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Leitura no Brasil: Alguns Flashes

Literatura

Dia 29 de Outubro foi comemorado o Dia Nacional do Livro, e não podemos passar sem honras à comemoração desta semana. A propósito, o dia fora escolhido em homenagem à Biblioteca Nacional, pois que “a 29 de outubro de 1810, o Príncipe Regente determinou que no lugar que servia de catacumba aos religiosos do Carmo, fosse erigida e acomodada a Real Biblioteca no Brasil”…

O primeiro livro publicado pela Imprensa Régia aqui no Brasil consta de Marília de Dirceu, com poemas de Tomás Antônio Gonzaga à sua musa, Maria Dorotéia. Apesar disso, somente no ano de 1925, com os impulsos do escritor Monteiro Lobato para a criação da Companhia Editora Nacional, que houve uma pequena revolução no mercado editorial.

Este ano, mais uma vez, repetimos a pergunta que nunca cala: festejar o quê?!

Tempo, principalmente, de balanços. O Instituto Pró-Livro e o Observatório do Livro e da Leitura apresentaram dados recentes na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, uma espécie de perfil do leitor brasileiro (ou também, do não leitor) no ano de 2007, e que de boa reflexão.

Na pesquisa em questão foram registrados alguns avanços em relação à última edição, que data de 2000. Nisso há alguma alegria, mas os avanços, como sempre, não são suficientes. Nas palavras de Galeno Amorim, “só não dá para parar para festejar porque há um chamamento nacional para pôr as mãos à obra.”

A realidade é crua. O tempo dedicado à leitura é baixo (a grande maioria, de 1 a 3 horas semanais); 48% dos entrevistados não haviam lido um livro há pelo menos três meses antes da pesquisa, e a média de livros comprada por ano é de 1,2 livro por leitor. Soma-se a isso a baixa renda, a dificuldade de acesso, e principalmente, a falta de incentivo (próprio e externo).

Uma boa surpresa é o aumento do índice de leitura. Outra é a preferência dos leitores pela poesia. Este dado deixa um grande ponto de interrogação, já que a dificuldade de publicação e venda nesse gênero é enorme. Fica aí um bom campo a ser trabalhado pelas editoras, divulgadores e livrarias.

Fatos em números? Aqui vão alguns deles:

Dificuldades de leitura: 17% lêem muito devagar; 7% não compreendem o que lêem; 11% não têm paciência para ler; 7% não têm concentração.

Ausência de leitura: 54% por falta de tempo; 34% têm outras preferências; 19% por simples desinteresse; 18% por falta de dinheiro; 15% por falta de bibliotecas.

No ranking de preferências, a leitura aparece em quinto lugar, logo após assistir televisão (com esmagadores 77%), ouvir música, ouvir rádio -notícias- e descansar (50%).

Há a pertinente reclamação de falta dos “pontos de venda”, requerendo uma melhor manutenção e fomento de livreiros e livrarias. Com irrisórios 2%, a venda pela internet nem tão cedo chegará à maioria da população, e, se chegar, não substituirá o contato e uma boa prateleira.

Vê-se que há um grande problema de acesso aos livros. Mas, mesmo tendo-os ao alcance, falta a descoberta, o prazer. É sabido também que a escola, querendo ou não, torna o livro um objeto chato e obrigatório. Assim, quando o aluno finda os estudos, faz questão de manter certa distância da leitura, desconhecendo a diversão que é se aventurar pelo próprio imaginário…

Mas, o trabalho de reversão desta imagem só está por começar. Cabe a nós redescobrir a importância cultural e social da leitura, e contagiar a todos ao redor. A iniciativa pra mudança começa no micro: presenteie com um livro, doe alguns já lidos, dê ao seu amigo a dica daquele livro que marcou sua vida, leia uma estória para alguma criança. Assim, sempre garantiremos um feliz Dia Nacional do Livro!

Plá da Semana

Este é o Meu Corpo, de Filipa Melo
135 páginas - Ed. Planeta

Este é um desses livros inquietantes e apaixonantes. Romance de estréia da jornalista angolana, trata de muitos corpos; vivos e mortos. Tudo gira em torno de uma trama, e um assassinato, trazendo, em cada observação, por mais crua que pareça, uma sensibi-lidade estonteante.

Uma ótima semana, e até!
Carla Guedes

O Livro através dos tempos

Literatura

Falamos sempre de livros, literatura e do prazer de ler. Mas sabemos desde quando remonta a saga desses pequenos tijolinhos que folheamos? E mais, como vieram a ser como hoje são? Vamos traçar um pequeno panorama de como os instrumentos de leitura se modificaram com o passar do tempo, até os atuais e intrigantes e-books (livros eletrônicos).

Os primeiros suportes oficiais para a escrita no Oriente eram tabuletas de pedra, argila ou metal (este último, encontrado na Roma Antiga). A etimologia da palavra “livro” vem da forma como ele era produzido a partir do papiro, especialmente pelas civilizações do Oriente Médio.

Para se fazer os rolos de papiro, era necessário retirar uma parte do vegetal (Cyperus papyrus), ou seja, liberar, livrar a matéria-prima, derivando a palavra liber libri, do Latim: libere, ou seja, livre. O papiro passou a ser substituído aos poucos pelo pergaminho, de couro, mais resistente, e os “volumens” de papiro ou pergaminho, eram desenrolados quando lidos.

Os livros, como nós conhecemos hoje, só vieram a surgir no Ocidente por volta do século II d.C., através da substituição do volumen pelo códex, que era uma compilação de páginas, não mais um rolo. O formato códex (ou códice) continuou a utilizar, ao menos inicialmente, o pergaminho, que era muito mais fácil de costurar que o papiro.

Da invenção do papel pelos chineses até os copistas da Idade Média, o livro ganhou novos atributos, tanto em forma (margens, folha de rosto, sumário e iluminuras) quanto em significação (livros didático, de detenção de poder religioso e intelectual).

Mais uma vez inovando, surge na China, por volta de 1.400, a máquina impressora por meio de tipos móveis, que acrescida de tecnologia por Gutenberg (1390-1468), provocou uma revolução na produção e propagação cultural moderna.

Os livros passam a ser cada vez mais portáteis, como os livros de bolso. A disseminação de volumes pela indústria se tornou crescente. No final do século XX aparecem os e-books (abreviação de Eletronic Book), ou livros em formato digital. O “Memex” idealizado por Vannevar Bush (1890-1974) evoluiu para o atual e-book: um dispositivo simples, com um método de armazenamento de pouco custo, e de fácil acesso devido à internet. Muitos textos são disponibilizados para download gratuito em vários sítios.

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Dentre as ferramentas úteis do e-book estão: marcador de páginas, bloco de anotações e marcações, controle de luminosidade e tamanho da fonte, dicionário e busca dentro do texto… Além, é claro, de sua portabilidade. É quase que tentador pensar numa biblioteca dentro de um espaço muito reduzido. Uma biblioteca de bolso.

Junto as questões mais recentes, vêm a tona também os Direitos Autorais sobre a obra que se veicula. Continuam valendo os mesmos (direitos contra plágio, alteração, distribuição ou comercialização sem o devido aval do autor). Entretanto, um novo tipo de Legislação está sendo idealizada, já que nos deparamos com novos paradigmas na forma de como as informações e obras são disseminadas. Ao menos, contribui-se ao sonho de todo autor: ver suas obras ao máximo propagadas, incentivando a leitura.

Em pleno século XXI, nascem dezenas de novos suportes para leitura. Desta vez, com a impressão de que se volta ao passado. Sim, porque o texto mais uma vez é desenrolado, ou “rolado”. Não através dos volumens de um pergaminho ou papiro, mas com a ajuda da barra de rolagem…

Com a “virtualização” dos livros, há a questão da impressão no futuro. Afinal, gostamos muito de livros de papel, já estamos séculos convivendo com eles. Principalmente eu, que gosto de sua textura, artes e cheiro. Mas ainda é cedo para dizer se o e-book é uma continuação do livro típico ou uma variante dele. Tal como a internet não substituiu a TV, mas se aliou à ela; ou o DVD não substituiu o velho prazer de frequentar um bom cinema!

Termino pois, nas palavras do grande Darcy Ribeiro, que afirmava, sem exagero, que o livro é a maior invenção da história e a base de todas as outras conquistas da civilização.

Plá da Semana

Nossa dica de hoje é o sítio A Hortaliça, idealizado pela criativa escritora Vanessa Bárbara, jornalista da Revista Piauí. “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”: esta é a primeira evocação do sítio, fraseando Guimarães Rosa. Isso ilustra bem os golpes criativos que nos assomam. Do ócio nascem as maiores criatividades. Os textos da autora são cômicos quando não comoventes, beirando o fan-tástico do absurdo quotidiano.

Um grande abraço, e até!
Carla Guedes