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O Grande Reino do Pequeno Príncipe

Literatura

“Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…” (A Raposa)

Acho que falar das coisas que nos cativam é um tanto mais difícil que falar das coisas que simplesmente passam por nós. Explicação simples: por mais que a gente queira expressar, as palavras nunca poderão alcançar com precisão o fato, o dado, o tido, o instante: o instante está sempre lá, flutuando, porém nunca mais será alcançado.

Eis anunciado o que costumo chamar de o Paradoxo da Literatura. Estenderia até, a tese: o Paradoxo da Arte. No mesmo momento em que a literatura nos empurra vertiginosamente para dentro do que é a experiência do outro (ou a objetivação do subjetivo) teremos a nossa própria experiência baseada na vivência do artista. Por mais lapidada, rara e concisa que a linguagem seja, não alcançaremos a expressão total do autor.

São os filtros do subjetivo. É algo como nunca estar completo: um jogo que sempre está perto do enigma, mas nunca o alcança.

E é nesse paradoxo que a literatura se constrói, num lugar onde nunca uma releitura será a mesma da leitura anterior. Desvenda-se a mágica da poesia: nunca o mesmo verso será o mesmo, e a palavra se vivifica.

Mas, e por que toda essa minha abstração? Tudo começou sobre “falar das coisas que nos cativam”…

É porque hoje decidi falar de um personagem de minha infância. Decidi por à prova toda minha estima, e minha frustração: por mais que eu o descreva e me esmere, acho que sempre vou ser incompleta em relatar o universo dessa admiração.

Pois bem, conta a lenda que “quem nunca leu O Pequeno Príncipe, não teve infância” (eu conheço algumas pessoas que se questionam preocupadas sobre esta lacuna, mas isso não vem ao caso).

Confesso que li a primeira vez sem muito entusiasmo, e com falta de paixão até. Era só para fazer jus à minha doce infância, feito um medo de que ela não acontecesse devido à profecia. Se resumiu à um encontro ocasional, um breve ‘oi’, uma leitura de obrigação. Infância garantida, reneguei meu personagem e sua estória à poeira da estante. Após caso arquivado, só depois de anos, num encontro de ocasião, é que descobri de súbito o grande reino deste pequeno príncipe.

Por que tudo isso não tinha feito sentido antes?

Porque tudo isso não tinha feito sentido antes.

A estória do Pequeno Príncipe não é apenas uma estória. É quase que uma parábola, beirando uma alegoria, tocando-se quase como um mito sobre a condição humana. Uma estória de crianças para adultos. Sim. Imagino crianças nas cabeceiras contando esta estória para os pais.

Perguntando um dia sobre as múltiplas formas de ver, eis que o Principezinho me segredou:

“As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam.”

E assim na vida, como na arte, os olhos de ver são tantos e tão múltiplos…
É preciso reconhecer que a palavra se vivifica, e a literatura se renova. Mas nunca por ela em si, que nada pode. A literatura por si só é muda. Ela só pode falar através de nós, humanos, que a ressignificamos.

É preciso ter olhos de ver. É preciso trazer a chave. E talvez, tudo faça mais sentido: mas nunca, todo o sentido.

À bientôt, mon Petit Price! Maintenant les étoiles ça me fait toujours rire…
(Até breve, meu Pequeno Príncipe! Agora as estrelas sempre me fazem rir…)

Grande abraço!
Carla Guedes

* Esta matéria foi escrita em homenagem ao Ano da França no Brasil, que se encerra neste final de semana, e também à exposição O Pequeno Príncipe que está sendo realizada na OCA, em São Paulo.