregoando ideais de mudança.

O que dizer da relação Literatura/Política? Não estão ambas encharcadas de visionarismo e cercadas pela realidade? A politização da literatura geraria um empobrecimento da arte? Afinal, arte pela arte, ou arte pela humanidade?

George Orwell, célebre escritor de A Revolução dos Bichos exemplifica bem os impulsos da escrita, classificando-os em quatro:

 ”1. Puro egoísmo: O desejo de ser engenhoso, de ser comentado, de ser lembrado após a morte, de se desforrar de adultos que o desdenharam na infância e por aí afora. É uma falsidade fazer de conta que este não é um motivo forte [...].

2. Entusiasmo estético: A percepção da beleza no mundo externo ou, de outro lado, nas palavras e em seu arranjo correto. Prazer no impacto de um som sobre outro, na firmeza de uma boa prosa ou no ritmo de uma boa história [...].

3. Impulso histórico: O desejo de ver as coisas como elas são, de encontrar fatos verídicos e guardá-los para o uso da posteridade.

4. Propósito político: O desejo de lançar o mundo em determinada direção, de mudar as idéias das pessoas sobre o tipo de sociedade que deveriam se esforçar para alcançar.”

Creia: nenhum escrito está isento de contrair, um mínimo que seja, de um de cada desses impulsos. E o quarto motivo é o mais perceptível deles: ninguém está isento de tendências políticas, como nenhum livro é de todo neutro. O escritor, assim como a gente, não está imune à realidade que o cerca, principalmente em tempos de crise. Na contra-mão, principalmente nos tempos de crise é que se levanta a voz da arte, seja como protesto, reflexão ou fuga.

Assim como nem toda obra política é verdadeiramente boa, alguns autores que se enveredaram por ela, conscientes ou não, deixaram importantes legados. Como exemplos de engajamento político de suas épocas, poderemos citar alguns grandes: Castro Alves, que com sua poesia Abolicionista cantou a dor dos escravos e criticou a política escravocrata vigente; Affonso Romano de Sant’Anna que em plenos anos de ditadura publicou corajosos e belos poemas, como o Que País é esse?; Oswald de Andrade com seus ideais anarquistas, e sua inconfundível obra crivada de chavões Vermelhos.

No mesmo engajamento segue Ferreira Gullar, com sua poesia de liberdade e crítica à repressão de 64; e Chico Buarque, que em seus poemas-canção retratou figuras de essencial denúncia social: o camponês de Funeral de um Lavrador, o operário em Samba e Amor, o pedreiro de Construção, os sem-terra de Assentamento, dentre outros.

É na reflexão da leitura e da arte que paramos para reorganizar idéias, esquadrinhar conceitos, concordar ou duvidar das situações expostas. E fazer literatura é arriscar, expondo o que se é, o que se sente e o que se pensa, sabendo que não há isenção completa do meio em que se atua.

Que possamos como humanos e cidadãos construir uma sociedade mais justa, expondo o queremos de melhor: seja através da escrita, da leitura, do debate saudável, ou do voto.

Um grande abraço,
Carla Guedes

2008: o Ano Machadiano

Literatura

“Assim são as páginas da vida, 
(…) e acrescentava que as páginas vão 
passando umas sobre as outras, 
esquecidas, apenas lidas.”

(excerto do conto Suje-se Gordo!, de Machado de Assis)

Falar de Machado de Assis, a quem as páginas nunca passaram esquecidas, é tarefa que beira o prazer. Nele, o prazer de ler torna-se espontâneo, pois Machado, além de esmerado conhecedor da língua portuguesa, era um cômico observador.

Este é o seu ano por excelência. 2008 é decretado o Ano Nacional Machado de Assis. Por um lado, ótimo: choveram publicações sobre a obra do mestre, e muitos ficaram com vontade de reler com mais carinho aquelas obras que só leram à mando de algum professor caxias. Por outro, sabemos de antemão: após a sagração de Machado, todos os anos foram seus.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) teve origem bem humilde. Filho de operário, e tendo perdido a mãe muito cedo, trabalhou e estudou como pôde, nunca em cursos regulares. Aos 16 anos publica na Marmota Fluminense um primeiro poema. No ano seguinte entrou para a Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo.

Foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, sendo suas obras espelhos dos gêneros literários de seu tempo. Se seu início teve características marcadamente Românticas (influenciado por José de Alencar, escritor de Iracema), sua maior contribuição está na inovação que propõe ao Realismo, sendo grande representante e referencial.

Renomadamente foi o fundador da 23ª cadeira da ABL (Academia Brasileira de Letras), e um dos que criaram a Casa, aos moldes da Academia Francesa de Letras. Por mais de dez anos esteve à frente de sua presidência.

Machado de Assis, como enfatiza Josué Montello, não era um homem improvisado. Ele tinha a consciência de que, pra chegar ao ponto em que chegou, era preciso ter o gosto da aprendizagem. Por isso, estudou a língua portuguesa a partir da leitura dos mestres da literatura. Não nos bancos da escola, mas em consultas freqüentes ao Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro.

Por falar em Rio de Janeiro, o Bruxo do Cosme Velho (como também é chamado devido à Rua Cosme Velho, nº 18, onde passou a maior parte de sua vida), retratou o Rio de seu tempo nas observações mais argutas e sutis. Quando vou à Rua do Ouvidor ou excursiono pelas ruas o Centro do Rio, tenho a suspensa sensação de ser uma de suas personagens, ansiando topar com qualquer carro de aluguel, bengala, monóculo, ou o próprio Machado atrás de seu pince-nez. Tal é a profundidade de sua obra em meu imaginário e tal a veracidade com que descreveu e imortalizou seu tempo.

Aviso aos que torcem o nariz ao intentar ler um livro que leva um título de “Clássico da Literatura”: Machado de Assis não dá motivo nenhum para se torcerem narizes. Ele sabe cativar o leitor e suas linhas, capítulos inteiros, que estão cheios de comicidade; a risada inteligente de quem mantém o frescor de sempre. Galhofeiro, possui a constante estratégia de conversar com o “amigo leitor” durante a narrativa nos momentos cruciais, ou somente pra descontrair. Machado dá o que pensar.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1899), Contos Fluminenses (1870), Memorial de Aires (1908) e Papéis Avulsos (1882) são alguns dos títulos do nosso orgulho Machado, que tem seu nome figurado junto aos maiores da literatura mundial.

Aproveitando o ensejo do ano comemorativo, que nós possamos redescobrir a rica produção literária de nosso país, e, principalmente, que conheçamos as deliciosas venturas que nos aguardam a obra do eterno Machado.

Plá da Semana

Muitos foram os livros e sites comemorativos à Machado lançados este ano. Mas o site www.machadodeassis.org.br em especial, além de ser da ABL, tem uma interatividade e acervo consideráveis do autor, além de aliar a beleza das coisas antigas à praticidade do moderno. Dê uma clicada lá, que vale à pena (literalmente)!

Um grande abraço,
Carla Guedes