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A Arte de Ler

Literatura

“A pena está para o pensamento assim como a bengala está para o andar.” - Arthur Schopenhauer

Já havia me prometido que não adquiriria mais livros enquanto não lesse a maioria dos que eu tenho (a mancheias). Entretanto, fazer-me esta promessa, não significa deixar de dar uma “olhadinha” em uns livros por aí… E foi em uma recente olhadela dessas que a obra A Arte de Escrever, do filósofo Arthur Schopen-hauer (1788-1860), veio parar em minhas mãos.
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Bastou ler a sinopse de contracapa, para devorá-lo:
Embora redigidos na primeira metade do séc. XIX, estes ensaios, ao tratar sobre o mundo das letras, os vícios do pensamento humano, as armadilhas da escrita e da crítica, continuam válidos – hoje talvez mais do que nunca.

Interesse à primeira linha, este livreto de cento e poucas páginas furou a gigantesca fila de espera de obras encarecidas de leitura. Afinal, por que o interesse? – irás me perguntar. Ora, ora! Em tempos de best-sellers, é bom ouvir o que esta aclamada (e controvertida) voz do passado tem a dizer sobre o ofício, ou o melhor, sobre a arte de literar.

Admirador de Goethe; crítico ferrenho de Schelling e Hegel; influenciador de Nietzche, Thomas Mann e Liev Tolstói; Schopenhauer distribui críticas e mais críticas ao longo do livro. Porém, no meio de tantas alfinetadas, é possível recolher preciosas tiradas, se deixarmos de lado seu puritanismo lingüista e as desavenças pessoais de seu tempo.

Importante questão abordada em relação ao hábito da leitura é o que ele chama de “a arte de não ler“. É isto mesmo o que você leu! Não ler. E este estranho conceito traz duas implicações lúcidas. Uma é a atitude crítica do que não escolher para ler, principalmente as obras das abomináveis listas de mais vendidos. Outra é a cômica, mas verdadeira: “Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto!”

Na atitude de escolher o que não ler, é importante ter senso. Quem escreve para encher o papel engana o leitor, fingindo que escreve. Que por sua vez engana o autor, fingindo que lê. Chega a ser radical, aconselhando a se jogar fora tal livro, mas, não vamos contribuir para o sacrifício de mais árvores. Basta dizer seu ‘não’ deixando de contribuir à máquina capitalista.

Outra coisa: é melhor ler os verdadeiros autores. Nada de obra sobre a obra da obra… Vá direto à fonte! “É melhor comprar livros de segunda mão do que ler conteúdos de segunda mão.” Você tem plena capacidade, tanto quanto os outros autores, de assimilar a essência do texto integral.

Agora, sobre a leitura em demasia, seria muito bom comprar livros se fosse possível comprar junto o tempo para lê-los. Eu mesma caí nessa armadilha, e nunca tenho o tempo suficiente. Entretanto, a crítica vai mais fundo: quem lê muito, quase o dia todo e não pensa por si mesmo nos intervalos, com o tempo a capacidade de pensar por si mesmo só tende a diminuir! Você estará pensando (repetindo!) pensamentos de outros. É preciso a ruminação do conteúdo. Só assim chegamos ao aprendizado e à retenção do que é válido.

Quem lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes (…)”

Mais uma vez, faço apologia ao discernimento entre literatura unicamente comercial e literatura de qualidade (aquelas que sobrevivem a despeito dos séculos: os famosos clássicos). É certo que toda e qualquer literatura é válida, desde que filtrada por sua retina crítica e pensante. É certo também que há literaturas consideradas comerciais que são ótimo lazer.

Mas, mesmo que você leia pouco (não sendo um desses exemplos bibliófilos acima citados), leia com consciência e qualidade. De resto, exercitando a boa leitura, você de olho vai saber escolhê-las (não só pela capa, ou por indicações editoriais). Numa era em que fórmulas prontas pra vender superam o amor às palavras, é bom de vez em quando rever os conceitos do que você traz nos escaninhos do pensamento. E na estante.

Grande abraço, e um Feliz Natal antecipado!
Carla Guedes

Literatura e o Propósito Político

Literatura

“A opinião de que a arte não deveria ter a ver com política é em si mesma uma atitude política.” - George Orwell

Semana de decisão nas urnas, a coluna Literatura não poderia ficar de fora das discussões suscitadas, assim como nós vimos a intersecção do Meio Ambiente, da Tecnologia, da Música e do Cinema com a política (tudo o que fazemos e pensamos é, de certa forma, política, no amplo sentido do termo). A Literatura também tem um forte engajamento com as questões quotidianas, e as obras incessantemente interagem com o período político vivido no momento em que foram escritas.

Assim como os leitores são dos mais variados, os escritores também o são. Existem os escritores do devaneio, do mundo do intelectualismo e da fantasia; e existem os escritores da realidade, da dura e desencantada realidade. Há aqueles que escrevem para mudar o mundo; uns o seu próprio mundo, devastando as suas incertezas e desconhecimentos interiores; já outros, o mundo externo mais amplo, espalhando utopias e apregoando ideais de mudança.

O que dizer da relação Literatura/Política? Não estão ambas encharcadas de visionarismo e cercadas pela realidade? A politização da literatura geraria um empobrecimento da arte? Afinal, arte pela arte, ou arte pela humanidade?

George Orwell, célebre escritor de A Revolução dos Bichos exemplifica bem os impulsos da escrita, classificando-os em quatro:

 ”1. Puro egoísmo: O desejo de ser engenhoso, de ser comentado, de ser lembrado após a morte, de se desforrar de adultos que o desdenharam na infância e por aí afora. É uma falsidade fazer de conta que este não é um motivo forte [...].

2. Entusiasmo estético: A percepção da beleza no mundo externo ou, de outro lado, nas palavras e em seu arranjo correto. Prazer no impacto de um som sobre outro, na firmeza de uma boa prosa ou no ritmo de uma boa história [...].

3. Impulso histórico: O desejo de ver as coisas como elas são, de encontrar fatos verídicos e guardá-los para o uso da posteridade.

4. Propósito político: O desejo de lançar o mundo em determinada direção, de mudar as idéias das pessoas sobre o tipo de sociedade que deveriam se esforçar para alcançar.”

Creia: nenhum escrito está isento de contrair, um mínimo que seja, de um de cada desses impulsos. E o quarto motivo é o mais perceptível deles: ninguém está isento de tendências políticas, como nenhum livro é de todo neutro. O escritor, assim como a gente, não está imune à realidade que o cerca, principalmente em tempos de crise. Na contra-mão, principalmente nos tempos de crise é que se levanta a voz da arte, seja como protesto, reflexão ou fuga.

Assim como nem toda obra política é verdadeiramente boa, alguns autores que se enveredaram por ela, conscientes ou não, deixaram importantes legados. Como exemplos de engajamento político de suas épocas, poderemos citar alguns grandes: Castro Alves, que com sua poesia Abolicionista cantou a dor dos escravos e criticou a política escravocrata vigente; Affonso Romano de Sant’Anna que em plenos anos de ditadura publicou corajosos e belos poemas, como o Que País é esse?; Oswald de Andrade com seus ideais anarquistas, e sua inconfundível obra crivada de chavões Vermelhos.

No mesmo engajamento segue Ferreira Gullar, com sua poesia de liberdade e crítica à repressão de 64; e Chico Buarque, que em seus poemas-canção retratou figuras de essencial denúncia social: o camponês de Funeral de um Lavrador, o operário em Samba e Amor, o pedreiro de Construção, os sem-terra de Assentamento, dentre outros.

É na reflexão da leitura e da arte que paramos para reorganizar idéias, esquadrinhar conceitos, concordar ou duvidar das situações expostas. E fazer literatura é arriscar, expondo o que se é, o que se sente e o que se pensa, sabendo que não há isenção completa do meio em que se atua.

Que possamos como humanos e cidadãos construir uma sociedade mais justa, expondo o queremos de melhor: seja através da escrita, da leitura, do debate saudável, ou do voto.

Um grande abraço,
Carla Guedes

2008: o Ano Machadiano

Literatura

“Assim são as páginas da vida, 
(…) e acrescentava que as páginas vão 
passando umas sobre as outras, 
esquecidas, apenas lidas.”

(excerto do conto Suje-se Gordo!, de Machado de Assis)

Falar de Machado de Assis, a quem as páginas nunca passaram esquecidas, é tarefa que beira o prazer. Nele, o prazer de ler torna-se espontâneo, pois Machado, além de esmerado conhecedor da língua portuguesa, era um cômico observador.

Este é o seu ano por excelência. 2008 é decretado o Ano Nacional Machado de Assis. Por um lado, ótimo: choveram publicações sobre a obra do mestre, e muitos ficaram com vontade de reler com mais carinho aquelas obras que só leram à mando de algum professor caxias. Por outro, sabemos de antemão: após a sagração de Machado, todos os anos foram seus.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) teve origem bem humilde. Filho de operário, e tendo perdido a mãe muito cedo, trabalhou e estudou como pôde, nunca em cursos regulares. Aos 16 anos publica na Marmota Fluminense um primeiro poema. No ano seguinte entrou para a Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo.

Foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, sendo suas obras espelhos dos gêneros literários de seu tempo. Se seu início teve características marcadamente Românticas (influenciado por José de Alencar, escritor de Iracema), sua maior contribuição está na inovação que propõe ao Realismo, sendo grande representante e referencial.

Renomadamente foi o fundador da 23ª cadeira da ABL (Academia Brasileira de Letras), e um dos que criaram a Casa, aos moldes da Academia Francesa de Letras. Por mais de dez anos esteve à frente de sua presidência.

Machado de Assis, como enfatiza Josué Montello, não era um homem improvisado. Ele tinha a consciência de que, pra chegar ao ponto em que chegou, era preciso ter o gosto da aprendizagem. Por isso, estudou a língua portuguesa a partir da leitura dos mestres da literatura. Não nos bancos da escola, mas em consultas freqüentes ao Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro.

Por falar em Rio de Janeiro, o Bruxo do Cosme Velho (como também é chamado devido à Rua Cosme Velho, nº 18, onde passou a maior parte de sua vida), retratou o Rio de seu tempo nas observações mais argutas e sutis. Quando vou à Rua do Ouvidor ou excursiono pelas ruas o Centro do Rio, tenho a suspensa sensação de ser uma de suas personagens, ansiando topar com qualquer carro de aluguel, bengala, monóculo, ou o próprio Machado atrás de seu pince-nez. Tal é a profundidade de sua obra em meu imaginário e tal a veracidade com que descreveu e imortalizou seu tempo.

Aviso aos que torcem o nariz ao intentar ler um livro que leva um título de “Clássico da Literatura”: Machado de Assis não dá motivo nenhum para se torcerem narizes. Ele sabe cativar o leitor e suas linhas, capítulos inteiros, que estão cheios de comicidade; a risada inteligente de quem mantém o frescor de sempre. Galhofeiro, possui a constante estratégia de conversar com o “amigo leitor” durante a narrativa nos momentos cruciais, ou somente pra descontrair. Machado dá o que pensar.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1899), Contos Fluminenses (1870), Memorial de Aires (1908) e Papéis Avulsos (1882) são alguns dos títulos do nosso orgulho Machado, que tem seu nome figurado junto aos maiores da literatura mundial.

Aproveitando o ensejo do ano comemorativo, que nós possamos redescobrir a rica produção literária de nosso país, e, principalmente, que conheçamos as deliciosas venturas que nos aguardam a obra do eterno Machado.

Plá da Semana

Muitos foram os livros e sites comemorativos à Machado lançados este ano. Mas o site www.machadodeassis.org.br em especial, além de ser da ABL, tem uma interatividade e acervo consideráveis do autor, além de aliar a beleza das coisas antigas à praticidade do moderno. Dê uma clicada lá, que vale à pena (literalmente)!

Um grande abraço,
Carla Guedes

A hora e vez de Guimarães Rosa

Literatura

“Às vezes, quase acredito que eu mesmo, João, seja um conto contado por mim.” 
João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa (1908-1967), comemorado este ano, nos advertiu, em 1965: “Que nasci no ano de 1908, você já sabe. (…) Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim são minha maior aventura”.

Vamos então rever e compreender através de sua maior aventura pessoal, a literatura, quem foi João Guimarães Rosa…

Nascido em Minas Gerais, foi médico e diplomata. E nesse percurso, a literatura alinhavou seus passos. Em pequeno, demonstra especial interesse pelas línguas e livros. Na faculdade de medicina, para auxílio financeiro, escrevia contos para a revista O Cruzeiro, além de participar de inúmeros concursos literários (premiado em muitos deles).

É assim que o exercício começa: a intimidade com as palavras. Seu olhar literário não deixava escapar os acontecimentos. Em dois anos, como médico no interior de Minas Gerais, a curiosidade pelas coisas da terra, o folclore e espirituosidade do sertanejo não passaram em branco. Rosa foi anotando os ditos, frases em pára-choque de caminhão, falas e expressões, descrevendo paisagens e sensações; as míticas e crédulas lembranças de um povo.

A literatura Moderna é marcada pela rudeza naturalista. Assim, a Geração de 45 retoma o percurso de escrita regionalista da Geração de 1930, mas com toda a carga política e amadurecimento. São nos sertões nordestinos e mineiros dos interiorões que encontram a matéria humana, as lides com o animal, com o rancho, com a seca.

Mas, como descrever a fala e dramas sertanejos? Com a bagagem culta, própria do escritor, ou com a fala simples, própria do cotidiano das querências? Guimarães Rosa, com sua prosa repleta de poesia, mitologia e realidade reinventa a linguagem.

Nenhum autor brasileiro foi tão fundo como ele na arte de inventar palavras: circuntristeza, suspirância, velhouco, ensimesmudo, embriagatinhar, nonada, mimbauamanhanaçara… Calma! Não se espante. Não é tão complicado assim. Rosa não queria que seus leitores vivessem consultando dicionários (até porque essas palavras não serão encontradas lá). As palavras seriam como enigmas divertidos.

O contexto da obra e um mínimo conhecimento de radicais, às vezes, bastam para decifrar os risonhos significados. A linguagem cotidiana, como dizia, estava desgastada pelo uso: só expressava lugares-comuns, e não idéias. “Cada autor deve criar seu próprio léxico, do contrário não pode cumprir sua missão”.

Imortalizado por obras como Grande Sertão: Veredas, Corpo de Baile e Sagarana, Guimarães é digno da cadeira que conquistou na Academia Brasileira de Letras, em 1967. Curiosamente, três dias após a posse, aos 59 anos, falece vítima de infarto. Ele prenunciara a emoção em ser condecorado. Apesar da brevidade da posse, seus contos, poemas e romances permanecem mais que lembrados nos personagens e lutas que vivificou.

Com base num conhecimento lingüístico espantoso (tendo estudado as gramáticas de mais de vinte e três línguas), Rosa foi mestre em fabricar novos termos, assim como em desenterrar palavras do desusado português arcaico e do palavreado popular. Não só a língua em esmero, mas também conteúdo: captou em suas raízes a brutalidade de viver, a crença do sertanejo, as superstições e a relação entre o trabalhador e o divino. Pois a língua é instrumento de emotividade, e de liberdade.

Plá da Semana

Sagarana, de Guimarães Rosa
413 páginas – Ed. Nova Fronteira

Publicado pela primeira vez em 1946, Sagarana reúne os mais conhecidos contos do nosso autor, como “O burrinho pedrês”, “São Marcos” e “A hora e vez de Augusto Matraga”. Uma curiosidade: o título foi criado a partir da junção das palavras Saga, que significa narrativa, conto; e a palavra Rana: do tupi ‘rana’; semelhante, parecido a.

E esta semana, em ritmo de homenagem à Guimarães Rosa e em também em comemoração ao 1º Ano do Makaeh Cult, temos um Plá mais que especial!

Pergunta: “Qual o nome dado ao fenômeno lingüístico de criação de novas palavras, muito utilizado por Guimarães Rosa?”

Envie um e-mail para carlaguedes@makaehcult.com, respondendo a pergunta acima corretamente, e concorra ao livro da nossa dica de hoje! O resultado estará disponível na próxima matéria da coluna de Literatura.

Até lá, e Boa Sorte!
Carla Guedes

Maravilhas no mundo dos Sebos

Literatura

“A inenarrável promiscuidade dos sebos! (…) O sebo é a verdadeira democracia. (…) Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.” - Carlos Drummond de Andrade

Recorremos às livrarias quando queremos comprar livros recém-nascidos, estalando as páginas, novos em folha (literalmente). Mas os sebos são lugares à parte: neles os livros que são comercializados, além de manuseados, possuem vidas próprias.

A começar pelo nome, Sebo evoca nostalgia, que vem do tempo anterior à energia elétrica, onde a leitura era feita à luz da chama bruxuleante de velas amarelentas. Essa prática do contato das mãos com velas deixava os livros manuseados um tanto engordurados e sebosos, passando o substantivo a designar vulgarmente as livrarias onde se vendem livros usados.

Os primeiros estabelecimentos do tipo surgiram na Europa do séc. XVI, mas restritos à venda de documentos raros e importantes, já que a leitura não era um hábito popular ou acessível. No Brasil, esse seguimento do comércio passou a ser difundido a partir do séc. XVII, mas nos faltam referências e publicações sobre o tema.

Num sebo, seu espaço sagrado é algo um tanto peculiar, quase sempre tendendo à desordem gostosa de suas prateleiras. Vasculhando os espaços selvagens (na maiorida das vezes, tendendo a ser apertados) encontramos edições fora de catálogo, tiragens antigas, obras de colecionador, livros raros e lançamentos usados a preços modicamente baixos.

Muito se assemelha ao acervo de biblioteca, mas de uma forma menos organizada e menos formal. Dentre as diversas sensações e imagens características que o visitante de sebos é familiarizado, o papel amarelado e o cheiro dos anos são os mais marcantes.

Em nossa cidade não há sebos (ao menos, procuro-os esperançosa por Macaé, mas não tive notícias de nenhum), infelizmente. Quando estou em outras cidades, sempre que posso separo um tempo à visitação desses amarfanhados estabelecimentos. Mas não tendo um por perto, não é motivo para não ter edições vincadas, raras ou em preço mais acessível. Assim como o fenômeno das livrarias virtuais, nasceram os Sebos Virtuais, que adquiriram rapidamente um sucesso maior.

Grande exemplo é o site Estante Virtual, que funciona como um Mercado Livre de alfarrabistas (ou sebistas, como desejar). Com mais de 1.000 sebos cadastrados de 194 cidades, possui um acervo on-line de quase três milhões de livros. Não há como não encontrar aquele livro de segunda-mão procurado há tempo. O interessante também é que o internauta pode se cadastrar gratuitamente e anunciar alguns volumes que deseja comercializar, e, até certa quantidade, não paga comissão ao site pela venda.

Na mesma direção andam outros sebos virtuais, cujo princípio é “romper com o quadro atual de pulverização das centenas de sites de sebos brasileiros, que competem desnecessariamente pela atenção de um visitante que fatalmente não irá ter tempo ou paciência para visitar a todos.”

É certo que não teremos, com os sebos virtuais, o sem-fim de coisas que comumente nos apaixonamos: as incontáveis horas de garimpo entre lombadas roídas ou lustrosas, vitrines coloridas, dedos correndo folhas gastas e marcando-as demoradamente, uma troca de idéias com outro garimpeiro, os esbarrões em pilhas enormes, os olhos corriqueiros a localizarem um exemplar que os braços não alcançam, volumes de encherem os olhos e a imaginação de um dia poder ler aquilo tudo…

Mas a internet tem se mostrado um aliado importante de disseminação, não significando o fim dos sebos físicos, mas sim, seu fortalecimento e procura. Além disso, não poderão mais se valer do principal argumento (que os que possuem no fundo alguma preguiça de ler, recorrem sempre) de que livros são caros, ou inacessíveis.

Temos a oportunidade, com sebos virtuais ou não, de achar aquela edição esgotada, nos deparar com dedicatórias emocionadas, datas longínquas, ou rubricas desconhecidas. Pois assim como assinalou Drummond, os sebos são sempre democráticos. Acrescento que os sebos são templos repletos de histórias pessoais, em que se misturam homens e livros.

Plá da Semana

Desesperado procurando livros de segunda-mão pros estudos, ou querendo vender alguns volumes seus? Explorando o Estante Virtual você se cadastra e pode realizar estas e mais algumas transações comerciais. A negociação é feita diretamente com o anunciante, através do site. Consegui livros esgotados na editora, e tenho um amigo que vendeu algumas revistas antigas. Tudo correto, com qualificações positivas e sem transtornos. Vale a pena dar uma conferida!

Um grande abraço, e uma ótima semana!
Carla Guedes

A Festa da Literatura

Literatura

Casarões de Paraty“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?”

E agora, você? Mais um ano se vai, e mais uma FLIP também. Não que eu queira remoer fato passado, mas o trecho de Drummond acima me remonta indubitavelmente à festa da semana passada, como uma alegoria a me soprar pela sexta vez aos ouvidos: perdeu mais uma. E agora? O gosto da ressaca literária ainda nos olhos. A festa literária do ano… Fiquei daqui, apenas acompanhando os fatos.

Balanço de ganhos e perdas: o que o Brasil ganha realmente com a FLIP? O que a literatura ganha de novo?

A denominação Festa Literária Internacional de Paraty evoca celebração. Festa Literária então, é um sonho que cultiva do bibliófilo ao indivíduo que curte timidamente boa cultura. Na programação: papos literários, mostra de cinema, esquetes… e música. Nesse ano desfilaram presenças expoentes como o cantor Luiz Melodia e Carlos Lyra, autor eternizado da canção “Minha Namorada” (deu pra perceber as diversas formas celebradas, que não a grafada, da nossa amiga literatura).

No decretado Ano Nacional de Machado de Assis, os 22 literatos brasileiros e 18 estrangeiros convidados fizeram sua devida homenagem. Mas não quero falar de Machado por agora (o Bruxo do Cosme Velho merece um artigo só dele, que ele é paixão antiga minha). Quero falar exatamente da falta de universalidade ao acesso, contrária ao que se idealiza. Dessa restrição de classes. “Não me convidaram…”, enfatizaria o poema musical de Cazuza.

Isso porque ir à FLIP virou simplesmente a moda da temporada, e em Paraty, as temporadas não aliviam o bolso. Acampar é a solução se não puder se hospedar pelas bagatelas que cobram. Sem contar a não-gratuidade das oficinas ou dos ingressos pras palestras, ou dos concursos literários com taxas de inscrição salgadas da Off FLIP. E muita gente que queria celebrar a literatura ficou literalmente off.

No balancete final da festa, expectativa. Ponto pra literatura no Brasil? Justamente no pronunciamento oficial do diretor da programação me caiu a ficha da ousadia cultivada: “A FLIP é a melhor porta de entrada de um autor no Brasil“. Que funil, penso cá comigo. Mas ele prossegue, sendo mais enfático (o que me deixa mais apreensiva): “A FLIP é cada vez mais uma chancela fundamental que orienta o que vale e o que não vale a pena ler“.

Mortificação.

Fato consumado. A FLIP sem mais nem menos se transformou num selo elitizador da literatura. E arranha-me por dentro repensar a frase sobre o “que vale e o que não vale a pena” ser lido.

Lemos, logo pensamos! À medida que apreendemos uma visão de mundo construímos um parâmetro natural do “que vale e o que não vale a pena” (se é que existe mesmo isso). É claro que com uns anos calejados de bom olhar crítico, saberemos separar o joio do trigo, o “livro comercial” da “obra literária”. Mas pra isso é preciso treino, vivência própria, olhar propício. É preciso ler! Será que é mesmo necessária uma festa de poucos pra nos ditar parâmetros literários? “Tudo vale à pena (…)”, recorda o meu poeta.

Achei que o sonho ideal da festa da literatura (veja só que utopia!) fosse celebrar, na coletividade de boas mentes leitoras, temas eletrizantes, oficinas criativas, propostas inovadoras, educação em primeiro plano, e incentivo à leitura.

Mas ainda não foi dessa vez…

E o que perdi, perdendo mais essa? Perdi os casarões históricos de Paraty, e um rosário incontável de grandes nomes. A declamação poética de Elisa Lucinda, a lucidez de Ana Maria Machado, a musicalidade natural de José Wisnik, a vivacidade e luta de Pepetela, a juventude criativa de Vanessa Bárbara, a sacada de Neil Gaiman, a propriedade de Rouanet

Perdi a poesia de um fim de tarde, com um livro no regaço, a beira de uma enseada ensolarada nos mares de Paraty… Mas ano que vem, tem mais!

Plá da Semana

Melhores Poemas de Affonso Romano Sant'annaMelhores Poemas (1965-1999), de Affonso Romano de Sant’anna 156 páginas - Ed. Global

Incansável, Affonso Romano faz de sua poesia seu manifesto habitual, divagando entre as questões políticas de sua época (a ditadura que sentiu na pele), a onírica estética e o intelectualismo clássico. Pra quem gosta de se deliciar em abstrações, sem tirar os pés da concretude em que estamos mergulhados.

Boa semana e boas reflexões literárias!
Carla Guedes

Afinal, o que é Literatura?

Literatura

Poetry Reading - Irene SheriCaros leitores do Makaeh Cult, muito prazer! Ótimo estar aqui trazendo a vocês a coluna de Literatura. Grande responsabilidade, pois pra quem já vinha acompanhando o trabalho da colega Nathália Borges, sabe bem do alto nível da conversa que vínhamos tendo nesta seção. Venho então com este desafio de continuar o projeto idealizado e tão importante que é o espaço literário aqui no site.

Afinal, para início de conversa, alguém se lembra da definição da palavra Literatura? Corramos então ao dicionário para relembrá-la…

Literatura: s.f. [do latim litteratura, a partir da palavra littera, "letra"]: 1. A arte de compor ou escrever trabalhos artísticos em prosa e verso. (Fonte: Aurélio)

Definir este conceito talvez seja resolvido pensando-se na classificação dos textos em literário e não-literário. Recordamos então que a notícia no jornal ou a bula do remédio não são literaturas propriamente ditas. Precisamos de um “quê” a mais nos textos verbais. Enumero alguns: eloqüência, princípios teóricos, linguagem verbal, assunto…

Mas apenas isso não basta. Os dois quesitos mais importantes e marcantes presentes numa boa literatura são a estética e a subjetividade.

Literatura é a arte da palavra. Está carregada da alma de quem o fez, do enfoque que se quis dar, do período em que se retrata e do que é retratado, das conjunturas estéticas, dos padrões de escrita (ou a negação deles)… Literatura é a arte de tocar com verbos, subjetivos, adjetivos e rimas. Idéias em forma gráfica e palpável de letras. E é isso que abordaremos neste espaço durante as próximas semanas…

“De que serve o homem de letras para realizar seu gênio inventivo? Não é, por natureza, nem do movimento como o dançarino, nem da linha como o escultor ou o arquiteto, nem do som como o músico, nem da cor como o pintor. E sim – da palavra. A palavra é, pois, o elemento material intrínseco do homem de letras para realizar sua natureza e alcançar seu objetivo artístico.”
(Alceu Amoroso Lima, em A Estética Literária e o Crítico)

E nós, leitores de mundo, somos degustadores de todo esse banquete de prosa e poesia: sejam nos nossos bons e velhos amigos livros, na nossa vertiginosa e mutante Internet, ou talvez, nas telas de nossos mp4′s… obras literárias figuram por toda parte!

Paramos por aqui na nossa edição introdutória, propondo algumas reflexões e inquietações a vocês. Por ora, fica o convite de se pensar sobre o que é literatura, qual sua importância (individual e conjunturalmente falando) e qual nosso papel como leitores (depósitos de conceitos ou agentes críticos?).

Leitura crítica, leitura contemplativa, leitura estudiosa ou leitura pelo simples gosto de ler: não importa o olhar que escolhamos, ler é sempre um bom convite à viagem (seja ela ao mundo interior ou a mundos imaginários). Porque ler, é ser cult. Mas cult mesmo é ampliar nossa visão de mundo.

Plá da Semana

Livro - A Sombra do VentoA Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón
400 páginas – Editora Suma de Letras

Livro mais que aprovado, A Sombra do Vento é um sucesso que prende do início ao fim, sem ser clichê. Numa narrativa em compasso frenético, traça a história do menino Daniel Sempere na Barcelona de Franco Salazar do século XX. Entre casarões abandonados e a Biblioteca Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel busca o autor misterioso de um raro livro (que dá nome à obra). Afinal, quem é Julian Carax?

“Além de ser uma grande homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias.” Recomendadíssimo!

Um grande abraço, e boas leituras!
Carla Guedes

Literatura II

Literatura

Olá caros leitores! Teremos, a partir de hoje, encontros quinzenais na coluna Literatura. Retomando um projeto importante, neste espaço falaremos sobre tudo relacionado ao assunto. O enfoque é vasto, e quem gosta de boa leitura não perde por esperar! Traremos entrevistas com literatos de nossa região, discussão e resenhas sobre obras e movimentos literários importantes, além de novidades e eventos ligados aos livros e às palavras. Teremos também o “Plá da Semana”, trazendo dicas de leituras interessantes e links para conhecer mais sobre os assuntos abordados.

Na era das informações, é tão comum recebermos cargas e cargas de textos, ícones, imagens, gráficos… palavras e palavras: não mais que isso. O que fazer com essa carga mal digerida que recebemos?

Vamos deglutir com cuidado as palavras, sorvê-las de um modo interessante. Onde ficou o nosso senso crítico e a capacidade de transformar informações em reflexões de mundo? Porque não, degustá-las? Neste banquete literal, voltaremos ao tempo onde a leitura inspira paixão, onde ela revolve os sentimentos, e onde é capaz de mudar o nosso olhar.

Quem sabe, também, até conquistar bons leitores e descobrir escritores preciosos? Dentro de nós há muitas potencialidades. Leiamos, e pensemos! Espero que gostem do nosso espaço!

Um grande abraço,
Carla Guedes

Perdas & Ganhos

Literatura

Livro - Perdas e GanhosDepois de uma breve pausa em minhas matérias, eu volto. Dessa vez com a missão de falar do livro mais elogiado da Lya Luft: Perdas e Ganhos. Um livro de auto-ajuda? Pode ser. Depende do ângulo que você observa.

Nele encontramos um mix de vários sentimentos demonstrados por Lya, sempre de uma forma requintada, com a profundidade de observação e uma sensibilidade incrível, que explica a capacidade da autora de investigar bem a fundo os mistérios mais profundos do ser humano – solidão, morte, amor, vício, assombramento e desencontro – nos conflitos que tecem a trama das vidas de todos nós.

Em Perdas & Ganhos, Lya Luft fala sobre o amor, o prazer e a dor da perda, em textos curtos, a meio caminho entre as memórias e o ensaio, cedendo a sugestão poética de ter um quase diálogo com o leitor.

A cada página, encontramos uma nova maneira de olhar a nossa volta e uma inspiração para refletir sobre nossas próprias histórias, fazendo com que nos identifiquemos com muitos fatos ali narrados. Na contramão da banalização, Lya baseia sua relação com o leitor numa convocação à descoberta da beleza e das questões existenciais mais essenciais nos acontecimentos comuns da vida.

O livro tem o poder de tocar nossos sentimentos mais profundos e fazer despertar idéias, quase teses sobre os temas. Uma prova de o livro ser tão tocante foi o seu estouro de vendas, quando lançado, no ano de 2003. Foram mais de 700 mil exemplares vendidos no Brasil, permanecendo no topo da lista dos mais vendidos por mais de 54 semanas, e uma dezena de traduções para idiomas estrangeiros.

Ao meu ver, a Sra. Luft desabafou nesse livro. São detalhes, opiniões de quem já viveu, pelo visto viveu como pode e atualmente senta no topo de sua vida e vê que aprendeu com tudo o que aconteceu, cresceu com todo o ocorrido. E é tudo natural, viver é natural. Complicam-se muito as coisas. Por se tratar de crônicas que contém partes, e boas partes, de realidade o livro ganha uma certa densidade. Ele é bem escrito e seu ritmo varia de acordo com a natureza do que vai sendo dito. Às vezes notamos um tom claro de grito angustiado, outras uma leveza digna da serenidade.

O que mais me interessa em tudo isso é que Lya não busca um leitor, ela não utiliza artifícios pra que ele se mantenha fixado na leitura; isso ocorre naturalmente. É agradável ler sua obra. O segredo está em não ler procurando respostas, procurando algo; mas em ler de forma despretensiosa, que você acha respostas maravilhosas sem querer.

Eu nunca havia lido nenhuma de suas obras, nada mesmo, nem sequer uma frase. Mas há uns 5 anos atrás, na Biblioteca do Colégio São José (colégio no qual cursei o primeiro ano do Ensino Médio, localizado em Pelotas/RS), freqüentada por mim semanalmente, eu procurei por um livro especial e não o encontrei.

Resolvi que naquela semana não iria ler nada, já que eu estava com o meu tempo tão dividido entre os estudos incessantes de química e meus ensaios para o espetáculo de dança que se aproximava. Porém quando estava saindo, a bibliotecária me chamou atenção para o lançamento carregado de tantas críticas positivas; eu resolvi levar, mas não dei muita importância.

Sem querer eu achei a resposta da qual estava precisando pra minha vida naquelas circunstâncias pessoais: nós somos pessoas únicas, que devemos crescer concomitantemente sozinhas e juntas, sempre da melhor maneira possível; a individualidade é algo fundamental, mas nós podemos ganhar muito com outras pessoas. Para me despedir, deixo um pequeno trecho do livro:

Clique aqui para ler o trecho do livro!

Bons ganhos à todos nesse feriado e se houverem perdas, que elas venham acompanhas de maturidade! Uma ótima páscoa!
Nathália Borges

Para Morrer de Rir!

Literatura

Assassinatos na Academia Brasileira de LetrasA matéria de hoje é sobre um simpático apresentador e excelente escritor! Quando parei para pensar sobre o que escreveria essa semana, me vieram à cabeça diversos escritores e vários livros excelentes. Busquei lançamentos, best-sellers internacionais.

Mas não resisti quando li um trecho do livro abordado hoje, elaborado por uma pessoa pública, a qual temos um encontro diário em um programa cheio de variedades e UTILIDADES, no qual os temas são tratados de forma muito inteligente e extremamente engraçados.

O terceiro romance de Jô Soares se passa no Rio de 1924 e põe um serial killer no encalço dos seletos membros da Academia Brasileira de Letras.
Assassinatos na Academia Brasileira de Letras conta um caso de mortes que provoca risos. Detalhe: os imortais são as vítimas.

O terceiro livro de Jô em dez anos contém a mesma fórmula dos anteriores, O Xangô de Baker Street (1995) e O Homem Que Matou Getúlio Vargas (1998): pesquisa histórica, entrecho policial e boas piadas que mexem com os fatos sem tirá-los do lugar. Algo um tanto matemático que altera os fatores sem modificar o produto.

Os dois romances foram traduzidos para uma dezena de línguas; o primeiro foi lançado em 12 países e o segundo em sete. Juntos, venderam 1,3 milhão de exemplares no mundo (no Brasil, Xangô vendeu 620 mil e Getúlio 410 mil).

O livro chegou às livrarias com tiragem de 100 mil exemplares. Prometendo igual sucesso, mesmo porque, segundo Jô, fluiu com mais naturalidade que os outros. Foi escrito em cinco meses, a partir de agosto de 2004, enquanto o primeiro levou oito meses e o segundo dois anos.

Jô SoaresJô, apesar de morar em São Paulo, sempre se declarou apaixonado pelo Rio de Janeiro antigo e inclusive morou, ainda criança, com seus pais no hotel Copacabana Palace, fundado em 1923 e um dos cenários do livro. A convivência no hotel teve como resultado uma narrativa ainda mais viva e enxuta que a dos outros volumes, devido aos recursos da memória.

Segue então, um trecho do livro, que além de tudo nos ajuda a entender de maneira cômica fatos na nossa história:

“Segunda-feira, 7 de abril de 1924

PULVIS EST ET IN PULVEREM REVERTERIS

Uma chuva de gotas grossas caía sobre a cidade do Rio de Janeiro naquela tarde de céu encoberto, e relâmpagos festejavam a tempestade. Contrariando a crença de que aguaceiros aliviam o calor, os termômetros acusavam uma temperatura de trinta e nove graus. O clima não impediu que os partícipes se apresentassem a rigor para as últimas despedidas ao senador da República e emérito escritor Belizário Bezerra, no cemitério São João Batista. Havia mais gente ainda que no dia da posse. Sérgio Loreto viera de Pernambuco, e até a autoridade maior do país, o presidente Arthur Bernardes, estava lá, de cartola e sobrecasaca, prestigiando o amigo morto, apesar das preocupações com o estado de sítio, que vigorava desde o governo anterior.

Turistas ocasionais também se amontoavam em volta do túmulo, dando mostras da curiosidade mórbida que se manifesta em catástrofes e nos enterros de pessoas ilustres.

Imortais mais ansiosos já cabalavam, entre si, votos para futuros candidatos. Causava estranheza vê-los de fardão e guarda-chuva.

Outros grupelhos contavam anedotas e riam disfarçadamente. Mulheres envoltas em renda negra trocavam idéias, em voz baixa, sobre os últimos lançamentos da moda em Paris e falavam do exótico Cuir de Russie, novo perfume de Coco Chanel.

Deputados e senadores, conhecedores das tensões do momento político, dirigiam olhares para o presidente, conjecturando sobre possíveis rebeliões tenentistas, inspiradas pelos Dezoito do Forte. Enfim, como em qualquer funeral, o único silencioso era o morto.

Todos pretendiam despachar o defunto com um necrológio pujante, porém o criminalista Aloysio Varejeira foi o mais pressuroso. Quando ele puxou do bolso o panegírico, um enorme círculo abriu-se à sua volta. O inescrupuloso advogado era temido pelo seu mau hálito.

Os maledicentes imputavam-lhe o sucesso nos tribunais ao bafejo cáustico, cultivado por anos de vinho avinagrado e queijo-do-reino, que ele expelia, ameaçador, em direção aos jurados. Pura aleivosia: o talento de Varejeira era tão perigoso quanto seu bafo venéfico.”

“Só senti coragem de escrever romances quando descobri qual era meu aspecto mais forte. Obviamente, o humor. Escrevo brincando.” - Jô Soares

Um ótimo fim de semana!
Nathália Borges